No meio do caminho tinha uma árvore

Itzik Manger

Itzik Manger

Metáforas de caminho estão presentes em muitas culturas, línguas, músicas e poemas de tempos e espaços diversos. Desde a descrição de que “tinha uma pedra no meio do caminho; no meio do caminho tinha uma pedra”, de Carlos Drummond de Andrade, até o pedido para que você “tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor”, da composição de Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito e Alcides Caminha ‒ para ficar com exemplos mais próximos ‒, é certo que a vida e a arte oferecem caminhos e obstáculos ditos ou cantados em verso e prosa.

Oifn veg shteit a boim, shteit er aingueboign, (no caminho tem uma árvore, e a árvore está encurvada) pode ser situada nesse contexto. Suas metáforas revelam a presença de vários elementos da cultura ídish e sua incrível riqueza linguística, ao falar do caminho, da árvore que se encurvou e de pessoas que voam soltas, ou são mantidas, vergando-se sobre seu próprio peso. Seu tom melódico acompanha a difícil e delicada situação de quem quer partir.

Vejamos primeiro a letra da canção, para depois conhecer a sua história e a de quem a compôs, o poeta, romancista e escritor de peças teatrais, Itzik Manger [lê-se Mânguer].

Oifn veg shteit a boim

Oifn veg shteit a boim, /  No caminho há uma árvore
Shteit er aingueboign,/  Ela está encurvada,
Ale feigl funem boim/  Todos os pássaros da árvore
Zainen zich tsefloign. /  A abandonaram.

Drai kein mairev, drai kein mizrech, /  Três para o oeste, três para leste,
Un der resht – kein dorem, /  E os outros para o sul,
Un dem boim gelozt alein /  E a árvore foi deixada sozinha
Hefker far dem shturem./  Sozinha para a tempestade.

Zog ich tsu der mamen: -her, /  Digo para a minha mãe, escuta,
Zolst mir nor nit shtern,/  Não me atrapalhe
Vel ich, mame, eins un tsvei/ Que eu, mamãe, um e dois,
Bald a foigl vern…/   Logo vou me tornar um pássaro…

Ich vel zitsn oifn boim
/  Vou me sentar na árvore
Un vel im farvign/  E vou embalar a árvore
Ibern vinter mit a treist,/  Para confortá-la no inverno
Mit a sheinem nign./  Com uma bonita canção.

Zogt di mame: – nite, kind /  Diz a mãe – não, minha criança
Un zi veint mit trern -/  – E ela chora com lágrimas –
Vest cholile oifn boim/  Sentado na árvore você
Mir far froirn vern./  Vai ficar congelado.

Zog ich: -mame, s’iz a shod/  Digo, mamãe, é uma pena
Daine sheine oign/  Os seus olhos lindos
Un eider vos un eider ven,/  E assim, sem mais nem menos,
Bin ich mir a foigl./  Vou me tornar um pássaro.

Veint di mame: – ltsik, kroin,/  Chora a mãe:- Itzik, minha joia,
Ze, um gotes viln,/  Se é vontade de Deus,
Nem zich mit a shalikl, /  Leva junto um cachecol,
Kenst zich noch farkiln. /  Você pode se resfriar.

Di kaloshn tu zich on,/  Calça as galochas,
S’gueit a sharfer vinter/  Vem aí um inverno duro
Un di kutshme nem oikh mit -/  E leva também um gorro
Vei iz mir un vind mir…/  Ai, desgraçada e coitada de mim.

– Un dos vinter-laibl nem,/  Leva a camisa de inverno,
Tu es on, du shovte,/  E pode vesti-la, seu tolo
Oib du vilst nit zain keyn gast/  Se você não quer se um convidado
Tsvishn ale toite…/  Entre todos os mortos.

Ch’heib di fligl, s’iz mir shver,/ Levanto as asas, é difícil para mim,
Tsu fil, tsu fil zachn,/ Muitas, muitas coisas pesadas
Hot di mame ongeton/ Minha mãe vestiu
Ir fêiguele, dem shvachn./ Seu passarinho, o fraco.

Kuk ich troierik mir arayn/ Olho triste dentro
In main mames oign,/ Dos olhos da minha mãe, e vejo
S’hot ir libshaft nit gelozt/ Que seu amor não permitiu
Vern mir a foigl…/ Que eu me tornasse um pássaro…

Oifn veg shteit a boim, / No caminho há uma árvore,
Shteit her aingueboign,/ Ela está encurvada
Ale feigl funem boim/ Todos os pássaros da árvore
Zainen zich tsefloign…/ A abandonaram.

