Tradição pode não ser obrigação

Detalhe do Arco de Tito retrata a Menorá e outros despejos retirados do 2º Templo

Detalhe do Arco de Tito retrata a Menorá e outros despejos retirados do 2º Templo

O vídeo exibido no YouTube sobre quipot e logos do esporte profissional é um exemplo interessante de como a  identidade judaica no século 21 encontra novos caminhos para  tecer  símbolos étnico-religiosos na sempre dinâmica cultura secular e na economia norte-americanas. Como o vídeo demonstra, não há em absoluto nada inapropriado no fato de uma pessoa vestir uma quipá com um logo esportivo, desde que, obviamente, o local e o momento o permitam. Enquanto escrevo, no Rio de Janeiro, este texto, não há quipot promovendo qualquer dos principais times de futebol (seria esta uma ideia interessante?) ou mesmo a seleção brasileira, portanto estamos comentando um tema que não faz parte da realidade daqui.

O uso da quipá  iármulque, em ídish  não é exigido nem na Torá nem na literatura rabínica. Trata-se do exemplo por excelência de um costume cuja origem exata se perdeu, mas cujo valor cultural integrou-se à comunidade tão completamente que é como se fosse uma exigência legal. Os judeus têm vivido em meio a muitas culturas diferentes; a sua capacidade de se adaptar e, às vezes, integrar-se totalmente sem perder a própria identidade é considerada uma das características de sua sobrevivência. Há hoje no mundo, pelas projeções populacionais mais aceitas, 16 milhões e 500 mil judeus em uma população de sete bilhões e 300 milhões de pessoas, ou seja, 0,22602%, menos de um-quarto de 1%. Entre esses 16 milhões e meio de judeus, provavelmente apenas um milhão ou cerca disso vivem em lugares onde o esporte profissional e jovens desportistas se inserem num mercado onde o tema em questão constitui uma realidade. Esse nicho de mercado, muito pequeno, torna o tema ainda mais interessante e certamente deveria fazer com que os judeus sentissem orgulho de trazer para o debate uma realidade um tanto insignificante.

Maguen David e Menorá

Símbolos judaicos que identificam imediatamente judeus entre judeus, bem como entre não judeus, são outra forma de pensar sobre o quanto os judeus têm utilizado o seu desejo de se adaptar, desde os tempos bíblicos. A Estrela de David, Maguen David, hexagrama de dois triângulos entrelaçados, é hoje reconhecida universalmente sobretudo uma estrela azul sobre fundo branco como exclusivamente judaica e da bandeira israelense.

A estrela em si não é tornada obrigatória nem mencionada em parte alguma na Bíblia Hebraica / Tanach ou na literatura rabínica.  Antropólogos têm discutido acerca deste símbolo e concordam que sua origem pode não ter sido judaica. Pode ser, contudo, visto como ornamento em sinagogas de Israel do século 4°. Foi usado em bandeiras representativas da comunidade judaica de Praga no século 14 e nas capas e folhas de rosto de sidurim e mahzorim na Europa.  Quando Theodore Herzl sugeriu uma bandeira para o Primeiro Congresso Sionista Mundial, utilizou-se a estrela. A estrela se tornou, claro, um distintivo de vergonha exigido pelos nazistas. Hoje, é  usada comumente  em volta do pescoço tanto por homens como por mulheres como sinal de identidade, assim como  cristãos usam crucifixos.

O candelabro de sete braços, a Menorá, tem sua origem em Exodus 25:31-40. Ali se ordena que seja criado e usado no Tabernáculo, onde os israelitas deveriam fazer o seu culto no deserto. Posteriormente, torna-se parte dos templos de Jerusalém e é visto sendo removido quando Roma destrói o Templo, no ano 70. A Menorá deveria ser acesa com azeite de oliva virgem e mantida acesa pelos sacerdotes. Na atualidade, está integrada ao moderno Estado de Israel como o símbolo exposto do lado de fora de seu Parlamento, a Knesset, bem como na  moeda do país, mas o seu uso nada tem a ver com o antigo uso bíblico seja no Tabernáculo, seja no  Templo, o  qual judeus hoje não acreditam que voltará a ser reconstruído. Quando um símbolo religioso da antiguidade se torna o símbolo secular da pátria judaica, certamente ativa a questão da publicidade e das relações públicas, como os logos nas quipot. A Menorá de sete braços é o elo entre o “antigo” e o “contemporâneo”, e todos os judeus e mesmo não judeus entendem que, quando Israel a utiliza, não está pretendendo transmitir o símbolo bíblico, e sim a continuidade do povo ao qual o símbolo foi atribuído.

Hanuquiá

O candelabro de nove braços, que às vezes é confundido com a Menorá que ficava no Templo, está ligado unicamente à festividade não bíblica de Hanucá e é chamado Hanuquiá. A história da festa se refere aos hasmoneus ou, como eram conhecidos em grego, macabeus, uma família de irmãos que combateram durante três anos numa guerra civil contra os gregos assírios, de 168 a.C. a 165 a.C. Esse texto , excluído da Bíblia Hebraica, é encontrado  apenas nos Apócrifos que constam na versão católica da Bíblia. A festa propriamente dita é mencionada só de passagem no Talmud, e sua observância pode ter sido adotada apenas devido ao costume e à necessidade de uma festa no inverno (no Hemisfério Norte!).

Na atualidade, a Menorá de nove braços / Hanuquiá é certamente um símbolo judaico com reconhecimento universal, comparado aos símbolos cristãos nas culturas cristãs ocidentais. Não há absolutamente nada em comum entre a observância cristã do Natal e a festividade menor de Hanucá, exceto o fato curioso do solstício no Hemisfério Norte. Todas as festividades bíblicas ordenadas em detalhes em Leviticus 23 estão ligadas à coincidência entre meses lunares e festividades agrícolas sazonais solares. A ausência de uma observância no inverno pode ter criado um conflito cultural para os judeus do período helênico, que acabaram por adaptar, sintetizar e integrar um evento de solstício a um relato militar histórico. A ausência dos macabeus na Bíblia Hebraica pode indicar uma inicial rejeição rabínica ao que se considerou ser um sincretismo religioso, e seriam necessários mais 350 – 400 anos de integração até se encontrar Hanucá no Talmud. Agora o antigo símbolo de adoração, a Menorá, pode ser usado anualmente para lembrar aos judeus a batalha que travaram contra a cultura não judaica dominante!

Se uma poderosa mensagem de relações públicas existe, esta é a  Hanuquiá, com suas nove luzes, significando que os judeus não se deixarão submeter à assimilação. Nem a festividade nem o símbolo são exigidos em qualquer fonte bíblica, e mesmo o reconhecimento rabínico da celebração é uma aceitação pós-fato dos costumes do povo. Desta forma acabamos onde começamos: judeus sendo uma comunidade dinâmica que se adapta às culturas dominantes de cada período da História e encontra caminhos para manter a sua singularidade judaica mesmo integrando-se em culturas nas quais é sempre minoria. Qualquer que seja o símbolo, judeus o usam para proclamar a sua identidade com orgulho e a sua determinação de não serem ignorados na economia, no entretenimento ou na política de seu tempo. Am  Israel Hai o povo de Israel vive!

Especial para ASA

Joseph Edelheit

Joseph A. Edelheit é rabino reformista. Leciona e é diretor de Estudos Religiosos e Judaicos na St. Cloud State University, St. Cloud, Minnesota (EUA). Visita com frequência o Rio de Janeiro, onde curte ser ao mesmo tempo judeu e novo carioca.

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