O rabino, o pistoleiro e uma carreira genial

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Gene Wilder em The Frisco Kid (O rabino e o pistoleiro)

Com algum atraso, devido à bimestralidade do nosso Boletim, presto aqui minha homenagem a Gene Wilder, falecido em 28 de agosto passado, devido a complicações de Alzheimer, aos 83 anos. Nascido Jerome Silberman, filho de pai judeu russo e mãe americana descendente de judeus russos, estará para sempre no panteão dos mais engraçados e talentosos atores do cinema.

Recentemente revi O rabino e o pistoleiro (1979), dirigido por Robert Aldrich. Neste filme, Wilder e Harrison Ford formam uma dupla improvável, mas engraçada e comovente. Wilder faz o papel de Avram, um dos piores alunos de uma escola de rabinos da Polônia, que é “recompensado” com a missão de se tornar o rabino e levar a Torá para uma comunidade judaica em São Francisco, que, segundo seus professores, “fica perto de Nova York”.

Estamos em 1850, e o inocente Avram é roubado e surrado por malandros tão logo chega à Filadélfia. E é nessas condições que ele começa a travessia do território americano para cumprir seu objetivo, numa jornada que irá combinar diferentes situações e gêneros: tolerância religiosa, quando é acolhido por uma comunidade amish, que lhe dá dinheiro para que ele possa seguir adiante; comédia pastelão, como na sequência em que trabalha na construção de uma ferrovia e sistematicamente acerta a marreta no pé do grandalhão do grupo; ação, nas sequências em que é capturado pelos índios e nas cenas de tiroteio; humor judaico; e romance, já que uma noiva o espera em São Francisco.

Avram vive todas essas aventuras com Tommy (Ford), um pistoleiro plenamente adaptado ao Velho Oeste da corrida do ouro. Apesar de totalmente amoral, Tommy toma o rabino como protegido e amigo, e o acompanha até seu destino final. Ao longo do percurso, usa de toda sua paciência para não abandonar o novo amigo, que se recusa a montar seu cavalo em pleno Shabat, mesmo quando estão sendo perseguidos depois de Tommy ter assaltado um banco. E observa incrédulo quando Avram aceita sua parte no assalto, apenas para devolver o dinheiro pelo correio.

Versátil

Neste filme, que parte de uma boa ideia, mas que sofre com uma narrativa um tanto truncada por uma montagem ruim, Wilder mostra seu talento versátil ao interpretar em situações tão variadas, e é bastante convincente seja como um atrapalhado trabalhador na ferrovia, como homem de ação durante um tiroteio, e mesmo como um rabino inspirador, sincero e fervoroso em sua fé.

E Gene Wilder era mesmo versátil. Foi roteirista de A dama de vermelho (1984), O maior amante do mundo (1977), que também produziu, Cegos, surdos e loucos (1989), que estrelou em parceria com Richard Pryor, numa das comédias mais engraçadas que já vi, e de O jovem Frankenstein (1974), onde faz uma cena inesquecível: diante dos alunos, numa aula de medicina, irritado por o associarem ao notório dr. Frankenstein, enterra um bisturi na própria coxa, percebe o que acabou de fazer, mantém a fleuma e encerra a aula, para só então reagir à dor. Aliás, neste filme dirigido por Mel Brooks, Wilder e Marty Feldman formam uma dupla engraçadíssima. No papel de relutante descendente do dr. Frankenstein, Wilder se apresenta no Castelo do avô como dr. “Fronkonstin”, ao que Feldman, o criado, responde apresentando-se como “Aigor”, ao invés de Igor. Em outra sequência engraçada o jovem dr. Frankenstein se oferece para corrigir cirurgicamente a corcunda de Igor (corcunda que toda hora muda de posição), e este retruca: quê corcunda?

Trabalhou como ator em quatorze filmes de longa metragem, sendo indicado para o Oscar por sua participação em O jovem Frankenstein e em Primavera para Hitler (1967, Mel Brooks); neste, temos um dos raros filmes que conseguem realmente falar de Hitler e do nazismo com delicadeza e humor, ao mesmo tempo em que satiriza a Broadway: conta a história do fracassado produtor de teatro Max Bialystock (Zero Mostel), que leva adiante um plano infalível para ganhar dinheiro: vender aos patrocinadores mais de 100% dos direitos. A ideia é produzir uma peça que seja um fracasso garantido e, alegando prejuízo, ficar com o dinheiro. Assim, apresenta uma história em que Hitler aparece como homem sensível e gentil. O problema é que na estreia, depois de algum desconforto, a plateia toma a peça por comédia, transformando-a num sucesso instantâneo.

Wilder também atuou em várias séries de TV, tendo recebido um Emmy em 1998 por sua participação especial na série Will & Grace. Recebeu duas indicações ao Globo de Ouro pelos papéis em O Expresso de Chicago (1976, Arthur Hiller) e A fantástica fábrica de chocolate (1971, Mel Stuart), como seu inesquecível Willy Wonka. Mais uma vez sob a direção de Mel Brooks, foi o incrivelmente rápido pistoleiro Jim (“Meu nome é Jim… mas, pode me chamar de… Jim”) em Banzé no Oeste (1974), seguramente a paródia mais engraçada dos filmes de faroeste. Como escritor, publicou Kiss Me Like a Stranger: My Search for Love and Art (2005), My French Whore (2007) e The Woman Who Wouldn’t (2008), entre outros.

Gene Wilder deixará saudades, mas deixará também uma obra genial, que felizmente poderá ser sempre revisitada.

http://www.spiritualityandpractice.com/films/reviews/view/7453

http://www.rogerebert.com/reviews/the-frisco-kid-1979

http://www.threemoviebuffs.com/review/frisco-kid

Especial para ASA

Fernando Vugman

Doutor em Literaturas da Língua Inglesa, tradutor, autor de A casa sem fim (contos) e Ficção e pesadelos (pós) modernos (teoria e crítica). É colunista do Boletim ASA.

1 Comentário

  • Responder janeiro 12, 2017

    Eleonora Grazina Monteiro

    Olá Fernando,
    Sou fã também do Gene Wilder. Vi a maior parte dos filmes deles, mas não essa comédia que você resenha. Vou tentar ver. Obrigada pela dica
    Abraços,
    Eleonora

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