Laurinha e Belinha

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Moravam as duas sozinhas numa pequena casa de vila na Rua Toneleros: Laurinha e Belinha, eram conhecidas assim, referidas sempre assim, apesar de Belinha, tendo já completado os 82, ser dois anos mais velha que a irmã. Tinham um irmão mais moço, Leandro, que há uns vinte anos tinha se mudado para Portugal, com passaporte europeu, dentista, parece que se tinha dado bem por lá, porque nunca mais dera notícia.

Os pais eram portugueses de Cabeceiras do Basto, no vale do Minho, atraídos ao Brasil por um tio, irmão da mãe, feirante bem sucedido no Rio, com um pequeno sítio no Mendanha, onde cultivava verduras, o seu verdadeiro gosto, e que pretendia investir em quitandas no bairro novo e promissor da cidade naqueles anos 1930, que era Copacabana, onde corria mais o dinheiro. E o cunhado, Alfredo, o pai das meninas, tinha experiência no comércio de gêneros, empregado que era no armazém da sua pequena cidade.

Belinha tinha pouco mais de um ano, nascida portuguesa, e a mãe estava pejada do que esperava fosse um irmãozinho, mas que veio a ser Laurinha. Só quatro anos depois nasceu Leandro.

Ajudados pelo cunhado, instalaram-se de aluguel na pequena casa 5 da vila na Rua Toneleros, perto do Otto Simon, que tinha sala, copa e cozinha em baixo, um quintalzinho de nada com um tanque, e dois quartos e banheiro em cima, e que era próxima à primeira quitanda que o Geraldo já estava montando na Barata Ribeiro, na altura da Praça Arcoverde.

E a vida para eles e elas começou ali, o pai nunca prosperou como o tio, mas teve o bastante para comprar duas quitandas do Geraldo, mais uma lojinha alugada, e dar à família o sossego e o conforto mínimo de uma existência estável.

Estável talvez em excesso, colégio muito bom para as meninas, o Sacré-Coeur ali na mesma rua, e um colégio mais simples, mas igualmente bom, para o Leandro, também nas imediações, na Praça Serzedelo Correia.

Vida sem acontecimentos, vida anódina, absolutamente comum, percalços pequenos, pequenas venturas, circunstâncias propícias para as meninas, brincadeiras infantis dentro da própria vila, a roda de cantigas, o anel, a barra-manteiga, a ida e a volta ao colégio de mãos dadas, um quarteirão da rua, de aventura só um mergulho na beira da praia aos domingos, sob a vigilância da mãe em vestido e sandálias debaixo da barraca. Sim, vida feliz. Sim?

Rotina

Não conheceram o amor. Por circunstâncias várias, a partir dos limites estreitos da vida que levavam, da visão severa que presidia todo o ambiente familiar de velhos hábitos portugueses interioranos, dos rígidos preceitos religiosos observados sem relutância pelas meninas, a orientação de não ingressarem nos estudos superiores, domínio dos homens, a passiva espera do pretendente ao casamento, circunstâncias várias convergiram para que as meninas não se enamorassem quando moças. Belinha ainda teve dois namorados, o primeiro quando adolescente, namorado de portão, de muitos olhares e poucas palavras, uma ou outra ocasião de pegar na mão; o segundo, o Marcelo, mais demorado, mais tencionado, irmão de uma amiga que tinha sido do colégio já concluído.

Marcelo chegou a entrar na casa da vila, conheceu dona Esmeralda, que acompanhava as filhas em festinhas de dança, era visto como rapaz distinto e pretendente de boa qualificação. Marcelo estudava engenharia e já trabalhava de estagiário na companhia telefônica. Marcelo telefonava quase todo dia e já podia ir aos sábados ao cinema com Belinha, indo junto a Laurinha. Beijavam-se no escuro do cinema enquanto Laurinha olhava a tela e via o filme.

