O betting

0000311146Os poucos que restavam iam saindo devagar, a tarde começando a cair para a noite, e Eduardo, sentado, contemplava sozinho e pensativo a vastidão do prado à sua frente, a pista de grama, verde, mas já sem a reverberação da luz vertical do sol no dia seco; todos os páreos tinham sido corridos na grama. Ganhou um só vencedor na tarde toda, Albardão, pule de trinta, nada mau, e a perda no global da tarde foi razoável, não muito grande, ele sabia se controlar. Mas não era na perda que pensava, estava habituado, era como o Edgard da música, que todo fim do mês perdia o aluguel. Isto é, não; ele, Eduardo, não perdia o aluguel, não perdia tanto e nem pagava aluguel, ganhava razoavelmente, e vivia medianamente, era um jovem procurador do DNER, e continha-se para não deixar aquele fascínio das corridas arruinar seu orçamento. Priscila contemporizava, compreendia aquela fraqueza, não era um vício, e ele não frequentava boates, não bebia e não gastava com mulheres.

Não, não era esse o tema daquele momento de reflexão e decisão. Fazia um cálculo, Balalaika no último páreo tinha pago mais de quarenta, pouco apostada, com certeza tinha elevado bem o prêmio do betting. E aí, pronto, podia ter ganho o betting, seria a fonte daquele dinheiro. Como tinha ganho a acumulada de quinze mil no ano passado, podia muito bem ter ganho o betting agora e embolsado uns trinta mil. Ninguém iria desconfiar nem verificar. E podia aceitar a oferta do Samuel. Tinha ganho 30 mil no betting, ponto final; até para Priscila; chegava em casa com a cara da maior alegria. A mesma cara de segunda-feira do Departamento. Trinta mil no bolso, de betting!

Não era nenhum crime, a excepcionalidade no caso se justificava perfeitamente, podia dar o parecer tranquilo. Poderia dar até mesmo de graça, sem a oferta do Samuel. As distâncias entre cidades na Belo Horizonte-Brasília eram enormes, justificava-se perfeitamente a existência de postos de gasolina com maior proximidade, podia dar o parecer favorável de consciência tranquila. E receber os trinta mil do Samuel. Que era um cara confiável.

‒ Fique tranquilo, que este é um entendimento absolutamente reservado, absolutamente entre nós, somente; confie, nem minha mulher nem a sua.

Os olhos, a cara, a fala, a figura, o porte, o comportamento, o conceito, tudo no Samuel era confiável. Até a cor da gravata.

Pois tomava ali, naquela hora de calma, a decisão. Tranquilo, sim, olhando a paz que dava aquele prado largo e vazio, verde, na tarde estival; só precisava saber direitinho o valor do prêmio do betting.

Menos o chefe

As coisas mudavam com velocidade no Brasil; JK era mesmo um presidente pra frente, tocador emérito, não queria saber de futrica nem disse que disse, queria ver as estradas prontas e a cidade construída. Ia inaugurar no dia 21 de abril, disse e ia cumprir. E vivia elogiando o DNER, que realizava suas metas. O falatório era grande, e ele, o presidente, nem ligava, não queria saber, era maior, queria tocar e fazer, o Brasil seria outro depois dele. Claro que aquele ritmo febril custava caro: os custos das empreitadas aceleradas e as bolas para estimular o pessoal. Todo mundo estava levando. E levando muito, não era trintamilzinho não. Todo mundo menos o chefe, o velho engenheiro admirável que não dormia, que só queria cumprir a palavra com o presidente e não precisava mais nada na vida, saía com a glória daquele feito que era um monumento, tinha uma história respeitada, que estava ali naquela cabeleira branca esvoaçante, e que agora se completava com aquele desbravamento que ia mudar o país.

Do outro lado do prado, dois cavalos iam a passo para as cocheiras, encabrestados nas mãos de tratadores, não dava pra reconhecê-los de longe, sem as cores das camisas. Era um espetáculo de beleza inconfundível, uma corrida de cavalos; o próprio cavalo de corrida já era em si um espetáculo, de vida e de garbo. Beleza e emoção ali naquele prado. E interesse, claro, não negava, a torcida era pelo interesse da aposta. Não era vício, não se podia chamar de vício aquele interesse num espetáculo tão bonito e nobre.

O Jockey era uma nobreza; com aquele dinheiro compraria um título, tinha pensado nisso também; e poderia então frequentar o clube, a tribuna social, o restaurante, a sede na cidade, era uma tradição e uma nobreza, aquele clube. Ali se faziam também muitos relacionamentos importantes, proveitosos, empresários grandes, negócios se faziam naquele clube, bons negócios.

Contemplava e pensava. Dali podiam sair várias oportunidades de ganhar bons cobres, sem precisar de apelações. Tinha muito tempo pela vida, dava aquela cartada, levava o dinheiro do Samuel, que era honesto, e só. Não precisava mais, não ia entrar no vício da chantagem. O Aleixo, oh, Deus, que cara de pau, o empreiteiro vinha procurar pela fatura e ele dizia que estava ali trancada naquela gaveta, só que, por azar, ele tinha perdido a chave da gaveta, mas ela se abria com uma chave de Volkswagen, na maior cara de pau, e o empreiteiro trazia o carro pra ele no dia seguinte.

Não, tinha caráter, tinha orgulho e nunca ia chegar a fazer essas coisas. Nem precisava. Não queria e nem precisava. Tinha seu salário digno e controlava bem seus gastos, Priscila colaborava bastante, mulher formidável, amiga, bonita, simpática, feliz, faria sucesso naquele clube. Sim, ia receber aquela quantia extra como um prêmio pelo seu cumprimento de dever, competente, no dia a dia. Comprava um título do Jockey e começava uma vida em patamar mais elevado, recomeçava, vida limpa, em outro relacionamento, outra sociedade, com a mesma austeridade e a mesma dignidade.

Foi o último a sair. Olhou e pensou: seria a última vez que punha os pés naquela tribuna especial; a próxima seria na tribuna social. Ainda que demorasse: teria que adquirir a ação e passar pela admissão, podia demorar uns meses, mas não voltaria a pisar ali, ficaria sem ir ao prado esse tempo todo. Tinha ganhado o betting e passaria um tempo sem jogar, Priscila ia adorar.

Chegou em casa de feição radiante, uma noite feliz, aquela, reviveu os objetos da sala, o todo dia que agora ia mudar. Beijou a mulher com carinho e cantou: tinha ganhado o betting e não ia mais jogar!

Especial para ASA

Roberto Saturnino Braga

Foi prefeito do Rio e senador da República. É colunista do Boletim ASA.

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