Idl mitn fidl ‒ Idl com o violino

Cartaz de Idl mitn Fidl estrelado por Molly Picon

Cartaz de Idl mitn Fidl estrelado por Molly Picon

Violinistas sempre me fizeram chorar. Um choro que brota de uma emoção suave e de uma saudade bonita de um tempo e de um lugar contados nas histórias de meus pais e avós, escritas em livros ‒ romances ou poemas ‒, contempladas em pinturas, apreciadas em filmes ou escutadas na música clássica e em canções populares. As lágrimas embaçam os olhos tanto diante de concertos em salas de espetáculos com orquestras importantes quanto no encontro casual numa esquina, metrô, bar, quiosque.

São lágrimas que acompanham a reminiscência, diria o filósofo Walter Benjamin, produzidas por uma memória involuntária como os cheiros das madeleines de Proust. E, ainda que na minha família não se tenha notícia de violinistas, os relatos da sua vida no shtetl e da migração para o Brasil estiveram acompanhados ‒ como uma trilha sonora da experiência vivida ‒ por violinistas no telhado retratados na forte e delicada pintura de Marc Chagall.

Violinos sempre estiveram presentes na vida e na história dos judeus. Na música ídish, trata-se de uma presença emblemática ‒ da alegria do cotidiano em meio à pobreza ou à riqueza ‒ na celebração de casamentos e bar mitzvot, e que evocam também a fuga de um pogrom, o deixar tudo para trás e levar esse pequeno instrumento na bagagem. Essa presença, sua força e energia é que me fazem escolher Idl mitn fidl para este Tshiribim.

No seu livro Violins of Hope (Violinos da Esperança), James Grymes argumenta que o violino se constituiu como central da vida cultural judaica há muitos séculos.  Alguns pesquisadores, Grymes comenta, atribuem até mesmo a invenção do violino aos judeus que, expulsos pela Inquisição na Espanha, em 1492, migraram para a Itália. Desde então, este instrumento desempenha papel importante tanto na vida profissional de músicos judeus com formação clássica que escolhem tocar o cancioneiro popular quanto na vida comunitária onde o violino se tornou um componente que ao mesmo tempo mantém e renova a tradição.

Idl mitn fidl expressa a cultura popular. Sua melodia foi composta por Abraham Ellstein (1907-1963) para o filme estrelado pela atriz Molly Piccon no papel de Idl. O refrão ecoa o da música folclórica Tsen Bríder (Dez irmãos), publicada pela primeira vez em 1901 e cujo texto de 1911 fala de Iosl mitn fidl…  A letra foi escrita pelo poeta Itzik Manger (1901-1969), autor de Oifn veg shteit a boim (No caminho há uma árvore), de que tratamos nesta coluna (Boletim ASA 156, set-out de 2015), Dos lid fun di gôldene pave (A canção do pavão de ouro), entre muitos poemas e canções.

Segundo comentaristas, Idl mitn fidl foi o último filme ídish produzido na Polônia (1936), e dá uma rara imagem da vida no shtetl antes da 2ª Guerra. O filme conta a história da jovem Idl, que toca violino, e de seu pai, Arie, tocador de tuba. Para sobreviver, viajam e tocam em casamentos. Idl – como Yentl – vai disfarçada de menino, porque, lhe diz seu pai, assim estaria mais segura. Ao longo da viagem, encontram dois músicos que a eles se juntam para formar uma banda. No caminho, Idl e Froim se apaixonam: ela com seu violino; ele com seu clarinete.

Andar dançando

E a música nos convida a passear, cantar, dançar, rir e se apaixonar.

Iber felder, vegn,    / Sobre campos, caminhos,

Oif a vogn hei    / Numa carroça de feno
Mit zun un vint un regn,    / Com sol e vento e chuva  

Forn klezmer tsvei    / Viajam dois músicos
A chidesh, oi, a chidesh,    / Uma surpresa, oi, uma surpresa

Zogt ver zenen zei?    /  Digam: quem são eles?

Idl mitn fidl,    / Idl com o violino

Arie mitn bas,    / Arie com a tuba,
Dos lebn iz a lidl,    / A vida é uma canção

To voje zain in cas?    / Para que ficar com raiva?
Hei, Idl, fidl, shmidl, hei,    / Hei, Idl, fidl, sdmidl, hei,   

Dos lebn iz a shpas.    / A vida é um gracejo.

