Tshiribim, Tshiribom: com alegria e graça!

Banda Gevolt

Banda Gevolt

“Quando a justa tensão e a harmonia da alma chegam a perder-se, é preciso começar a bailar.” Essa afirmação é feita por Lev Vygotsky no seu livro Psicologia da arte. De modo poético, ele fala da necessidade humana de desviar-se e refazer, em especial em situações de tristeza e opressão. O comentário, ou conselho, se assim preferir o leitor ou a leitora, era precioso para a vida do shtetl quando, em meio à pobreza, perseguição e pessimismo, populações judaicas manifestavam no ídishkait uma maneira crítica de ver o mundo e encontrar esperança.

Judeu russo, estudioso de Spinoza, nascido no final do século 19, as ideias de Vygotsky (ou Vigostki, segundo alguns pesquisadores) influenciam até hoje aqueles que se interessam pela educação, pela cultura, a infância e as crianças. Seu conselho parece ser precioso ainda hoje, neste tempo e lugar em que escrevo: um Brasil tenso, onde a raiva impede a escuta, o medo ameaça a serenidade e, mais uma vez, faz oscilar a esperança.

Ocorre que a arte e o humor, combinados, constituem de modo profundo nossa humanidade, inclusive em momentos de dificuldades pessoais ou de instabilidade econômica ou política na esfera macro. Assim, comecei este artigo com a citação do psicólogo porque, como a milhares de cidadãos brasileiros, preocupam-me acontecimentos recentes no país, nestes primeiros meses de 2016. Começo a bailar, então, permitindo-me celebrar um ano da Coluna TSHIRIBIM, neste Boletim da ASA, com Tshiribim, palavra que, além de dar nome à canção, marca a identidade da música ídish, como o tabadabada da bossa nova ou o ieieieieieieieie, das marchinhas de carnaval.    

Humor, ironia, riso. O humor é sempre crítico: vira pelo avesso a ordem instituída, diverte, mas principalmente subverte, contesta. Dirigido a si mesmo ou ao outro, o humor judaico pode ser suave ou ácido ao revelar detalhes que denunciam, fazem pensar, convidam à ação. Todas as esferas da vida estão na mira: o cotidiano, questões de gênero, política, festas, tradições, histórias de rabinos, cidades, migrações, comidas, conversas no trem, no restaurante, reflexões filosóficas sobre o sentido da vida, do trabalho, da religião.   

E para expressar a crítica ao poder dos ricos, proprietários de negócios, juízes, reis e rabinos, mas também à ausência de poder dos pobres, despossuídos, excluídos das benesses, nada melhor do que o humor judaico contado em ídish. Contos de Scholem Aleichem, romances de Isaac Bashevis Singer, ditos populares, provérbios, bruches e klules (bênçãos e pragas) espalham a fina denúncia de formas explícitas ou veladas de dominação, e também de tristeza e sofrimento. Rimos de tudo; rimos de nós mesmos, das nossas tradições, nossas práticas. Brincamos.  Também na música e com a música.

Esse clima de riso e brincadeira está presente em muitas de nossas canções em ídish. Como está presente de modo leve e sutil na emblemática Tshiribim Tshiribom.

MUSICA

Mas, neste caso, mais do que nas canções que comentei nas colunas anteriores, a melodia faz muita falta. É preciso a presença da sonoridade para apreender o significado deste texto. A melodia nos convida a rodar, com a rapidez de crianças correndo ou hassidim dançando na chuva, convida a pensar diante do suposto poder do rabino de sair seco da chuva, por esperteza ou por milagre, não o sabemos; provoca o riso com as comidas das festas misturadas – sopa de macarrão com knêidlech em Chanucá ‒ o tolo e o inteligente sentados lado a lado, como se estivessem falando de nós, apontando com o dedo nossa condição de tolos diante da alegria. Tolos também porque não entendemos a letra da canção, que ora é nonsense, ora pureza e brincadeira de criança. Porém, sempre crítica.

Segundo Eleanor e Joseph Mlotek, em Songs of generations: new pearls of Yiddish songs, Tshiribim ‒ ou Chiribim ‒ é uma música folclórica, publicada em Di shenste gueklíbene ídishe líder (Seleção das músicas ídish mais bonitas). Há uma versão com outras estrofes em uma edição francesa e também uma paródia feita no Gueto de Varsóvia, In djoint cumt tsu guein a id (Um judeu vem ao Joint, referindo-se ao Comitê de Distribuição), que mostra como somos mesmo capazes de rir em meio à tristeza e à desgraça.  

Mas o fato é que ouvir e apreciar interpretações diferentes da canção ensina mais do que qualquer descrição ou análise. Como nas outras músicas analisadas nesta coluna, também Tshiribim Tshiribom revela-se diversa, interessante, antiga e moderna. As Barry Sisters trazem um arranjo espetacular da música, a banda de rock Gevolt como sempre surpreende e desconcerta; Nina Stiller e vários grupos de dança contemporânea apresentam performances; orquestras tocam em festivais ou concertos, acompanhadas por solistas de voz ou instrumentos; grupos teatrais trazem-na na forma de opereta; corais adultos e infantis cantam em diferentes línguas e lugares, mesmo em igrejas.

Por gentileza, então, ton mir a toive (façam-me um favor): entrem nos sites abaixo e confiram! Basta um clique para ter minutos de enlevada surpresa. Pode ser que, como eu, a cada vez que escutarem Tshiribim, vocês comecem a mexer os pés mesmo sentados, a bater palmas e estalar os dedos, a se sacudir na cadeira, com o corpo pedindo cada vez mais para se mover, se mexer, levantar, enfim… dançar. E pode ser que queiram cantar e criar outros modos de expressar alegria e graça com Tshiribim Tshiribom!   

https://www.youtube.com/watch?v=4DG6kp4ed5Q

https://www.youtube.com/watch?v=2h3RMmob68I&nohtml5=False

https://www.youtube.com/watch?v=sX-D89chp34&nohtml5=False

http://www.jewishhumorcentral.com/2010/05/celebrating-classic-jewish-music-then.html

https://www.youtube.com/watch?v=kILl88-nT4Q&nohtml5=False

https://www.youtube.com/watch?v=iSg8Ak9OJ6A&nohtml5=False

https://www.youtube.com/watch?v=0l8TPffLdN0&nohtml5=False

https://www.youtube.com/watch?v=0Bae9pSSBlo&nohtml5=False

https://www.youtube.com/watch?v=MjdsSLgDHXA&nohtml5=False

Especial para ASA

Sonia Kramer

Professora do Departamento de Educação da PUC-Rio, onde coordena o Curso de Pós-Graduação em Estudos Judaicos. É autora de livros e artigos sobre Educação e temas judaicos. É colunista do Boletim ASA.

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