Zog, maran

A POESIA E A ENERGIA DE ABRAHAM REISEN

Retrato de Reisen no frontispício de Shriftn, 1908

Retrato de Reisen no frontispício de Shriftn, 1908

Às vezes, a colunista é tomada por uma ideia fixa. Pode ser no trabalho, em casa, nos afazeres do dia a dia, na prática da escrita. O movimento que impulsiona a escrita não sossega enquanto a busca não se completa. Foi o que aconteceu com o texto que deveria ser entregue para este TSHIRIBIM.   

Depois de ouvir CDs, pesquisar no Youtube, em acervos digitais e livros impressos, fui mordida pelo desejo de trazer uma canção com letra de Avrum (Abraham) Reisen. Seus poemas são fortes e, como a história do poeta, marcados por grande beleza. A energia das palavras envolve e mobiliza quem as escuta ou lê.

Reisen nasceu em 1876, em um vilarejo na Bielorússia que um dia pertencera à Lituânia e à Polônia. Como professor, estudou escritores clássicos da língua ídish e conviveu com pessoas de diferentes classes sociais, líderes do socialismo e dos trabalhadores. E em 1895, obrigado a entrar para o exército russo, integrou a orquestra, onde permaneceu até 1899.

Considerado um dos principais discípulos de Itzchak Leibush Peretz, Reisen escrevia poemas, artigos e contos. Seu poema Ven dos lebn is farbitert (Quando a vida fica amarga) foi publicado em 1891 no Di ídishe bibliotek (A biblioteca ídish). Nessa época, ele colaborava para a publicação sionista Der Iud (O judeu) e para o socialista Bund, onde escrevia por vezes sob o pseudônimo de M. Vilner.

Reisen lançou em 1900 a antologia literária Dos tsvantsikste iorhundert (O Século Vinte) com obras de Peretz, Nomberg e Pinski. Traduziu poetas hebraicos medievais e modernos para o russo e também clássicos russos para o ídish.  Em 1902, publicou Tsait líder (Poemas do Tempo) e, em 1903, Ertseilunguen un bilder (Histórias e Cenas). Foi editor do jornal literário Der fraind (O amigo), em 1903, e, em seguida, do jornal ídish Der tog (O dia), ambos em São Petersburgo.

Defensor do idishismo, Reisen participou com seu irmão Zalman, Jitlovsky, I.L. Perets, Scholem Asch e Hersch Nomberg da Conferência sobre a Língua Ídish de 1908, que proclamou o ídish como língua nacional dos judeus. A  integra dessa conferência está em http://www.ibiblio.org/yiddish/Tshernovits/Tshernovits4.html .

Os leitores podem apreciar também uma fotografia desse grupo de amigos em http://www.ibiblio.org/yiddish/Tshernovits/Tshernovits4.html

Militância, lirismo, humor

Migrou para os Estados Unidos em 1911 (ou em 1914). Radicou-se em Nova Iorque, onde contribuiu durante décadas para o jornal Forverts (Avante), para o Tsukunft (Futuro) e o Shtot tsaitung (Jornal da Cidade), de Filadélfia, em que publicou  Troierike motivn guevidmet óreme lait (Motivos tristes dedicados aos pobres).

Em 1917, reuniu seus poemas e contos em uma edição de doze volumes. Muitos são conhecidos como canções de diferentes gêneros. Há textos que podem ser chamados de militantes: trazem como tema o trabalho e as difíceis condições de vida e pedem por justiça e igualdade. Aí se incluem: Tsum hámerl (Para o martelo), onde um sapateiro conversa com seu martelo sobre o trabalho e a fome; Milchume (Guerra), que fala das guerras e suas consequências, em especial a fome; Di vant (A parede), que, nos versos do autor, se interpõe entre a classe trabalhadora e o capitalismo, e precisa ser derrubada.

Há poemas de forte lirismo e inquietação sobre temas religiosos, tais como: In di vaitste lênder (Nos países mais distantes) em que judeus, espalhados, somos elos de uma mesma corrente; Shvimt dos kestl oifn taich (O cesto flutua no rio), que contrapõe a opressão do faraó do Egito às águas do Nilo ‒ estas, salvando Moisés, possibilitam libertar os judeus da escravidão; Mai-ko mash-me-lon? (O que vem a ser isso?), em que um estudante do Talmud lamenta e expõe, na sua situação, a pobreza do shtetl.  

Algumas letras são marcadas pelo humor. É o caso de A kind a gôldene (Uma criança de ouro), que ironiza o contexto de uma criança judia da Varsóvia dos anos 1910 que deve aprender a falar russo, polonês, ídish, hebraico, alemão para se comunicar com as diversas pessoas  com as quais ela convive. A verve crítica do poeta se expressa também aqui.  

