Horror, humor e lirismo: A dança dos vampiros

Iain Quarrier (esq.) e Roman Polanski

Iain Quarrier (esq.) e Roman Polanski

Ainda menino, de férias na casa dos meus zeide e babe, esgueirava-me da cama de madrugada para assistir na TV a filmes de fantasmas e casas mal-assombradas. Fã de filmes de terror, guardo ainda a estranha mistura de sensações provocadas pela primeira vez que vi A dança dos vampiros (1967), de Roman Polanski, com suas imagens belíssimas da intrépida incursão dos caçadores de vampiros no seu castelo perdido na neve.

Ao rever o filme  para esta resenha, recuperei as impressões de infância, mas descobri nele outros encantos. É um filme raro de muitas maneiras. A começar, por incluir vampiros judeus. Numa rápida pesquisa descobri apenas mais um filme com vampiro judeu, um curta-metragem de humor intitulado Jew bat, disponível no youtube.

A sequência inicial mostra o professor Abromsius (Jack MacGowran) e seu assistente Alfred (Polanski) conduzidos por um trenó numa paisagem nevada em meio à noite sinistra, perseguidos por lobos. Logo chegam a uma hospedaria, de propriedade de Shagal (Alfie Bass), sua esposa, Rebecca Shagal (Jessie Robins), e a filha, Sarah Shagal (Sharon Tate). No interior da hospedaria há resmas de alho por todo lugar.  Atento ao alho, Abromsius pergunta por algum castelo na região; assustados, todos negam a existência de qualquer castelo. Mas naquela mesma noite Sarah será raptada por um vampiro e levada para seu castelo. Ao se darem conta do acontecido, Shagal e Rebecca se lamentam aos gritos de “oooyyy!” Shagal parte em busca da filha e na mesma noite é trazido por lenhadores, congelado e com marcas de dentes no corpo. Pouco depois, revive como vampiro. Fugindo de Abromsius e de Alfred, corre para o quarto da bela Magda (Fiona Lewis), a empregada que ele sempre tenta seduzir. E quando, para se proteger, ela exibe um crucifixo, ele ri e exclama: “Oyyy! Você pegou o vampiro errado.” Mas antes de conseguir mordê-la, é obrigado pelos seus perseguidores a escapar; somente mais tarde retorna à estalagem e consegue raptar Magda, levando-a para o castelo do conde Von Kroloc (Ferdy Mayne). Nesse meio tempo, Sarah permanece no castelo, satisfeita com seus intermináveis banhos de banheira (sua compulsão!) e aguardando o baile dos vampiros, sem saber que será então oferecida como prato principal.

Gagues e nonsense

Neste filme de trama simples e narrativa solta, Abromsius é um professor maluco que caça vampiros, trazendo como assistente o desajeitado Alfred. Seu objetivo é chegar ao castelo de Von Kroloc e exterminar todos os vampiros ali. Alfred, na verdade, está mais interessado em salvar Sarah, por quem se encantou à primeira vista.

Mas, além de incluir vampiros judeus, A dança dos vampiros é um filme raro por combinar de forma única terror, humor, lirismo e uma fotografia maravilhosa em Panavision Metrocolor, aos cuidados de Douglas Slocombe. Aliás, talvez seja essa combinação o principal motivo para seu relativo fracasso de bilheteria, pois o filme nos transporta constantemente de um estado de espírito a outro.

Roman Polanski (esq.) e Jack MacGowran

Roman Polanski (esq.) e Jack MacGowran

Quando me refiro ao humor, não se trata apenas de humor negro. Com poucas falas, muitas vezes nos vemos diante das gagues visuais das comédias do cinema mudo, como quando Alfred tenta desentalar o professor Abromsius de uma janela do castelo, ou quando Shagal é expulso da câmara mortuária do conde pelo seu servo Koukol (Terry Downes), deslizando escada abaixo dentro de seu caixão. Outras vezes, temos puro humor nonsense, como no diálogo entre Alfred e Abromsius, em que o primeiro conta que não viu refletida no espelho a imagem do filho gay (Iain Quarrier) do conde, ao que o professor retruca que adoraria ter visto isso. Ou ainda no absurdo diálogo acadêmico entre Abromsius e Von Kroloc sobre a capacidade dos morcegos de voar no escuro. Entretanto, as cenas de humor são sempre seguidas de horror e drama, jamais permitindo uma gargalhada e fazendo nosso riso morrer na garganta.

As longas sequências silenciosas dos trenós deslizando pelas dunas de neve em noites de luar contribuem para o lirismo das imagens, bem como dão ao filme um ar de conto de fadas. De fato, junto com a riqueza da cor e da belíssima fotografia, essas cenas nos transformam às vezes em crianças, ao mesmo tempo encantadas e assustadas diante da casa de doces da Bruxa Malvada de João e Maria, ou no quarto do Lobo Mau.

Polanski revela talento como comediante, construindo um personagem ingênuo, amedrontado, apaixonado e completamente atrapalhado, recorrendo a poucas falas e a um gestual minimalista. Sharon Tate está belíssima, e nos entristece pensar que um ano depois seria brutalmente assassinada por Charles Manson e seus seguidores. E há o primoroso trabalho de Jack MacGowran, que cria um professor simultaneamente tão valente e cheio de iniciativa quanto frágil e alienado, contribuindo para uma narrativa que simplesmente nos conduz, sem dar pistas do destino final.

E o final chega quase como uma surpresa, pois sem saber, o professor Abromsius… Bem, melhor parar por aqui e deixar você descobrir por si!

Especial para ASA

 

Fernando Vugman

Doutor em Literaturas da Língua Inglesa, tradutor, autor de A casa sem fim (contos) e Ficção e pesadelos (pós) modernos (teoria e crítica). É colunista do Boletim ASA.

3 Comentários

  • Responder julho 1, 2016

    sarah

    Adorei Fernando! Eu, que não gosto de filmes de terror, fiquei ávida pelo filme!

  • Responder julho 1, 2016

    Jacques Gruman

    Legal ter lembrado deste filme. Eu o recuperei do acervo da extinta Paradise Vídeo, última locadora de Copacabana. Seu texto é muito bom, Fernando, e eu destacaria duas cenas: a do baile dos vampiros (com sucessivas perseguições hilariantes, típicas das comédias do cinema mudo) e a última, primor de ironia e que combina, magnificamente, humor e horror.

    • Responder julho 4, 2016

      Fernando Vugman

      Verdade. A sequência do baile é fantástica. Pena que o espaço da coluna me obrigou a deixar de fora a menção a outras cenas. Mas, o melhor é rever o filme, mesmo.

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