Imelda

 

homen aranha

Profissional de relatórios, Esteves recebia todo o material de um trabalho, de um estudo, uma pesquisa, e escrevia um relatório final, era o seu ofício, fazia-o bem, era requisitado e cobrava bem.

Marcou o encontro no Ernesto, o restaurante da Lapa. Gostava de almoçar ali, conhecia a comida e os preços, gostava do espaço físico, aquela construção antiga de pé-direito bem alto, dava amplidão, o ar parecia mais puro, as paredes grossas ainda originais de pedra e argamassa, as vigas de aço, vermelhas, sustentando o segundo andar elevado, as fotos grandes, antigas, nas paredes, a Lapa famosa do início do século 20, um ambiente simpático, e tradicional, seu pai, seu avô, o tio-avô Zezé já almoçavam ali nos anos 30 e 40.

Conhecia o Reginaldo e sabia que ele também gostava, de vez em quando o avistava ali. Era economista de consultoria, Reginaldo, que elaborava pedidos de financiamento para a Caixa, já tinha feito dois trabalhos para ele. O último, aliás, contratado ali mesmo, no Ernesto, havia cerca de um ano.

Olhou rápido o cardápio e pediu um filé provençal, aquele com bastante alho e uma farofinha, e uma taça de vinho tinto. Reginaldo aceitou a ideia e acompanhou. Objetivos, ambos, técnicos daquela geração da produtividade que manejava o tempo com prioridade.

Recebeu a papelada em duas pastas e abriu, por abrir, não ia ler nada ali, naturalmente, folheou um pouco, só queria ter uma ideia do volume que ia ter de examinar, pôr em ordem e digerir num relatório. Era um grande conjunto habitacional no Recreio, mais um. Incrível como se construía e se vendia imóvel, tanto imóvel, naquela área, até há pouco de apartamentos de fim de semana, agora imensos edifícios de moradia, e vendia tudo, era um espanto aquele mercado.

Pois bem, não havia muito o que discutir ‒ o preço, o Reginaldo já sabia, era por página ‒, a única conversa era sobre a apresentação, capa, desenhos, aquelas coisas, e o estilo, o jeito de oferecer logo de cara as conclusões e o pedido formal, definir desde logo a substância e apresentar em seguida os dados de fundamentação, os cálculos, etcétera,  gostava de fazer assim os seus trabalhos. Reginaldo achou boa a sugestão, dava impressão de segurança e objetividade ao financiador.

E chegou o filé, o serviço era bom e rápido no Ernesto, restaurante de executivos. Do vinho, já tinha tomado um gole, foram comendo e conversando. Na mesa em frente e ao lado, uma jovem de cabelos pretos meio desalinhados, pele clara e olhos bem verdes almoçava com um companheiro. Almoçava e olhava, olhava nos olhos de Esteves, sem perturbação nenhuma, o companheiro de costas, bonita, mulher, moça, e algo que atraía muito, além dos olhos verdes, um certo ar doentio, uma palidez de decadência, uma tara de família, uma coisa assim indefinida.

A próstata

Nada comentou com Reginaldo, evidentemente, a conversa era de negócio, não havia intimidade de amigo. E prosseguiu naturalmente, a conversa de acerto, sim, era de acerto de detalhes, tempo, prazos, parcelas de pagamento, conta bancária, enquanto olhava a moça e era olhado. E ia pensando, em paralelo, o que fazer para falar com ela, sim, tinha de falar com ela, sabendo que ela também queria, era evidente que ela queria. Mas estava acompanhada, não podia desmoralizar o cara. Pois ele, Esteves, sairia junto e seguiria discretamente os dois, talvez se despedissem logo à saída do restaurante, e então seria mais fácil. Se não, seguiria os dois até o ponto em que ela ficasse só, talvez não ficasse só, talvez trabalhassem juntos, neste caso, ficaria sabendo onde procurá-la depois, daria um jeito. Tudo ia pensando, acertando com Reginaldo, olhando Imelda e sendo olhado. Não sabia ainda o nome dela, mas era irresistível, aquele ar doentio, desleixado, era de uma entrega só, total, séculos de decadência e depravação geneticamente acumulados, imaginava, chegava a sentir.

Percebeu os primeiros movimentos de finalização do casal, era preciso estar atento. Fechar a conversa com Reginaldo era fácil, estava tudo praticamente combinado, era só dizer que qualquer detalhe a mais que surgisse seria acertado depois, oportunamente.

Certo, então está bem, certo, está combinado.

Então começou a falar do restaurante, a qualidade, a tradição, seu pai já gostava de comer ali e comentava muito. Ele, Esteves, tinha almoçado com o pai várias vezes ali mesmo, sabia que o avô também era freguês. Sempre atento aos movimentos da outra mesa, os olhares prosseguiam, como se fossem normais, ela terminou o prato e, pouco depois, o companheiro também. Atento ao possível pedido de sobremesa deles, continuou a conversa em assuntos que pudessem ser interrompidos quando necessário, o ressurgimento recente da Lapa como grande atração noturna, como nos tempos do seu pai e principalmente do avô, segundo contava.

