Yidish Vokh: uma experiência única com a língua ídish!

Sonia na Yidish Vokh

Sonia na Yidish Vokh

Muitas semanas serão necessárias para contar a impactante experiência por mim vivida na Yidish Vokh (semana), em agosto deste ano de 2016. Há muito eu sabia da organização desta semana em que os participantes só podem falar ídish, e que acontece há 35 anos nos Estados Unidos.

Sabia da Yidish Vokh através de minha prima Janet Duek, que lá esteve anos atrás, e de Walter Stajnberg, que fez da Yidish Vokh um belo relato no Ot Azoy dos Iz Yidish (programa mensal que coordeno com Sara Vaisman no Midrash Centro Cultural). De Walter e Janet recebi o incentivo para lá apresentar o Ot Zoy.  

E assim fiz. Criei coragem e oportunidade, me inscrevi e fui. Valeu muito, pela língua, o ídishkait, a escrita, a riqueza de interações, pessoas e aprendizados. Foi uma experiência mais forte e longa do que o tempo que durou… Partilho esses momentos com os leitores, falando: da organização das séssies (atividades, sessões ou oficinas); de programas à noite; da séssie em que apresentei o Ot Azoy; e do significado de tudo isso para a minha vida e para a vida do ídish e dos falantes de ídish. Na transliteração, mantive a forma do programa da Yidish Vokh.

Este ano o encontro foi em Copake, a três horas de Nova Iorque. Desde o local de saída do ônibus, no centro de Manhattan, percebe-se a emoção dos reencontros e o acolhimento dos que estão indo pela primeira vez. Tudo parece (e quase tudo é) novidade.

A programação ‒ só conhecida na chegada ‒ é montada a partir de propostas dos participantes. Há três ou quatro  séssies simultâneas, que podem acontecer em um a até cinco dias. A presença é livre, sem inscrição ou controle, com uma forte carga cultural e de experiência com a língua, em sessões culturais, atividades esportivas no belo osere (lago), na shvimbasein (piscina) e nos campos ao redor.                  

Leynkrayz (roda de leitura), Lider (músicas), Yidish Gezang (música ídish), Lomir Tantsn (vamos dançar), Lomir Lakhn (Vamos rir), Yidish: a geredte sprach (Ídish, uma língua falada), Yidish in mayses un dialektn (Ídish em histórias e dialetos), Poezye (poesia), Metodn fun Iberzetsn (métodos de tradução) se alternam com Yoga, Shtrikkrazyz (roda de tricô), Lyalke-Makhn (confecção de bonecas), Vaser Genitungen (exercícios na água), Akrobatik (acrobacias).  

Além dessas séssies, que seguem por vários dias, atividades pontuais convidam à curiosidade, tais como Ydn un Shakh (judeus e xadrez) e Yiddish in Brasil. Outras convidam à rememoração e à reflexão, como uma roda de conversa sobre Kinder fun Sheyres-Hapleyte (descendentes de sobreviventes da Shoá), de que tive a oportunidade participar.

Aulas de ídish são dadas no nível míteler (intermediário) e avansírter (avançado), enquanto um seminário de formação de professores percorre a semana. Ou seja, nível unháiber (iniciante), só para crianças… À noite: Lomir Zikh Bakenen, (vamos nos conhecer); Film: Chava Rosenfarb, o borbulhar do ser (em que a escritora lê seus escritos); Freggshleg (torneio de perguntas para crianças, jovens e adultos), Forshtelung fun Ydish Teater (apresentação de teatro), encenou o primeiro ato de Dibuk, Talantarnye (festival de talentos), cantar em volta da fogueira. Vários momentos me lembravam da nossa Colônia Kinderland, e me tomou uma saudade boa desse tempo e desse lugar.   

Foi lançado o dicionário inglês/ídish, com 826 páginas, baseado na pesquisa de Mordkhe Schaechter. E muito pouco havia para comprar: algumas camisetas disponíveis em um rápido Yidish-Skhoyre Bazar, filmes e livros de ensino do ídish.

Trilha sonora

Os participantes: cento e cinquenta pessoas, a maioria dos Estados Unidos, duas da Inglaterra, duas do Canadá, duas do Brasil, duas de Israel, quatro pessoas da Alemanha, uma da China. Professores universitários, linguistas, estudiosos de literatura ídish, música, professores de ídish, idishistas, editores de jornais e revistas, diretores de institutos, tradutores, músicos e pessoas que estavam ali simplesmente para falar ídish. Alguns judeus observantes (o site informa dez porcento), numa saudável convivência entre todos. Dois serviços de Shabat foram organizados pelos participantes, um ortodoxo moderno e um eqalitarian. Na programação de sábado de manhã, duas atividades simultâneas: dávenen (rezar) e Shvimbaseyn is Ofn (a piscina está aberta).

Pessoas, clima e contexto de esquerda, com a marca do Bund e de um judaísmo progressista ‒ dessa forte experiência, trago um pouco de duas das séssies que escolhi: a Leynkrayz (roda de leitura) e a Yidish Gezang (música).

