Mindinha

003 (3)Vidinha da mamãe, vidinha lindinha da mamãe, bonequinha vivinha da mamãe, Beth, sentada no chão, ia dizendo e repetindo de mansinho, irradiando amor com o olhar e coçando com o dedo o cantinho da boca da bebezinha, com o fito de tirar um sorrisinho leve da sua menininha de dois meses, deitada num caixote acolchoado que improvisava um berço.

Carne e sangue dela, vida gerada nela, saída do ventre dela; com a semente do Walter, sim, mas todinha feita dentro dela, alimentada no sangue dela, nove meses, e agora vivendo já no mundo mas com o leite dela, nutrida pelo corpo dela.

Tinha acertado com o seu João, levava ela para a fábrica e a deixava deitadinha num caixotinho igual àquele, num cantinho do galpão, enquanto trabalhava. Tinha até comprado um metro de filó para colocar por cima do caixote e evitar a poeira do galpão.

Levou aquele embrulhinho no colo, a fábrica ficava ali mesmo no Engenho de Dentro, a quatro quarteirões da pousada. Era o primeiro dia que voltava a trabalhar depois do parto; levou e deu tudo certo, seu João babou, Marco Aurélio também; até o palerma do Eurico se encantou.

Era uma fábrica de pufes; ela colocava a cobertura e costurava, um a um, dali estava pronto. Ficavam bonitos, vendia tudo. Naqueles meses de licença, Marco Aurélio e Eurico se revezavam, cobriam o trabalho dela, mas não faziam a costura direito, era preciso abrir de novo e refazer, e não ficava com o acabamento que ela dava. E a produção tinha caído, seu João estava ansioso pela volta dela.

Pois aquele era o dia da volta. A fábrica era só aquele galpão, ali se fazia tudo e ainda se armazenavam os materiais e os pufes prontos. O escritoriozinho do dono ficava em cima, ele olhando tudo de lá. Era boa gente, seu João, não aperreava e pagava direito. Beth trabalhava ali havia quatro anos; pagava a pousada e sobrava um dinheirinho. E ia dando tudo certo na volta; parava o trabalho, olhava Mindinha, dava o peito, ninava um pouquinho, continuava, tudo foi virando uma rotinazinha, a primeira, a segunda semana, tudo seguindo.

Seguindo normalzinho, terceira, quarta semana, até o dia da tragédia: seu João morre instantaneamente num acidente de automóvel em que ele se choca de frente com um caminhão desgovernado na Grajaú-Jacarepaguá. O acaso, o desastre, a tragédia, o destino de súbito: a vida da gente parece um joguete nas mãos de Deus. Beth jamais podia ter cogitado; viveu o choque paralisante, como um raio fulminante. E a consequência inevitável se apresentou: a fábrica ia fechar. Dias depois, a mulher do seu João apareceu para informar aos perplexos que não tinha como continuar aquela atividade e ia vender o galpão. Doava aos empregados todo o material estocado ali, que vendessem e repartissem o dinheiro da venda, como uma espécie de indenização. Estava acabado.

A realidade

Perdia o seu primeiro emprego, sem carteira assinada, nem tinha tirado carteira de trabalho, não tinha nem o primeiro grau completo, tinha 17 anos, era menor, mas não ia voltar para a casa da mãe em Eden, não ia de jeito nenhum, tinha saído de lá definitivamente havia mais de dois anos, aquele homem que só queria abusar dela, e a mãe nem ligava, queria o sustento dele, padrasto coisa nenhuma, vigarista é o que ele era, coletor do bicho, ganhava um dinheiro e achava que podia tudo, não voltava de jeito nenhum.

Walter era um duro. E completamente irresponsável. Mas procurou por ele, claro, a menina era dele também. Ele morava ali no Engenho de Dentro, com a mãe e um tio ranzinza que tinha um bar onde o Walter trabalhava, atendia no balcão. Beth explicou a situação e viu a cara do Walter. Por uns cinco minutos, parada, viu a cara do Walter que se movimentava pra lá e pra cá e não dizia nada. Viu a cara, ouviu o silêncio, e saiu levando Mindinha.

Seu Roberto, o dono da pousada, 250 por mês, implacável, onde ia arranjar? E como ia comer? Contou a história para ele, pediu para ficar um mês, enquanto arranjava qualquer emprego. Viu a cara do seu Roberto. Mas pelo menos ouviu dele:

‒ Onde que você vai arranjar emprego?

Não pôde responder e ele saiu da frente dela, foi fazer qualquer coisa, Beth foi para o quarto, olhou Mindinha, era a vida dela, oh, a vidinha dela, era a única coisa alegre da vida dela, ficou sacudindo a menininha, vidinha minha, deu o peito, Mindinha adormeceu. E seu Roberto apareceu.

‒ Se você quiser encarar a realidade, deixar de ser menina e virar mulher, você tem como ficar aqui.