 

Lembro de escutar esta música na infância, cantada por meus pais ou tocada em discos ‒ depois CDs ‒ melancólicos, que veiculavam tristeza na letra e na melodia. Escutando a canção, atentos, podemos indagar: foi a árvore que ficou assim, dobrada, curvada, inclinada, torta, torcida ou arqueada, quer dizer, aingueboign? Foi o filho, ansioso, mas impedido de voar? Ou quem está arqueada é a mãe, triste e cansada com o que pode acontecer ao seu filho?

A letra evoca uma ídishe mame e seu amor inesgotável que, de tanto zelo e preocupação, pesa, e que ‒ ao fazer inclinar seu filho ou a árvore ‒ prende, segura o voo, leva o pássaro a declinar do seu desejo de crescer, de subir, de flutuar, se afastar e, leve, buscar outros caminhos e pousos. Como se não fosse possível cuidar, sem sufocar.

A melodia acompanha, na forma, a mensagem: parece um nigun, um mantra, como uma cantilena que ao invés de produzir serenidade ou paz, entoa tristeza ao repetir os murmúrios e lágrimas da mãe, que segue pedindo, conduzindo, se lamentando vei iz mir un vind mir, ai, coitada de mim. Como se não fosse possível proteger com liberdade. Como se não fosse possível a mãe ser feliz longe do filho.

A história da família pode nos fazer compreender a canção de outro modo, talvez ouvi-la com outra tonalidade. Notemos que o nome do filho que se quer pássaro é Itzik, o mesmo do poeta. Segundo Samuel Belk, na sua pesquisa sobre a história do shteitl na canção popular judaica, o desmedido amor da mãe de Manger ‒ uma judia simples do shteitl ‒ se dirige ao irmão de Itzik, Nute, que morre ainda jovem.

Sobre o poeta Itzik Manger, sabemos que nasceu em uma família de alfaiates, em 1901, em Czernowitz [lê-se Tchérnovits], na época situada na Ucrânia e que foi, em 1918, incorporada à Romênia. Colaborava em jornais literários, fazia conferências sobre literatura judaica e europeia e publicou livros de poemas ainda nos anos de 1920. Compunha baladas e também canções satíricas de temas religiosos. Di gôldene pave, Idl mitn fidl, estão entre muitas de suas músicas.

Viveu em Varsóvia de 1928 até 1938, ano em que fugiu do nazismo e se radicou na Inglaterra; mesmo ano em que compôs Oifn veg shteit a boim… De Londres, migrou em 1951 para os Estados Unidos, e de lá para Israel em 1967, falecendo dois anos depois. Parece assim que o próprio Itzik Manger pôde ser um pássaro, irradiando músicas, poemas, ensaios e conhecimentos sobre literatura e judaísmo, por vários continentes.

Como em muitos de seus poemas, Manger baseou Oifn veg shteit a boim em uma canção popular ídish: “Oifn veg sheit a boim, shteiter angueboign/ fort a id avec cain Eretz-Isroel mit farveinte oign” (No caminho há uma árvore, ela está encurvada/ viaja um judeu para Eretz-Israel com os olhos marejados de lágrimas). E se inspirou também numa canção de amor: “Dortn oif a bérguele shteit noch a bêimele/ dos bêimele iz shoin lang aingueboign” (lá, sobre a colina, há uma arvorezinha/ a arvorezinha está há muito tempo encurvada). Na verdade, segundo Eleanor Mlotek, o poeta folclórico ídish Moshé Bernstein já tinha escrito sobre o tema em 1880: “Um vinter, zet, vi dos beiml shteit nebech aingeboign…” (No inverno, veja como a pobre árvore está lá encurvada…).

O poema de Bernstein continua, lindo, mas creio que os leitores de TSHIRIBIM e eu já temos bom material de pesquisa, reflexão e emoção! Agora, a suavidade, tristeza e doçura do Oifn veg pode ser apreciada nos links abaixo:

https://www.moyshele.com/roller/moyshele/entry/oyfn_veg_shteyt_a_boym

http://lyricstranslate.com/en/talila-oyfn-weg-shteyt-boim-lyrics.html

https://www.youtube.com/watch?v=uZuFrgHAwj4

 

Ou em outros, na internet, com ilustrações, animação e legendas. Vale conferir!

 

Especial para ASA

Sonia Kramer

Professora do Departamento de Educação da PUC-Rio, onde coordena o Curso de Pós-Graduação em Estudos Judaicos. É autora de livros e artigos sobre Educação e temas judaicos. É colunista do Boletim ASA.

1 Comentário

  • Responder outubro 5, 2015

    Alexandra

    Que lindo, Sonia! A música, a poesia e suas palavras trazem suavidade e reflexão! Para uma mãe de adolescente, o tema do voo é muito caro!

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