Shein vi di levone: um belo presente e uma surpresa

Joseph Rumshinsky

Joseph Rumshinsky

Quando aceitei escrever a Coluna TSHIRIBIM sobre música ídish sabia que iria aprender muito. As canções em ídish que conhecia e as que iria pesquisar motivaram aceitar o convite de Sara Gruman, a quem agradeço de novo. Para este número, celebrando um ano de escrita, escolhi uma música que desde menina me acompanha e que julguei fácil comentar. Explico por quê.      

Todos os aniversários, festas e encontros na casa dos meus pais terminavam em Shein vi di levone. “Bonita como a lua”, esse presente que desce do céu era cantado em três ou quatro vozes: a lua parecia subir cada vez mais alta, com as vozes que nos divertia levantar, agudas, afinadas, e que vinham com o sorriso e a alegria do meu pai, Chialé, que cantara no coro da sinagoga de Ostrowietz, na Polônia, onde nasceu.

E Shein vi di levone está sempre presente em festas e apresentações da comunidade judaica, interpretada por músicos num violão, violino, piano, sax, clarinete ou flauta, por cantores e pelo público que muitas vezes não sabe a letra, mas bate palmas, se emociona, entoa o refrão. Não há dúvida de que a música é muito conhecida.  

Guardei, pois, Shein vi di levone para um momento especial de TSHIRIBIM, como se guarda uma preciosidade. Meu envolvimento com a música ídish começou com essa canção, ouvida como caso de amor ou cantiga de ninar. Agradecimento a uma namorada? Graça recebida com a chegada de um bebê? Nos dois casos, me foi ensinado escutar beleza e gratidão.

Shein vi di levone,   /    Bonita como a lua, 
Lichtik vi di shtern,   /    Luminosa como as estrelas 
Fun himl a matone,   /    Do céu um presente  
Bistu mir tsugueshikt!   /   Você me foi enviada!
Main glik hob ich guevunen   /    Ganhei minha sorte
Ven ich hob dich guefunen,   /    Quando eu te encontrei,  
Shein vi toiznt zunen   /    Linda como mil sóis 
Host main harts baglikt   /   Você alegra meu coração. 

Daine tsêindlech, vais vi pérelech,   /    Seus dentinhos, brancos como perolazinhas 
Un daine sheine oign,  / E seus belos olhos 
Daine hêindelech, daine hérerlech,    /    Suas mãozinhas, seus cabelinhos,
Hot mich tsuguetsoign   /    Você me capturou. 

Der moich iz mir tsumisht,   /    Minha cabeça gira

Ich guei arum tsuchisht,   /   Ando por aí confusa,

Chveis alein nit vos ich vil,  /     Não sei o que quero, 
Ich shem zich, ich bin roit   /    Me sinto envergonhada, minha face está vermelha

Di tsung iz bai mir toit   /    Perdi minha língua

Ich ken nit zogn, vos ich vil   /    Não consigo dizer o que quero 
Du bist arain tsu mir in hartsn oif kvartir   /    Você se instalou no meu coração para     sempre
Chtracht: vi tsu zogn dir az du bist?   /   Penso: como te dizer que você é 

Shein vi di levone,   /    Bonita como a lua? 

 

A beleza dos versos me cativa. Main glik hob ich guevunen ven ich hob dich guefunen brinca com guevunen / ganhar e guefunen / achar a sorte e a felicidade. Pois bem! Feita a pesquisa de seus autores e da sua história em livros, artigos e na internet, Shein vi di levone se mostrou a música conhecida mais desconhecida de que já tive notícia!

Como num trabalho arqueológico ou de detetive, uni pedaços, puxei fios, mas ficaram lacunas: melodia criada por Joseph Rumshinsky e letra por Chaim Tauzberg (ou Tauber), mas nas histórias dos dois não há traço de Shein vi di levone. Decidi sintetizar o que encontrei e correr o risco!

Joseph Rumshinsky nasceu em Vilna, em 1881, filho de uma professora de canto. Muito jovem foi estudar com um hazan, canto e piano. Ainda em Vilna tornou-se popular com a composição de uma valsa. Interessou-se por ópera e teatro desde cedo. Dirigiu um coro em uma ópera russa e estudou no conservatório de música de Varsóvia.

Em 1903, partiu para Londres para evitar a perseguição do exército tsarista. De lá migrou para os Estados Unidos em 1904, onde se tornou maestro, compositor de sucesso em companhias teatrais e cabarés de Nova York. Escrevia artigos para o jornal Fórverts (Forward).  Em 1919, introduziu Molly Picon na produção de Yánkele. É dele Abi guezunt (Ao menos com saúde), entre dezenas de canções conhecidas.