Belinha tinha os traços finos de um rosto bem desenhado, era uma moça bonita de pele suave e olhos compassivos, a figura de um biscuit. Era magrinha toda ela, delgada, carecia de formas, as pernas e os braços pareciam de menina; os lábios não tinham nenhuma carnação. Não se sabe a razão, mas, de um dia para o outro, Marcelo desapareceu. Quem sabe conheceu outra, quem sabe enlouqueceu. O fato é que sumiu, não deu sinal nem explicação. Belinha sofreu, chorou, ainda mais magrinha ficou, sem apetite, preocupando a mãe.

Laurinha nunca teve namorado. Desde cedo faltaram-lhe atrativos. Ao contrário da irmã, era de constituição forte, musculosa, tendendo ao masculino, constituição esta que se foi acentuando com a idade de tal forma que aos 30 anos era uma portuguesa consistente e ostentava um buço proeminente.

Cresceram, viveram e envelheceram, sempre juntas naquela vida sem emoções. Isto é, sem nenhuma outra emoção que não aquelas dos eventos naturais: as comemorações de aniversário, a comunhão da Páscoa, as noites contritas de Natal, a Missa do Galo e a ceia com vinho do Porto e rabanada; e as emoções normais da tristeza: morreu o pai em 1969, a mãe dez anos depois, Leandro se casou em 1971, não teve filho, separou-se cinco anos depois e se mandou para Portugal no final dos 80.

Foi assim, e elas ficando, costurando, bordando, tricotando, até quase o ano 2000; depois foram parando, vendo televisão, ouvindo um cedezinho saudoso, fazendo as refeições, tomando um solzinho de manhã na varandinha que dava para duas cadeiras; iam à padaria todo dia, à farmácia e à feira toda semana, à missa na Nossa Senhora de Copacabana todo domingo, visitavam a irmã Felícia no Sacré-Coeur a cada dois meses, sempre juntas, a pé, não sabiam andar de ônibus, tinham saudades dos bondes, quando precisavam, tomavam um táxi, tinham os aluguéis das três lojas deixadas pelo pai. De seis em seis meses, iam ao doutor Laerte, na Policlínica de Botafogo.

Era a vida. A vizinhança era toda de um geração nova, gente educada, davam bom-dia e boa-noite, mas não conversavam mais. Só dona Eugênia parava um pouco e trocava uma palavras, sobre acontecimentos da semana, sobre a mãe que morava com ela e tinha Alzheimer, precisava de uma ajudante. Morava na casa dos fundos da vila que era um pouquinho maior, tinha um quintal pouco mais amplo, dona Eugênia, filha do seu Miguel, já falecido, que era um estofador e trabalhava no próprio quintal. Dona Eugênia fazia cerâmica, era uma artista, dava aulas e produzia peças para vender.

Dona Eugênia, sim, parava e conversava um pouco, todo dia saía a passear o seu cachorro, Lord, um labrador simpático que sentava e esperava, enquanto ela falava do tempo, dos assaltos, preocupada com a segurança na cidade cada vez mais violenta, aquele horror. Confiava muito no Lord.

Era a vida. Eram felizes? Não pensavam nisso. Pensavam, sim, na morte, com certeza próxima. Com tranquilidade; sabiam que encontrariam o pai e a mãe. Sabiam também que não podiam viver uma sem a outra, e que a outra, que ficasse, iria logo logo depois da primeira que morresse, talvez uma semana, não duraria nada. O problema seria o túmulo, do pai e da mãe, no Catumbi, que só podia enterrar a outra depois de três anos da primeira. Não, isso tinha sido uma preocupação inteiramente superada, haviam indagado bem: o túmulo tinha dois andares, a primeira seria posta no de baixo para dar lugar à segunda no de cima; ficariam juntas também lá.

A vida, a passividade, a amenidade sim, a tranquilidade sem questionamentos da rotina inalterada, dia após dia, até o dia do acontecimento.