Reisen escreveu suas memórias ‒ Episodn fun main lebn (Episódios da minha vida), de 1929 a 1935. Publicadas em três volumes, constituem obra de referência e importante fonte de consulta sobre literatura ídish moderna e biografias de escritores. Inúmeras histórias de Reisen foram adotadas no ensino de ídish para crianças, em escolas nos Estados Unidos.

Diga, marrano

Escolhi, dessa extensa produção, Zog, maran (Diga, marrano), que traz a perseguição aos judeus espanhóis durante a Inquisição nos séculos 15 e 16. Obrigados a se converter, muitos continuavam praticando os rituais judaicos em segredo. A sonoridade da melodia de Samuel Bugatch nos atinge como uma marcha, um hino, e a emoção se derrama nos olhos e na alma de quem escuta. Vejamos a letra, escrita por Reisen.  

Zog, maran, du bruder máiner    /    Diga, marrano, você, meu irmão,

Vu iz greit der sêider dáiner?    /    Onde você preparou o seu seider?   

In a tife heil, in a chêider    /    Em uma gruta profunda, em um buraco

Dort hob ich guegreit main sêider    /    Lá eu preparei o meu seider.

Zog, maran, mir vu, bai vémen,    /    Diga, marrano, onde e de quem,

Vestu vaisse matses nemen?    /    Você vai pegar matsás brancas?

In der heil, oif gots barotn    /    Na caverna, sob a proteção de Deus

Hot main vaib dem taig gueknotn.    /    Minha mulher estendeu a massa.

Zog, maran, vi vest zich clign    /    Diga, marrano, onde você vai conseguir

An hagode vu tsu krign?    /    Uma Hagadá, como vai obter?

In der heil, in tife shpaltn    /    Na gruta, em profundas fendas

Hob ich zi shoin lang bahaltn    /    Eu já a escondi há muito tempo.

Zog, maran, vi vest zich vern    /    Diga, marrano, como você vai se proteger

Ven men vet dain kol derhern?    /     Quando ouvirem sua voz?

Ven der soine vet mich fanguen,    /    Quando o inimigo me encontrar

Vel ich shtarbn mit guezanguen    /    Eu vou morrer cantando.

Soam lindos e tristes a canção e o diálogo a que um poeta ashquenazi convida os marranos ‒ judeus sefaradis. A determinação de continuar, ainda que coloque em risco a própria vida, une, no diálogo, sefaradis e ashquenazis. A defesa da identidade do povo se expressa na canção e na afirmação de que, se flagrado pelo inimigo, morrerá cantando. A presença e a relevância da própria música não poderiam ser mais visíveis.

A canção denuncia, a meu ver, a proibição ou imposição de qualquer religião, a conversão forçada e o sofrimento daqueles que são compelidos a esconder suas ideias, escolhas, sua natureza. A todos os judeus ela se dirige. A todas as pessoas que ‒ como os marranos ‒ sofrem, são perseguidas, oprimidas ou humilhadas por suas condições de classe, aos que precisam se esconder por suas características físicas, suas deficiências, raça, etnia, por sua religião, aos que tentam mudar sua cor da pele ou seus cabelos, para não serem alvo de preconceito; aos que precisam negar ou mudar seus pontos de vista, sua orientação sexual, sua posição política, suas ideias ou convicções para não serem perseguidos; às mulheres, crianças, jovens e adultos vítimas da violência e de agressões explícitas ou simbólicas, a todos esses ‒ assim o entendo ‒ se dirige a canção de Reisen.    

Sua atualidade se revela hoje, num cenário em que preconceito, intolerância, indiferença, arbitrariedade e desumanidade contra inúmeros grupos sociais continuam presentes nos mais diversos contextos.

Que os leitores encontrem a força e a crítica de Zog, maran nas tocantes interpretações contidas nos links abaixo, inclusive do Coral da ASA.

https://www.youtube.com/watch?v=GRPnNF2E9AY

https://www.youtube.com/watch?v=auLnLhAc0dM

https://www.youtube.com/watch?v=daLA08LwMf4

https://www.youtube.com/watch?v=YexRqQ0chkA

https://www.youtube.com/watch?v=LThOyafcmjU

 

Especial para ASA

Sonia Kramer

Professora do Departamento de Educação da PUC-Rio, onde coordena o Curso de Pós-Graduação em Estudos Judaicos. É autora de livros e artigos sobre Educação e temas judaicos. É colunista do Boletim ASA.

Seja o primeiro a comentar