Compunha também peças litúrgicas. Em 1926, regeu cem vozes do coro The Hazzanim Farband Chor, na cantata bíblica Oz yashir. Em 1940, reuniu seus escritos do Fórverts e os publicou no jornal Der Tog (O Dia) e no livro Klanguen fun main lebn (Episódios da minha vida).

Eclético e criativo, compôs músicas para dezenas de shows ao longo de quarenta anos de carreira. Foi diretor de um programa de rádio de música ídish – A hora judaica – mantido pelo jornal Der Tog em cadeia nacional. Nos anos de 1940, no Yiddish Art Theatre de Maurice Schwartz, orquestrou Hershl Ostropóler, Drai matunes (Três presentes), de  Isaac Leib Peretz e Blondjende shtern (Estrelas Vagabundas) de Scholem Aleichem.  Rumshinsky faleceu em 1956. Mas quando e onde compôs a melodia de Shein vi di levone?

Chaim Tauber nasceu em 1901 na Ucrânia, filho de um alfaiate muito pobre. Desde jovem, integrou Di Yiddish bine (O Teatro Ídish) e outros grupos de artistas, encenando peças como  Drai matunes (Três presentes). Viveu na Romênia de 1920 a 1925, quando migrou para a América. Em 1928 e 1929 trabalhou no teatro Casino, na Filadélfia, escreveu sua primeira comédia, Der galitsiáner rebe (O Rebe da Galícia), e o texto da ópera Dus gôldene rínguele (O anelzinho de ouro) de Darius Milhaud.  

Nos anos 30 conciliou escrita, música e ofício de ator no Brooklyn Liberty Theater e no Boston Grand Opera. Sua peça radiofônica Der claun (O palhaço) estreou em um programa ídish. Compôs a opereta Der katerinschik para o New York Avenue Theatre e escreveu a letra de uma música muito popular na época, Ich hob dich tsufil lib (Gosto demais de você). Nesse período, compôs o roteiro de A frêileche mishpuche (Uma família alegre), que estreou no New York Public Theatre, e começou a atuar no cinema e a escrever musicais como Main zíndele, Der ídisher nign, Motl der opereitor, em que faz o papel de Motl.

Chaim Tauber foi ator, escritor e compositor, com uma produção intensa até os anos de 1940. Na música, além de Ich hob dich tsufil lib, compôs Chássene Valse (Valsa do Casamento) e Tshiribim, Tshiribom. Mas, dos anos 40 em diante, a única menção é que faleceu em 1972.

Como os leitores podem notar, nas trajetórias dos dois, nada é dito sobre Shein vi di levone! Foi a música composta por Rumshinsky e a letra escrita mais tarde por Tauber? Os dois a criaram juntos? Era parte de uma peça? Por que o silêncio sobre uma canção criada por dois artistas de destaque e que se tornou tão popular?

E enfim, para minha perplexidade, o livro de Kenneth Jaffe Solo Vocal Works on Jewish Themes: a bibliography of Jewish composers, de 2011, lista músicos e músicas judaicas de todos os tipos em 450 páginas, sendo mais de cinquenta canções compostas por Rumshinski, mas nenhuma é Shein vi di levone! Tauber nem é citado.

Deixo abertas as perguntas e ich beit aich zol mir shikn vos ir veis vegn Shein vi di levone/ (peço que me enviem o que mais conhecem sobre Shein vi di levone)! Agora vamos desfrutar da canção e

Da alegria das The Barry Sisters

http://myortvayadevitsa.deviantart.com/journal/Sheyn-vi-di-Levone-yiddish-song-lyric-translation-552749939

Da beleza das Klezmer Divas

https://www.youtube.com/watch?v=XYJwYlVvnU0

Da delicadeza de Lisa Fishman

https://www.youtube.com/watch?v=vWbYjr3i-nU

Da ousadia da banda Gevolt

https://www.youtube.com/watch?v=UUnfxTp0WEI

Da história de Bobby Matos e a familiaridade com a música brasileira http://lifeforcejazz.bigcartel.com/product/bobby-matos-beautiful-as-the-moon

Especial para ASA

Sonia Kramer

Professora do Departamento de Educação da PUC-Rio, onde coordena o Curso de Pós-Graduação em Estudos Judaicos. É autora de livros e artigos sobre Educação e temas judaicos. É colunista do Boletim ASA.

1 Comentário

  • Responder abril 22, 2016

    Ana Vera Kramer Pontes

    Muita emocão e muitas lembranças…

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