Dona Eugênia passava de manhã com o Lord e parou: como vão, bem, isso e aquilo, e contou que há tempos o Lord tinha passado uma semana na casa de uma amiga que possuía uma fêmea, e do namoro tinha nascido há dias uma ninhada, da qual ela, Eugênia, havia ficado com dois nenenzinhos: uma fêmea, que ia guardar para ela, para fazer companhia ao Lord, e um machinho. Pensou em vender aquele bichinho, chegou a oferecer a várias amigas, pensou em botar anúncio, mas não queria ter trabalho com aquilo, não precisava daquele dinheiro e resolveu doar o cachorrinho. Pois estava, primeiramente, oferecendo a elas duas: uma companhia para as vizinhas, a raça mais cordata e amiga que havia.

O dia seguinte

Oh, a repentina obstupefação. Sem respirar, olharam-se uma para a outra e o pensamento se fez numa centelha, não deu tempo a que pensassem, toda a vida nova que se abria, abria-se para elas numa fração de segundo: sim, queriam o cachorrinho; nunca haviam pensado naquilo e, num repente, sentiram o renascimento, a fascinação da vida nova.

Oh, a alegria para dona Eugênia também. O cachorrinho ainda estava na casa da amiga, mas no dia seguinte ela passaria por lá e traria os dois, a dela e o delas. Oh, comemoraram ali as três com palavras de júbilo, elas iam ficar encantadas, com certeza, nada como um bichinho amigo daqueles para trazer felicidade, elas iam ver como ia ser bom. Oh, graças, que coisa boa.

Dona Eugênia deixou-as para fazer sua caminhada e as duas irmãs entraram em casa e começaram. Começaram a vida nova, pensavam em uníssono, eletrizadas com o cuidado da vida que se abria nova. Não discordavam em nada: ali no cantinho da copa seria o quartinho dele, havia uma petshop na Inhangá, iriam lá comprar um bercinho para o Príncipe, seria o nome dele. A própria dona Eugênia as instruiria com a sua experiência, veterinário, cuidados, ração, aquela coisa toda, os passeios com ele.  Saíram logo, foram ao Inhangá, compraram a caminha de madeira, o menino trouxe na mão com elas, também já uma coleirinha, viram que ali tinha tudo, e acharam um livro, A saúde do seu cão, que com certeza devia dizer tudo, era uma leitura conjunta para o dia. Almoçaram de qualquer maneira, nem viram o noticiário da uma hora, telefonaram para Maria Cecília e para Josefina, contando a novidade, indagando conhecimentos, pensaram em visitar a irmã Felícia, mas Belinha ponderou que tinham estado lá havia um mês e ia parecer um alvoroço delas, Laurinha acatou, pensaram em ir ver o Lord em casa, para ter uma ideia, conversar com a moça que cuidava da velha, mas também era alvoroço demais. Bem, leram o livro, uma para a outra, comentando, tinha lá até o jeito de ensinar o cãozinho. Aquilo era importante, falava da inteligência e dos sentimentos do cão. De repente ouviram a Ave Maria no rádio que estava ligado, e pararam cansadas, tinha passado o dia, pararam e rezaram com contrição, agradeceram a Nossa Senhora aquela vida nova, aquela bênção, acabaram ajoelhadas no tapete. Acalmadas pela oração, ligaram um pouco a televisão, lembraram-se da novela, abriram um miojo, comeram devagar vendo a televisão e começaram a se arrumar para dormir. Estavam mais tranquilas. Mas, na cama, cobertas, recomeçaram a falar sobre o cachorrinho, devia ser amareladinho, da cor da raça, era de raça pura, ia ficar crescidinho, um pouco grandinho para o tamanho da casa, mas tinha o espaço da vila, ele podia ficar brincando por ali desde que não saísse para a rua, todos iam gostar dele; na rua, só com elas, na coleirinha. Não conseguiam pegar no sono. Laurinha reconheceu, levantou-se, tomou um diazepan e trouxe outro para Belinha, não adiantava ficarem acordadas e exaustas no dia seguinte. Tinham de dormir e descansar: no dia seguinte a vida mudava, no dia seguinte ia chegar o Príncipe.

Especial para ASA

Roberto Saturnino Braga

Foi prefeito do Rio e senador da República. É colunista do Boletim ASA.

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