Jardim Botânico *

Bromeliário

Verde que te quero verde, meu filho se chama Antonio Frederico por amor ao poeta, e eu, um velho político, também mereço um pouco de quietação no meio desta desgastante tensão em que vivemos hoje no Brasil, para falar de uma das joias da nossa bela cidade.

Vou sempre que posso ver o verde do Jardim Botânico. Às 7 da manhã, que é a hora da luz e da brisa. Dos pássaros, sabiás, tucanos, dos macacos em bando, dos jacus e das saracuras barulhentas.

Entro pelos fundos, passo pelas casas toscas e simpáticas, ouço e vejo numa delas ‒ espio por cima do muro ‒ o belo galo que sempre canta para mim; logo depois o flamboyant que sombreia aquela rua interna e às vezes grita ao mundo de tão vermelho; e o mural bem desenhado e agradável à esquerda. Dobro à direita e leio os cartazes, vejo a Bicyclette e logo o cipreste redondo bem na curva de entrada, onde se aspira um cheiro forte que me agrada muito, não sei de quê, parece mastruço, um xarope antigo; não sei direito o que é mastruço, mas chamo assim aquele cheiro bom e sadio.

Atrás da bilheteria, fechada a esta hora, está a velha casa de janelas verdes, igualzinha à do meu avô na Rua Barroso, o tamanho, as cores, o estilo, o pé direito alto e o feitio das esquadrias. Paro e recordo um minuto.

E penetro o arboreto com o meu cartão. Já vou sentindo o perfume das flores grandes e brancas da extensa trepadeira à direita.

Cumprimento o busto bonito do jovem d. João 6º, o Fundador, à esquerda ‒ o detalhe é a pequena trança dos cabelos ‒, e admiro o grupo de tai-chi à direita, debaixo das grandes mangueiras, os movimentos lentos e controlados, que conferem equilíbrio e senhoria ao corpo da gente. Sigo até o lago, recebo o sol da hora e muitas vezes subo o cômoro feito há duzentos anos com a terra da escavação do lago. Lá em cima, além da mesa de piquenique do Imperador, está o busto tranquilo de frei Leandro do Sacramento, o primeiro diretor sábio que organizou tudo aquilo. Embaixo tem ainda a jaqueira sob a qual ele se sentava para descansar e fazer anotações sobre os trabalhos.

Viro à direita, contornando o lago pela esquerda, passo pelos bancos da Clarice Lispector, vou pisando o chão roxo dos jamelões caídos, tomo a esquerda depois da entrada dos sanitários e vou reto até a curva do orquidário, passando pela casa preservada do antigo moinho, com suas enormes mós de pedra postas em exibição.

No orquidário, dobro à direita e sigo no caminho entre as buganvílias solferinas irradiantes e a bela casa ampla, amarela, antiga de uns cem anos talvez, no estilo dos primeiros 1900, onde fica hoje a Administração e onde residiu, no curto tempo em que foi ministro de Jango, o meu amigo brilhante Almino Afonso, e, também, antes da posse, o presidente nomeado Ernesto Geisel, nacionalista condenado pelo Grande Capital.

Cidade abençoada

Vejo logo os ipês-roxos, floridos, emocionantes, e me lembro da contemplação do meu tempo de Maria Angélica, lá no alto, parado alguns minutos na janela da frente para ver a beleza daquela árvore florida na frente da casa do outro lado da rua, que deve ter sido plantada por Virgílio de Mello Franco, o primeiro morador dali, ali estranhamente assassinado.

Passo o bromeliário, subo e desço a pontezinha, confiro o volume de água do rio  embaixo para avaliar a pluviosidade do momento e sigo a reta que vai passar sob a majestade do sombreiro capaz de abrigar um quarteirão. Cruzo a aleia da entrada da Pacheco Leão e continuo; à direita fica o sítio da antiga fábrica de pólvora, onde hoje brincam as crianças, e à esquerda, os enormes bambuzais gementes; vou até a via principal na sua parte dos fundos, ladeada, do princípio ao fim, pelas velhas palmeiras imperiais, o símbolo do Jardim. No fim, à minha esquerda, está o clássico e imponente pórtico de pedra da antiga Escola de Belas Artes.

Caminho pela via principal e, à direita, estão as grandes sapucaias, magníficas na cor suave da sua abundante florescência, e chego ao centro do Jardim, sua joia principal, o belo chafariz do Mestre Valentim, perfeito, sereno, lisonjeiro para os cariocas. A contemplá-lo do alto, à esquerda, o monumento da natureza, a sumaúma amazônica, consagradora.

Tomo a esquerda, confiro a velha árvore plantada por frei Leandro, que ainda está de pé quase caindo, e vou reto; passo o pavilhão das esculturas do Mestre Valentim e aprecio o lago Folha Seca, onde frequentemente está o próprio Folha Seca, com seus 90 e tantos anos, sorrindo na sua bicicleta. Converso um minuto e prossigo até a fonte de Eco e Narciso, outra joia de se parar e ver; e escolho uma das vias à direita, ou a dos paus mulatos, altos, lisos, esguios, lindos, ou a das andirobas frondosas que cruza a das velhas mangueiras nodosas. Sigo até o jardim japonês, onde, se tenho sorte, admiro um exemplar da mais bela flor do mundo, a flor de lótus, redonda, bojuda, sagrada na sua pureza suave, na sua alvura, na sua formosura. Perto estão as camélias, tão bonitas que fazem chorar as moças jardineiras quando caem do galho e morrem; e que são um consolo quando falta a flor de lótus.

Em frente à velha e principal entrada, com os dois pavilhões simples e marcantes, retorno pela via principal das palmeiras imperiais, vejo diante de mim a estampa do belo selo antigo comemorativo do primeiro centenário do Jardim Botânico. Novamente o chafariz e, à esquerda, a ruazinha dos manacás que vai até o lago e o cômoro do frei Leandro.

Tomo então o caminho da saída lateral, respirando fundo o ar benfazejo, abrindo os braços e os pulmões em exercício, paro para ver os macacos matreiros quando descem da mata, olho à direita para a beleza da cascata do Caminhoá, que parece de água mineral, e vou até o fim para um alívio no sanitário.

Se tenho tempo, subo e entro no jardim sensorial para sentir os aromas, fico ali uns cinco minutos e retomo a saída, passando pela placa evocativa do grande Darwin, e parando, finalmente, para beber um pouco daquela água lustral da boca feminina da fonte de ferro fundido.

É o meu trajeto. Que não contempla outros pontos de destaque, como a escultura de Diana, a caçadora, e toda a parte de fundos do outro lago, por onde se vai ao velho aqueduto e ao caminho do Solar da Imperatriz.

Saio novamente por onde entrei. Com o corpo e a alma cheios da felicidade da hora que passei naquele sítio, que é a própria divindade da natureza. Sítio abençoado, como toda a cidade do Rio de Janeiro.

* Publicado originalmente no site Plurale, em 17 de julho de 2016.

Roberto Saturnino Braga

Foi prefeito do Rio e senador da República. É colunista do Boletim ASA.

Seja o primeiro a comentar