Oh, eles não iam comer sobremesa, e Esteves propôs a Reginaldo que pedissem o café, já que não iam, eles também, comer sobremesa. E assim foi feito, continuando a conversa da Lapa com casos antigos e atuais, o clássico Madame Satã, quando sentiu que tinha de urinar. A porra da velhice, tinha aparecido o problema da próstata, já tinha procurado o urologista, não era ainda caso de operar, mas de monitorar, ir ao doutor Vaz pelo menos a cada dez meses e acompanhar, fazer aquele exame de toque que era chato mas não demais, como muitos diziam, preconceito bobo de machista. O mais chato de tudo era aquela vontade de mijar repentina e aguda que dava de vez em quando, especialmente quando não devia dar, era psicológico. Oh, o cara pediu a conta, eles não iam nem tomar café.

Sabe, o café não anda me fazendo muito bem ao estômago, disse ao Reginaldo, toma você enquanto eu vou ao banheiro fazer um pipi urgente. Levantou-se apressado.

Vexame

Era no segundo andar, tinha de subir uma escada alta, no caminho cruzou com o garçom, pediu um café só para o Reginaldo e logo a conta, e subiu a escada a passo largo. Lá do alto viu a mesa do casal e o garçom  dizendo que já traria a conta.

Demorou um pouco na micção, para começar e para acabar, tinha muita urina acumulada e o jato não era grosso. Fechou a braguilha com pressa e não lavou as mãos como de costume, a pressa era maior. Saiu rápido, desceu o primeiro lance e do patamar viu a mesa dos dois, o cara estava pagando, digitando na máquina a senha do cartão, iam sair logo e ele ia perder o rastro da mulher, ainda tinha de pagar a sua conta, desceu o segundo lance com impulso maior.

E no meio do segundo lance, olhando a mesa da Imelda, pisou mal no degrau e desequilibrou-se. O instinto funcionou e Esteves não caiu, segurou no corrimão e conseguiu reequilibrar-se, só que não pôde conter o impulso forte da descida. Ágil, recompôs-se e conseguiu descer os últimos degraus. Mas o impulso obrigou-o a descer de dois em dois para não cair, e quando pisou o chão vinha com a massa do corpo em velocidade, não pôde evitar o choque com o garçom que passava em frente à escada com a bandeja cheia, três pratos de comida e copos de suco cheios.

O garçom não caiu, nem ele, Esteves, mas a bandeja inevitavelmente foi ao chão com estrépito, causando dano: um dos copos, cheio de suco de uva, bateu na cabeça de um freguês sentado na mesa próxima, derramando-se o líquido sobre a camisa e o paletó do terno bege, enquanto o prato com carne assada e creme de espinafre esparramava-se de frente sobre o outro freguês da mesma mesa.

Oh! O erguer rápido e indignado dos dois atingidos, guardanapos na mão em movimentos instintivos, frenéticos e inúteis de limpeza, a perplexidade de ambos, e dos dois desastrados também, Esteves e o garçom, os lamentos, os pedidos de desculpas, mil desculpas, a inocuidade de qualquer providência, o dano consumado, o garçom no meio, atarantado, o não saber o que fazer, o pequeno tempo de paralisia, as desculpas continuadas de Esteves, sem nenhuma correspondência de aceitação dos dois, Reginaldo chegando para ajudar, sem saber como, a declaração de disposição de ressarcir qualquer prejuízo, a inocuidade continuada, bem, não adiantava ficar ali eternamente, foram saindo devagar, bem devagar, Esteves e Reginaldo, constrangidos por não saberem como reparar, e voltaram à mesa, para pagar e sair dali o mais depressa possível.

Só então Esteves lembrou-se da moça, claro, não estava mais lá, tinha perdido aquele contato tão chamativo, tão promissor, tão eminentemente promissor, pela figura dela, pelos olhos dela, ousados, pela palidez dela, doentia, algo febril, como uma tara de gerações, completamente perdida, nem podia voltar ao restaurante seguidamente na expectativa de reencontrá-la, tinha de desaparecer do Ernesto por um tempo depois daquele vexame ruidoso. E, aliás, ele nunca a tinha visto anteriormente, ela não devia ser frequente ali, enfim, estava perdida definitivamente aquela oportunidade, aquele convite a uma experiência inusitada, que mulher deliciosa devia ser. Definitivamente. Que azar. Que delícia de mulher. Que azar. Imelda.

Especial para ASA

Roberto Saturnino Braga

Foi prefeito do Rio e senador da República. É colunista do Boletim ASA.

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