O que mudou?

Mauro era o eletricista do kibutz Gezer, 1984

Mauro era o eletricista do kibutz Gezer, 1984

Passei toda a minha infância e parte da minha juventude como membro do movimento juvenil sionista socialista Ichud Habonim. A ele dediquei bons anos  e graças a ele conheci a mulher da minha vida. Com ela fiz aliá, e depois de seis anos no kibutz voltamos para estudar no Brasil. Terminados os estudos, continuamos por aqui.

Minha participação mais ativa foi nos anos 1970, em plena ditadura militar. Falar de sionismo e de socialismo era, digamos assim, um pouco perigoso. A gente precisava de um pouco de astúcia e total falta de noção do perigo real que  representava  falar da vida socialista no kibutz.

Mas, com toda esta bagagem, é claro que ficou sendo uma derivação natural atuar no movimento estudantil, e foram bons momentos junto à Libelu (Liberdade e Luta). Muito corri dos brigadianos (Polícia Militar do RS) depois de lançados para o ar folhetos de Abaixo a Ditadura.

Conto tudo isso como introdução ao que gostaria realmente de comentar neste texto: onde foram parar meus colegas de movimento juvenil.

Claro que a maioria absoluta de meus companheiros de movimento não tinha uma atitude contestadora contra a ditadura. Diziam eles que como sionistas, nossa preocupação deveria ser com Israel e o socialismo kibutziano. A ditadura militar brasileira era problema dos outros brasileiros. Nós precisávamos nos preocupar era com a sobrevivência do Estado de Israel, cercado por um mundo árabe que deseja nos destruir a qualquer preço. Na época, a gente acreditava mesmo nisso.

Bem, muito tempo se passou, nem todos foram para Israel e alguns, como eu, foram e retornaram. A grande maioria casou e constituiu família, e uns, lamentavelmente, já partiram.

O que me intriga foi a passagem de uma juventude sionista socialista para uma militância na direita mais radical. Como é que pessoas tão bem esclarecidas foram parar no lado negro da força?

É bem verdade que minha geração, pelo menos boa parte dela, já nasceu em berço esplêndido. Nossos avós fugiram da guerra e se mataram trabalhando para dar estudo aos nossos pais. Estes, por sua vez, tornaram-se médicos, engenheiros, grandes empresários etc. Nós chegamos na bonança. Era só seguir na onda.

Tudo bem que a gente já nasceu com “mesada” garantida, mas no movimento juvenil a gente ralava. A gente estudava Borochov, a gente se deliciava com Katznelson. A gente cantava música de protesto. O socialismo era o sistema de vida mais justo e a nossa ambição de vida era viver no kibutz.

Claro que a vida deu muitas voltas e aqueles jovens sonhadores se tornaram pais  e mães de família. E foi nessas voltas que eles optaram pela direita. Não sei se aquela máxima de que quem não foi socialista até os 20 anos não teve coração, mas quem continuou depois dos 40 anos não tem cabeça vale para alguma coisa, mas é o que aconteceu em parte.

Direita judaica

O assustador, ao menos para mim, é ver que não basta apenas apoiar a direita, é preciso destruir a esquerda.  E quando falo disso me refiro ao Brasil e a Israel. Eles se tornaram apoiadores do Likud em Israel e do PSDB no Brasil Alguns são fãs do Bennet em Israel e do Bolsonaro no Brasil. Abominam os partidos de esquerda lá e aqui.

Esta geração é aquela que já está assumindo as entidades judaicas comunitárias. É ela que está dando o tom do que deve ser ensinado nas escolas e é ela que começa a falar em nome da comunidade judaica brasileira. E este tom é o de apoio ao neoliberalismo como sistema político de governança e aceitação de que os fins justificam os meios. Eles querem ser mais brasileiros que os brasileiros não judeus, como quiseram os judeus alemães antes da Segunda Guerra.

Porto Alegre segue a regra. À exceção dos movimentos juvenis de centro e de esquerda e do Clube de Cultura, todas as entidades estão tomadas pela direita. Uma direita que faz campanha aberta pelo candidato a prefeito pelo PSDB, um deputado federal golpista.

A direita judaica que apoia o golpe e que vota nos candidatos neoliberais é a mesma que defende o governo de Israel e sua política de colonização dos territórios ocupados. E ela se renova a cada geração.

O que mudou, então? Esta pergunta pode levar a muitas respostas. Provavelmente minha geração nunca foi realmente de esquerda, certamente não se importou com a ditadura militar e tampouco com a ocupação dos territórios palestinos. O momento de contestação e rebeldia juvenil passou ao largo da política. Ficou mais nas drogas e na cerveja.

Os poucos que se importaram e continuam se importando vivem esta luta diária da perda dos velhos amigos. O quanto se pode relevar?

Eu, pessoalmente, sempre fui otimista. Alguns chamam isso de ingenuidade, eu prefiro chamar de lealdade aos ideais de um mundo melhor. Por isso, a luta continua.

Especial para ASA

Mauro Nadvorny

Membro do grupo Judeus Progressistas – JUPROG. É colunista do Boletim ASA.

3 Comentários

  • Responder outubro 28, 2016

    SANDRA HELENA BONDAROVKSY

    Oi Mauro,

    Minha experiência é semelhante a sua. Neta de judeus imigrantes dos Leste Europeu, filha de comerciante bem sucedido, militante do movimento estudantil na ditadura, profissional liberal (sou economista). A única diferença é que meus amigos do movimento estudantil continuam lutando com a esquerda ( se é que podemos chamar assim) no Rio de Janeiro.
    Frequentamos o Midrash do rabino Bonder, a ARI e apoiamos a ASA, todos judeus progressistas e continuamos com os amigos que fizemos ao longo da vida. Será o Rio diferente do Sul? Abraços, Sandra

  • Responder outubro 28, 2016

    Jacques Gruman

    Boa reflexão, Mauro. Aqui no Rio, há um amplo apoio do establishment judaico à candidatura do bispo Crivella, ponta de lança do projeto político da Igreja Universal. Um perigo para quem defende um Estado laico e os direitos humanos mais elementares.

  • Responder novembro 1, 2016

    Mauro Band

    Ótimo artigo, Mauro. Também não sei o que aconteceu com os integrantes daquela geração, mas a luta continua, meu caro.

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