Tumbalalaica: entre letras, embalos e alegria!

Cena do filme The Soul Keeper

Cena do filme The Soul Keeper

Muitas são as músicas ídish que têm letra e melodia criadas por um ou mais compositores de diferentes países e regiões. Em várias, encontram-se traços de textos poéticos antigos; inúmeras têm letra e melodia do folclore popular, mais ou menos conhecido por falantes e amantes do ídish. Além disso, escritores consagrados tomam para si a melodia de músicas folclóricas, em que colam belos poemas. E, se tantas músicas ídish transbordam tristeza ‒ mesmo quando quem as escuta não entende o significado ‒ há as que evocam, expressam, convidam à alegria! Este é o caso de Tumbalalaica.

Até onde se sabe, Tumbalalaica é uma canção do folclore judaico. Músicos, estudiosos do ídish e pesquisadores costumam considerá-la ou classificá-la como uma canção de amor pela evidência de seus versos, como veremos adiante. Contudo, mães, avós e professoras, ao cantá-la para crianças, a praticam como cantiga de ninar ou música infantil. O fato é que Tumbalalaica embala – com seu tempo de valsa – adultos e crianças, agradando e divertindo a todos os que a ouvem. Ouvem e repetem, repetem, repetem.     

A composição do título combina Tum, onomatopeia em ídish para barulho, com balalaica, instrumento musical de origem russa, de madeira, com três cordas, e que tem tamanhos e formas variadas. Desse modo, a própria onomatopeia já contida no nome do instrumento (três cordas, ba la lai) se mistura às marcações da melodia, movimentando e de certo modo envolvendo quem a escuta e se sente convidado a cantar. Acompanhemos:

Tumbalalaica

Shteit a bócher, on un tracht/ Lá está um rapaz e ele pensa,
Tracht un tracht a gantse nacht/ Pensa e pensa a noite inteira
Vémen tsu némen un nit farshémen/ Como se declarar e não envergonhar
Vémen tsu némen nit tsu farshémen / Com se declarar e não envergonhar

Túmbala, túmbala, tumbalalaica,/ Tumbala, tumbala, tumbalalaica
Túmbala, túmbala, tumbalalaica / Tumbala, tumbala, tumbalalaica
Tumbalalaica, shpil balalaica/ Tumbalaica, toque a balalaica
Shpil balalaica, freilech zol zain / Toque a balalaica, fiquemos alegres.

Meidl, meidl, ch´vel bai dir frêguen,/ Menina, menina, quero te perguntar
Vos ken vacsn, vacsn on regn?/ O que pode crescer, crescer sem chuva?
Vos ken brénen un nit oifhern?/ O que pode queimar e não parar?
Vos ken bénken, vêinen on treren?/ O que pode ter saudade, chorar sem lágrimas?

Nárisher bócher vos darfstu fregn?/ Rapaz tolo, por que você precisa perguntar?
A shtein ken vacsn, vacsn, on regn./ Uma pedra pode crescer, crescer sem chuva.
Libe ken brénen un nit oifhern/ O amor pode queimar sem parar.
A harts ken bénken, vêinen on tréren./ Um coração pode ter saudade, chorar sem lágrimas.

Túmbala, túmbala, tumbalalaica,/ Tumbala, tumbala, tumbalalaica
Túmbala, túmbala, tumbalalaica / Tumbala, tumbala, tumbalalaica
Tumbalalaica, shpil balalaica/ Tumbalaica, toque a balalaica
Shpil balalaica, freilech zol zain / Toque a balalaica, fiquemos alegres.

Como ocorre com toda expressão popular ‒ difundida na oralidade e que assim circula no tempo e no espaço ‒, encontramos outras versões. Segundo Eleanor Mlotek, no seu livro Mir Trogn a Guezang (Nós Carregamos uma Canção), Tumbalalaica, vinda da Rússia, foi publicada nos Estados Unidos pela primeira vez em 1940, na versão transcrita acima. Em  versão publicada em Mir Zinguen (Nós Cantamos), de 1948, além das perguntas sobre pedra, amor e coração, se sucedem outras charadas, comuns em diversas culturas.   

Vos iz hécher fun a hoiz?/ O que é mais alto que uma casa?
Vos iz flínker fun a moiz?/ O que é mais rápido que um gato?
Vos iz tífer fun a cval?/ O que é mais profundo que a nascente?
Vos iz bíter, bíterer vi gal?/ O que é mais amargo que fel?

Túmbala, túmbala, tumbalalaica,/ Tumbala, tumbala, tumbalalaica
Túmbala, túmbala, tumbalalaica / Tumbala, tumbala, tumbalalaica
Tumbalalaica, shpil balalaica/ Tumbalaica, toque a balalaica
Shpil balalaica, frêilech zol zain / Toque a balalaica, fiquemos alegres.

A côimen iz hécher fun a hoiz./ Uma chaminé é mais alta do que uma casa.
A cats iz flínker fun a moiz./ Um rato é mais rápido do que um gato.
Di gaist iz tífer fun a kval./ A mente é mais profunda que uma nascente.
Der toit iz bíter, bíterer vi gal/ A morte é amarga, mais amarga que fel.