A tsig shteit oif der lonke    / Uma cabra está no pasto
Un meket troiric: mé!     / E berra tristemente: mé!  
Hei, du tsig, du shoite,    / Hei, sua cabra, sua tola   

Troirik zain is fé!    /  Ficar triste é bobo!
Shoclt er dos berdl:    / Ela balança a barba:

Taque, taque fé!    / Mesmo, mesmo bobo!

Idl mitn fidl,    / Idl com o violino

Arie mitn bas,    / Arie com a tuba,
Dos lebn iz a lidl,    / A vida é uma canção

To voje zain in cas?    / Para que ficar zangado?
Hei, Idl, fidl, shmidl, hei,    / Hei, Idl, fidl, sdmidl, hei,   

Dos lebn iz a shpas.    / A vida é um gracejo.


A foigl flit: gut morgn    / Um pássaro voa, bom dia!

Gut morgn, a gut ior!    / Bom dia, um bom ano!
Der troier un di zorgn    / A tristeza, a preocupação

Tsu alde shvartse ior!    / Que vão para o inferno!
Dem vint a lach in ponem,    / O vento, um sorriso no rosto

Un Idl, Idl for!    / E Idl, Idl segue!

Idl mitn fidl,    / Idl com o violino

Arie mitn bas,    / Arie com a tuba,
Dos lebn iz a lidl,    / A vida é uma canção

To voje zain in cas?    / Para que ficar zangado?
Hei, Idl, fidl, shmidl, hei,    / Hei, Idl, fidl, sdmidl, hei,   

Dos lebn iz a shpas.    / A vida é um gracejo.

 

A harmonia de letra e melodia evidenciam o tom de brincadeira e o clima de alegria com que os músicos conduzem seus movimentos. A vida é um gracejo, não há por que ficar zangados, tristes ou preocupados, apesar da pobreza no entorno. Até os pássaros ou a cabra são chamados a deixarem de lado a tristeza, e o vento os ajuda a colocar um sorriso no rosto, porque a vida é uma canção.   

Violinistas sempre me fizeram chorar. Ouço e me emociono porque eles me lembram dos virtuosos, mestres e concertistas internacionais, dos que se tornaram artesãos e passaram a consertar violinos quando proibidos de se apresentarem em orquestras a partir de 1933, na Alemanha de Hitler, dos muitos que se mantiveram tocando durante o Holocausto, dos que foram assassinados. Lembram os ciganos e meu avô paterno, que adorava dançar, meus pés sobre os dele. Migrou da Polônia para o Brasil justo em 1933 e curiosamente se chamava Idl. Ao me recordar dele recordo-me de tudo o que é alegre porque ele sempre comemorava a alegria e a liberdade.    

Idl mitn fidl, contudo, sempre me faz sorrir, sonhar, querer mexer pés e braços como a menina com seu violino, querer andar dançando como tão bem fazem crianças quando estão juntas e brincam. Há, em Idl mitn fidl, esse tom de brincadeira como experiência de cultura que a música provoca e a que nos convoca. É da brincadeira e sua riqueza cultural que a canção fala alto. Explico: diferentemente do significado da palavra brincadeira em português, shpilen em ídish (como em alemão) diz respeito a tocar um instrumento, representar no teatro, praticar um esporte ou brincar. Como to play ou jouer, shpilen tem essa dimensão ampla que nos envolve inteiros como humanos que somos na nossa capacidade de, apesar da dor, do sofrimento, da perda ou da injustiça, continuarmos. A rir e a brincar.     

Shpilen zich. Divertir-se. É essa experiência que Idl mitn fidl traz e ensina. Para relembrá-la ou conhecê-la, convido agora os leitores a abrir os links abaixo. Assim, poderão escutar e admirar diversos e agradáveis momentos do filme e da interpretação desta tão contagiante e bela canção. Para desfrutar dessa riqueza, partilhá-la, vivê-la de novo e mais uma vez. Se gostarem, divulguem para seus amigos!

 

http://www.songsofmypeople.com/yidl-mitn-fidl.html

https://www.youtube.com/watch?v=Zz8Q_Zxj_jU

https://www.youtube.com/watch?v=TDFkcy_NBMg

https://www.youtube.com/watch?v=O6MK5sRpn3A

 

Especial para ASA

Sonia Kramer

Professora do Departamento de Educação da PUC-Rio, onde coordena o Curso de Pós-Graduação em Estudos Judaicos. É autora de livros e artigos sobre Educação e temas judaicos. É colunista do Boletim ASA.

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