No limiar da porta, respirou e olhou para o corredor, voltou-se para ela:

‒ Você pode continuar morando aqui, eu não vou te cobrar nada. Mas você tem que deixar eu dormir aqui de vez em quando, quando eu quiser.

Beth ficou olhando, não disse nada, não era uma fala surpreendente, há muito sentia os olhares dele, ela mesma já tinha pensado naquilo. Mas não disse nada, baixou os olhos, não rejeitou de todo, realmente tinha de encarar a realidade.

‒ Pense, não precisa responder agora.

Seu Roberto intuiu o pensamento dela. E o pensamento não parou de rodar. Tinha um dinheirinho ainda do último pagamento; ia entrar um dinheirinho dos materiais que Marco Aurélio ia vender. Podia comer umas semanas, e isso era uma coisa que seu Roberto não tinha dito: e a comida? Tinha o quarto e o café com pão da manhã, mas e o almoço? Ele daria? Se ela tivesse de pagar, tinha de conseguir um emprego; se conseguisse o emprego não precisava se dar para aquele homem nojento. Ia e voltava o pensamento. Que emprego? Como é que o Marco Aurélio ia se virar? Não podia ajudar ela a se virar também? Ia e voltava o pensamento, dava um asco em pensar naquele homem em cima dela, era um grosseiro, tinha sido da polícia, era um bruto. Era como virar puta, mesmo como puta de um homem só. Mas pensava também que podia ficar assim só uns tempos, até conseguir um emprego e se mandar, aguentar aquele estropício um ou dois meses e sumir dele logo que se arranjasse. Se ele desse o almoço também. Voltava o pensamento, buscava outras ideias, falar com Marco Aurélio, ou com a esposa do seu João. Voltar para casa, pelo menos ver a mãe, saber como ela estava, quem sabe ela já tinha se livrado daquele homem? Pensava em tudo. Pensava em ir ao ambulatório, lá em Vila Rosário, havia anos não ia lá, era menina quando ia com a mãe e ajudava no cuidado da horta, anos, mas a irmã Conceta podia ainda estar lá, gostava dela menina.

A sorte

Foi, sabia o caminho, durante um ano ia lá com a mãe duas vezes por semana, até aparecer aquele homem estúpido que não quis que a mãe continuasse trabalhando para as freiras. O ambulatório era o mesmo na fachada, uma fachada grande e clara abrindo para rua, um terreno grande nos fundos, que ia até a rua de trás, o terreno onde tinha a horta, umas laranjeiras, umas goiabeiras, que elas cuidavam, a mãe cuidava, tinha crescido na roça, e ela, Beth, ajudava. O ambulatório era amplo, atendia mulheres e crianças, tinha ginecologista e pediatra duas vezes por semana, prestava um serviço enorme para aquela gente miserável da Vila Rosário.

Irmã Berta era fechada, pouco sorria, fazia toda a secretaria do ambulatório com precisão, organizada, de poucas palavras na eficiência. Irmã Conceta era italiana e cuidava de todo o resto do prédio e do terreno, supervisionava as professoras que davam reforço escolar, o prédio tinha três salas de aula. Era uma mulher expansiva e amorosa, Beth tinha uma lembrança muito afetuosa dela. Quando viu a sua menina Beth com uma outra coisinha viva embrulhada, quase perdeu o fôlego de alegria e de carinho.

Não foi uma reviravolta súbita e inesperada como a morte de seu João, não foi um acaso porque tinha antecedentes e Beth tinha esperança, mas foi também uma rodada de ventura, um sopro da fortuna. Em meia hora de conversa, de encantamento da Irmã com a Mindinha, Beth encontrou o abrigo de que precisava, a paz e o afeto da felicidade. Irmã Conceta correu a escada para cima, conversou quinze minutos com a Irmã Dorothy, que era superiora, mais velha, pouco saía do seu escritório no segundo andar, e desceu feliz com a permissão para que Beth ficasse com elas, ajudando na limpeza e na retomada da horta que estava completamente abandonada.

Aleluia! Beth lembrava desta palavra, do seu significado luminoso, redentor, tinha aprendido ali mesmo, anos atrás, ouvindo a Irmã Conceta.

Nem precisava voltar à pousada, deixava lá umas roupinhas sem importância. Irmã Conceta administrava um bazar que abria aos domingos para a comunidade, com roupas e utensílios doados que vendia a preços baixinhos. Ela mesma compraria umas roupinhas para Beth e para Mindinha, elas ficavam lá desde logo. A fortuna, o mesmo mistério que agora virava a favor. Era Mindinha, a sorte era Mindinha, se chamava Mindinha, era a vidinha dela. Aleluia! Beth não pensou no que fazia: ajoelhou instintivamente, juntou as mãos e disse “Graças meu Deus” com os olhos marejados.

Boletim nº 154 – maio/junho de 2015 – Ano 27

Especial para ASA

Roberto Saturnino Braga

Foi prefeito do Rio e senador da República. É colunista do Boletim ASA.

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