Túmbala, túmbala, tumbalalaica,/ Tumbala, tumbala, tumbalalaica
Túmbala, túmbala, tumbalalaica / Tumbala, tumbala, tumbalalaica
Tumbalalaica, shpil balalaica/ Tumbalaica, toque a balalaica
Shpil balalaica, frêilech zol zain / Toque a balalaica, fiquemos alegres.

Variações

Mlotek comenta que a melodia é similar à da música folclórica Gantse  teg zits ich aleyn. Relata ainda que, no gueto de Kaunas, a letra é modificada e a polícia é o alvo: “Túmbala, túmbala, toque, judeu do gueto, toque uma canção sobre judeus que gritam” (na citação de Mlotek: “Tumbala, tumabala, play ghetto Jew, play a song about the Jewish bellowers).

Fica em destaque aqui a imensa riqueza da música popular que, combinada com a diversidade cultural entre os judeus, desenha um cenário de belas produções. Mas, além desses aspectos, chamo a atenção dos leitores para a sutileza de outra diferença encontrada.

O verso-pergunta Vos iz tífer fun a cval?, ou seja, “O que é mais profundo que a nascente (a fonte ou poço)”, tem como resposta, na versão acima, Di gaist iz tífer fun a cval, que significa “A mente é mais profunda que uma nascente!”. Mas encontrei em outra versão a resposta Di Toire iz tífer fun a cval, quer dizer, “a Torá é mais profunda que uma nascente (fonte ou poço)”! Ora, está presente, portanto, nos versos dessa simples e singela canção, a disputa entre a dimensão intelectual e a religiosa do judaísmo. Gaist óder Toire? Mente ou Torá?

Outras variações são típicas da literatura oral e derivam da transcrição da fala para a escrita, seguidas da transliteração na língua correspondente (inglês, russo, francês, hebraico, espanhol, português e tantas mais), só então traduzidas. Pode-se dizer que provêm de uma escuta diversa, que resulta numa escrita diversa, e em outra compreensão da fala. Um exemplo: em algumas traduções, no primeiro verso, ao invés de shteit ou shteyt, encontramos shtil ou shtylShtyl a bocher, on un tracht e, em consequência, outra tradução: “O rapaz está quieto, quieto, e pensando”.

Nessa mesma linha de variações da fala e da escrita, Vémen tsu némen un nit farshemen, a pergunta do terceiro verso repetida no seguinte, recebe diversas traduções, tais como: quem escolher?; quem ousar?; com quem casar e a outra não envergonhar? Sem medo de errar, poderíamos também traduzir por “quem pegar e não envergonhar”…

Essas aparentes brincadeiras revelam uma característica de todas as línguas – a sua profunda variabilidade – que se multiplica ainda porque o ídish é uma língua de fusão (ou amálgama) do alemão, hebraico e línguas eslavas. Mais ainda, lidamos com transliteração de alfabetos diferentes, neste caso o hebraico e o latino (também chamado de romano), que empregamos na escrita da língua portuguesa.

Diferenças de significado, variações de palavras, estrofes diversas: Lev Vigotski ‒ psicólogo russo, judeu, interessado em uma psicologia baseada na cultura, na sociedade  e na história ‒ nos ajuda a compreender o que acontece aqui. Na cultura popular, não temos um autor, compositor ou poeta, mas inúmeros artistas anônimos, numa criação coletiva que expressa muitas formas de apropriação e circulação de uma língua e de uma cultura, neste caso do ídish e do ídishkait.

Convido leitores e leitoras de Tshiribim a entrarem nos sites ao final do artigo. Preparem-se para se surpreender com artistas no mundo inteiro, músicos, cantores e bandas que cantam e tocam Tumbalalaica em ritmos diversos, da valsa ao jazz ou ao rock, como o que é tocado pelo Metal Yiddish Album AlefBase da banda israelense Gevolt, que canta em ídish, como música lírica orquestrada ou no álbum Xescu Boix, cantado em catalão!

Vocês vão também apreciar as adaptações da melodia, como em Over and Over de Nana Mouskouri, ou Anna Marie de Benny Hill. E com certeza vão rir e se emocionar com a cena do filme  Prendimi l’anima, onde Tumbalalaica é cantada. Com Swing, The Soul Keeper e peças teatrais, como Angels in America (e no filme inspirado na peça).

Ouvindo tantas interpretações da canção, podemos sentir a força e a alegria de Tumbalalaica que, com sua letra e embalos, nos convida a bater palmas e acompanhar o ritmo com os pés, não só como era cantada ou escutada por nossos pais e avós, mas com uma vibração contemporânea que mostra como continua agradando a crianças e adultos!

Fiquemos alegres!  

https://www.youtube.com/watch?v=tiGHQMURTeU

http://perryjgreenbaum.blogspot.com.br/2011/03/barry-sisters-tumbalalaika.html

https://www.youtube.com/watch?v=fXfWShAkJE8

http://www.songsofmypeople.com/tumbalalaika.html

https://www.youtube.com/watch?v=tjV3tXXydEQ

www.youtube.com/watch?v=pdt7N2yGfhg

Especial para ASA

 

Sonia Kramer

Professora do Departamento de Educação da PUC-Rio, onde coordena o Curso de Pós-Graduação em Estudos Judaicos. É autora de livros e artigos sobre Educação e temas judaicos. É colunista do Boletim ASA.

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