A decisão

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Acordou ofegante e sobressaltado, a maré enchia de água a estrada que ele percorria, água fria do mar, ondas grandes, crescentes, água gelada que lhe causava tremor no corpo apesar do suor que molhava o pijama. Uns sete segundos de respiração aflita, atônito, e deu acordo; era mais um pesadelo, oh, quase toda semana aquilo, um suplício, tinha visto um documentário sobre o Monte Saint Michel com sua estrada de acesso que a maré enchia.

Aquilo se repetia e ele conhecia a causa, o ventre cheio de gases pressionando o plexo solar. Chegava tarde em casa, cansado, jantava depois de dez horas, comia bem, sem nada no estômago desde o almoço, e ia para a cama meia hora depois. Cláudia gostava de dormir cedo, dava o peito e botava Mariana para dormir. E ele ia também, não tinha o gosto de ver televisão, às vezes lia um pouco, mas logo ia dormir com a mulher, sentindo a barriga ainda cheia, e tinha aqueles sonhos pesados. Devia dar uma caminhada depois do jantar, fazer a digestão, mas Cláudia não queria, nem podia, por causa da menina. Sozinho não se animava. E tinha de fazer sexo, por gosto e até um pouco por dever, por Cláudia e pelo equilíbrio do casal. O jeito era comer menos, tomar um lanche no meio da tarde e comer pouco de noite. Tinha que arranjar tempo para o lanche, não era fácil, mas não podia continuar tendo aqueles pesadelos, era um horror, um suplício, e tinha medo de ter um enfarte num momento daqueles. Era moço, mas havia enfartes com 38 anos, e era coisa fulminante naquela idade.

Levantou-se, soltou gases e tomou umas gotas antigases, um estresse. Foi até o berço acalentar Mariana, que havia acordado com certeza com os seus movimentos e suspiros de aflição. A menininha logo tornou a dormir na penumbra de uma luzinha que ficava acesa no canto do quarto; Cláudia nem se mexeu.

Era uma bênção que tinha caído sobre eles, aquela menininha tão branquinha, redondinha, tão lindinha. Tão alegrinha. A primeira filha, desde seis anos de casados. Programada, Cláudia deixara de tomar as pílulas. Ele, com novo emprego, mais duro porém com bom salário, era engenheiro eletricista, fazia as instalações de uma grande construtora, e continuava com o seu escritoriozinho de projetos para não perder a experiência e a destreza. E Cláudia tinha ganhado um bom apartamento na herança do pai falecido no ano passado.

Podiam ter outra, ou outro, tinham programado, teriam, sim, pelo menos mais um, e não ia demorar, para não dar um espaço grande entre os irmãos, e para Cláudia não perder a ligação profissional por uma segunda vez, emendar logo o estágio de maternidade que havia acertado com as colegas de consultório. Decisão de bom senso.

Tempo para pensar

Sentado na beira da cama, ficou olhando a menina, o milagre da vida, o milagre, o milagre, ficou repetindo mentalmente, o milagre do amor. Que bom que tivesse vindo uma menina, suave, doce, e matriz, ventre gerador de milagres; não fazia questão de um herdeiro à sua imagem e semelhança, a mulher é que dava a vida, nutria, conservava, preferia mesmo uma outra menininha daquelas, irmãzinha, garantia de reprodução da estirpe.

Sentado à beira da cama, sabia que custaria a dormir novamente, eram duas horas da manhã, tinha de relaxar e se livrar dos gases para retomar o sono em paz. Era uma hora de pensar, refletir, hora rara na vida de agora, vida do absurdo de produtividade cada vez maior para trabalhar cada vez mais, o paradoxo da ciência do homem dominada pelo capital voraz. Cadê a lógica? Queria ter tempo para estudar filosofia e não tinha meia hora para pensar nas coisas mais importantes da vida. Era preciso ter um pesadelo…

Filosofia, sim; a engenharia sem filosofia produzia monstruosidades, coisas sem sentido. E estudar sistematicamente, não amadoristicamente como havia tentado, lendo Descartes, Kant, aos pedaços, sem orientação, interessante, sim, mas não formava um pensamento sistematizado, não produzia uma visão das coisas, uma visão da vida.

Como era bom ter tempo para pensar, oh, relaxar e pensar livremente, no silêncio. Meditar de verdade, conteúdos, não a meditação ioga do não pensar nada, esvaziar a mente; ao contrário, deixar a mente livre para alçar o voo que quisesse, o voo do tempo, o tempo do ser, do ser do homem, não o tempo das coisas, dos movimentos, do cosmo.

Esta era a questão principal da vida, essencial; tinha de refazer a sua, e refazê-la sua, sob sua decisão, claro, considerando Cláudia e Mariana, que faziam parte dela, mas eminentemente sua. Não logo agora que estava há menos de um ano na empresa, mas faria essa reformulação dali a um tempo, quando Cláudia retomasse seu consultório plenamente, depois da segunda filha, ele com quatro ou cinco anos de empresa, mantendo o seu escritório, ou talvez desfazendo-o para voltar a estudar, fazer mesmo um curso regular de filosofia; podia acertar um horário na empresa.

Andou um pouco pelo quarto, foi até a cozinha, bebeu um pouco de água gelada, mastigou uma pastilha de magnésia, respirou bem na janela e voltou lentamente para a cama.

Sim, era uma decisão. Definitiva, embora de execução estendida no tempo. Incrível a vida corrente, absurda, era preciso ter um pesadelo para criar o tempo de meditação e tomar uma decisão tão fundamental, tão essencial ao ser da gente. Não importava o tempo necessário para a implementação, a decisão era sólida, definitiva, estava tomada, era a sua libertação, não seria escravo toda a vida, mais uns poucos anos e dividiria as coisas, racionalmente como um engenheiro, dividiria com Cláudia também, falaria com ela no dia seguinte, só mais uns poucos anos e se libertaria. Tinha decidido. O tempo haveria de confirmar. O tempo, que é o ser do homem; tinha criado um tempo seu. Viva!

Especial para ASA

Roberto Saturnino Braga

Foi prefeito do Rio e senador da República. É colunista do Boletim ASA.

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