Sobre a Leynkrayz, foi enviado um e-mail aos interessados nessa séssie, sugerindo baixar ou imprimir o livro Briliantn, de Esther Kreitman, uma desconhecida irmã de I. B. Singer. Livro forte, denso, com muitos personagens, do qual foram lidas cerca de setenta páginas em cinco dias! Foi liderada por Rukhl Schaechter, atual editora-chefe do jornal Forverts/Forward, que voltou a sair impresso, depois de oito anos somente on-line.   

Com a Yidish Gezang, fiquei encantada. Ethel Raim ‒ que liderou instituições de pesquisa, atuação e formação voltadas à música durante 40 anos, diretora artística do Center for Traditional Music and Dance de Nova York ‒ ensinou músicas belíssimas, verdadeiras histórias cantadas, colhidas ao longo de décadas. Por mim desconhecidas, continuam ecoando, desde que voltei, como uma trilha sonora dessa Yidish Vokh. Partilho uma delas com os leitores, Dreyfusl main kind, cantada por Lifshe Schaechter-Lidman, gravada em 1954 por Leybl Kahn. Nesta pérola, a prisão do capitão Alfred Dreyfus se torna cantiga de ninar e ele, uma criança.

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Dreyfusl mayn kind /Pequeno Dreyfus, minha criança

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In maine oiern tit mir klinguen,  /  nos meus ouvidos fica batendo  

Hai-da lu lu lu/Hai-da lu lu lu

Vus main mame fleigt mir zinguen  / o que a minha mãe costumava cantar

bai main víguele.  /  no meu bercinho

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Hay-li-la-lu-la,  /  Hay-li-la-lu-la

Di gantse velt zingt´ekh dos lídele.  /  o mundo todo canta essa musiquinha

Hot kain moire Dreyfusl main kind,  /  não tenha medo pequeno Dreyfus minha criança,

Fargués nisht az di bist a ídele.  /  não esqueça que você é um pequeno judeu.

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Vus in Frankraikh hot dort passirt  / o que na França se passou

Veist a ieder gants guit.  /  cada um sabe muito bem

Men hot farurtailt capitan Dreyfus  / se condenou o capitão Dreyfus

Nor derfar vail er iz a id.  /  só porque ele é judeu.

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Hay-li-la-lu-la…

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Da beleza dessa letra, um breve comentário: a melodia sugere ínguele e ouvimos ídele

Ao lado das músicas antigas, pesquisadas por Ethel Raym e outros estudiosos, há canções novas, compostas nos últimos quinze anos e que foram reunidas em um CD distribuído aos participantes desta Yidish Vokh. Vou trazê-las em outros números da coluna Tshiribim.  

Por fim, algumas palavras sobre a apresentação que fiz. A proposta enviada à Yidish Vokh para o Ot Azoy dos Iz Yiddish era mostrar o vídeo que celebra dois anos de programa. Mas es hot zich fargréssert fun tsen minit to a gantse sho, mit der nomen Yiddish in Brasil! Ich hob dort guezogt az ich bin nisht guiven zicher oib es hot zich farbéssert. A proposta saiu na programação com o nome de Yiddish no Brasil!, aumentada dos dez minutos que compõem o vídeo para uma hora. Comecei dizendo não ter certeza se fargréssert (aumentada) implicaria em farbéssert (melhorada). Mas a séssie contou com um público de cerca de trinta pessoas e, depois da apresentação, houve muitos comentários, perguntas e sugestões. Pude falar da ausência do ídish nas escolas do Rio e no papel da ASA, do CIB e do Ot Azoy.

Enfim, foi uma semana com muita emoção. Os leitores interessados podem conhecer mais no site da Yugntruf (Jovens para o Ídish), instituição que mantém, mobiliza, organiza e realiza a Yidish Vokh. O site informa que a Yidish Vokh começou em 1975: Mordkhe Schaechter levou estudantes da turma avançada do Programa de Verão Uriel Weinreich  ao Campo Boiberik, para uma semana de imersão no ídish. Desde a criação, a Ydish Vokh evoluiu. Hoje, é o único lugar onde estudantes, famílias e pessoas mais velhas de diversos tipos e origens passam juntas uma semana falando só ídish, o que atende famílias que criam seus filhos com o ídish e dá a todos a chance de conversar, brincar, cantar e falar em ídish.  

Fotos da Yidish Vokh de diversos períodos mostram uma maioria de frequentadores jovem, com menos de quarenta anos. Isso nos dá alegria, força e energia para continuar nossas iniciativas com a língua Yiddish, ídish, Ydish, idiche! No Brasil, no Rio e em todas as situações pessoais e comunitárias que conseguirmos conquistar.

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Para conhecer mais a Yidish Vokh:

http://yugntruf.org/yiddish-vokh/history/?lang=en

Para ouvir Dreyfusl mayn kind

https://yiddishsong.wordpress.com/2011/10/03/drayfusl-mayn-kind-performed-by-lifshe-schaechter-widman/

Especial para ASA

 

 

Sonia Kramer

Professora do Departamento de Educação da PUC-Rio, onde coordena o Curso de Pós-Graduação em Estudos Judaicos. É autora de livros e artigos sobre Educação e temas judaicos. É colunista do Boletim ASA.

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