Iánkele e Shífrele – presença de Mordechai Gebirtig

gebirtig

Mordechai Gebirtig

Iánkele é um dos mais conhecidos acalantos encontrados em ídish, belos poemas escritos sob a forma de cantigas de ninar, pequenas valsas com grande lirismo, que falam da infância, das crianças e de cuidado. A escolha de Iánkele para este número do Boletim da ASA chega como uma singela homenagem a Mordechai Gebirtig [lê-se Guebírtig], um dos últimos grandes poetas judeus, que compôs mais de cem canções em ídish.

Nascido em Cracóvia, em 1877, Mordechai (grafado também como Mordko, Mordecai ou Mordkhe) contribuiu de forma única para a arte e a cultura judaicas, em particular para a literatura, a música e o teatro. Importante artista popular, trabalhava como marceneiro. Pertenceu ao Partido Social Democrata Judeu, que depois da Primeira Guerra se fundiu ao partido proletário socialista e idishista Bund, em luta pela autonomia cultural judaica numa Polônia democrática.

Foi neste contexto que Gebirtig se desenvolveu e produziu, motivado por escritores, intelectuais e jornalistas, com quem participava de noites artísticas e literárias. Sua primeira coleção de músicas, Folkshtímlech (vindo do povo), foi publicada em 1920, mas elas se espalharam pelo mundo antes, em peças teatrais encenadas por atores tais como Molly Picon

Difícil dizer quais são suas canções mais conhecidas ou importantes. Es brent (Queima), escrita em 1938 depois do pogrom de Przytyk e adotada pela juventude judaica de Cracóvia como um libelo contra os nazistas, é considerada por Eleanor Mlotek ‒ no livro Mir trogn a guezang (Nós carregamos uma canção) ‒ como uma canção profética. Mas há muitas outras, como Rêizele, Mótele, Môishele, main fraind (Môishele, meu amigo), Drai téchterlech (Três filhinhas).  

Kleiner iossim (Pequeno órfão ), A malach is geboirn (Nasceu um anjo), Kinder iorn (Anos de infância), Huliet, huliet, kinderlech (Alegrem-se crianças), Baim táichele (Junto ao riacho), Noch a gleisl tei (Mais um copo de chá), Arbetloser marsh (A marcha dos desempregados), citadas por Samuel Belk em “A memória e a história do shtetl na canção popular judaica”, dissertação defendida na USP em 2003, trazem o dia a dia do shtetl, brincadeiras infantis, a vida cotidiana com o avô, a mulher ou o trabalho.   

Seu segundo livro, Maine líder (Minhas canções), de 1936, reuniu 50 canções. Dentre elas, Ver der érshter vet lachn (Quem vai ser o primeiro a rir), incluída no musical Those were the days, de 1991, já era conhecida no Teatro de Revista do Gueto de Lodz.

Es tut vei (Dói) foi criada quando Gebirtig foi preso com a família em 1941 no gueto de Cracóvia. Na dor de cada verso, a canção denuncia a falta de solidariedade dos poloneses, diante da invasão nazista. Na melodia e na letra, como em Main chólem (Meu sonho), In gueto, Es iz gut (É bom) e Shífreles portret (O retrato de Shífrele), também compostas no mesmo período, ouve-se sofrimento, tristeza e uma profunda humanidade.    

Por sua delicadeza e força, TSHIRIBIM escolheu Iánkele e Shífrele, cujas letras são  partilhadas com os leitores. Vale a pena abrir um dos sites abaixo para escutar a doçura e a suavidade lírica expressas por Gebirtig! 

http://www.zchor.org/fater/gebirtig.htm

http://www.ushmm.org/wlc/en/media_so.php?MediaId=2622

http://datab.us/Search/Gebirtig

Iánkele

Shlof je mir shoin Iankele, main sheiner / Durma já, meu lindo Iankele

Di eiguelech di shvartsinke mach tsu / Feche seus olhinhos negros

A ínguele vos hot shoin ale tsêindelech / Para um menino que já tem todos os dentes

Muz noch di mame zingen ai-liu-liu / A mãe ainda precisa cantar ai-lu-lu

A ínguele vos hot shoin ale tsêindelech / Um menino que já tem todos os dentes

Un vet mit mazl bald in cheider guein / Que com sorte irá logo para o cheider

Un lernen vet er chumash mit guemore / E vai estudar a Torá e a Guemará

Zol veinen ven di mame vigt im ain? / Deve chorar quando a mãe o embala?

A ínguele vos lernen vet gemore / Um menino que vai estudar a Guemará
Ot shteit der tate kvelt un hert zich tsu / Lá está o pai, sorri e presta atenção

A ínguele vos vakst a talmid-chuchem / Um menino que cresce um sábio do Talmud
Lozt gantse necht der mamen nisht tse ru? / Não deixa a mãe descansar a noite inteira.

A ínguele vos vakst a talmid-chuchem / Um menino que cresce um sábio do Talmud
Un a gueniter soicher oich tsu glaich / Um comerciante competente também

A ínguele a kluger chosn-bucher / Um menino que já está em idade de casar

Zol lign a nas vi in a taich? / Pode estar tão molhado como dentro de um rio?

Nu shlof je mir, main kluger chosn-bucher / Adormeça meu rapaz casadoiro e inteligente,

Dervail ligstu in víguele bai mir / Por enquanto você está deitado no berço ao meu lado
S’vet costn noch fil mi un mames trern / Vão custar ainda empenho e lágrimas da suas mãe

Biz vanen s’vet a mentsh arois fun dir. / Até que saia uma pessoa de você.

Dirigindo-se ao menino, cuidando do pequeno, a mãe que ainda precisa cantar ai-lu-lu e o pai que lá está, sorridente e atento, a música convida a pensar no presente e no futuro, no que a criança é e no que se espera que venha a ser. Sua mensagem: esperança de estudo, sabedoria, e que aquele que está ali sendo embalado se torne um Mentsch, uma pessoa.

No berço de Iánkele, nos seus olhinhos fechados  e no embalo da mãe, o tom da paz. 

Shífreles portret evoca uma cena similar. Uma hora de dormir, um pai, uma filha. Mas o contexto, totalmente outro, fala de ausência, diz pelo que não diz.

Shífreles portret / Retrato de Shífrele

Oif der vant links fun main bet, / Na parede à esquerda da minha cama,

Hengt main tochter Shífreles portret. / Está pendurado o retrato da minha filha Shífrele.

Of mol in der mitn der nacht, / Muitas vezes, no meio da noite,

Ven ich benk noch ir un tracht, / Quando penso e sinto saudades dela,

Ze ich vi zi kukt oif mir, Vejo como ela me olha,

Her ich vi zi redt. / Ouço como ela me fala.

Táteshi! Ch´veis, s´iz dir bang, / Papaizinho! Sei, você está ansioso para me ver,

S´vet der crig shoin nisht guedoren lang, / A guerra não vai durar muito,

Kumen vel ich bald tsu dir, / Vou voltar logo para você,

S´klapt der friling shoin in tir, / A primavera já está batendo na porta,

Shmeichlt lib tsu mir un redt / Diz e sorri com amor para mim

Shífreles portret. / O retrato de Shífrele.

O presente se impõe e não parece haver futuro, a não ser em palavras imaginadas da filha, fotografia na parede, que falam de amor. A música ecoa saudade, ansiedade e a primavera batendo na porta, bela metáfora da liberdade diante do inverno, a prisão. 

No retrato de Shífrele, a imagem da guerra.

O balanço dos poemas nos faz oscilar de um cenário onde um pai tenta fazer dormir o menino a um pai que tenta dormir mas é impedido, pois está marcado pela saudade. Iánkele perto, ao lado; Shífrele longe, nunca mais se soube dela e de seu destino. O pai fala da criança, a menina fala com o pai. Da mãe, presente em Iánkele, não há vestígio em Shífreles portret.

Gebirtig foi assassinado pelos nazistas em 4 de junho de 1942, no gueto de Cracóvia. Seus poemas e músicas mantêm sua presença viva entre nós e permitem lembrar que, ao lado de milhões aniquilados pelo Holocausto ‒ ciganos, negros, deficientes, homossexuais, judeus ‒, a língua ídish e a rica produção literária que nela se expressa foram drasticamente afetados.

Cada palavra falada, escrita, lida, encenada ou cantada por nós em ídish é, pois, sempre, um ato contra a barbárie e o genocídio. Das suaves cantigas de ninar a músicas que trazem os guetos e a Shoá.     

Especial para ASA

Sonia Kramer

Professora do Departamento de Educação da PUC-Rio, onde coordena o Curso de Pós-Graduação em Estudos Judaicos. É autora de livros e artigos sobre Educação e temas judaicos. É colunista do Boletim ASA.

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