Pela paz com justiça no Oriente Médio

A diretoria da Associação Scholem Aleichem de Cultura e Recreação vem a público manifestar-se sobre a recente evolução dos acontecimentos no Oriente Médio. Como judeus e cidadãos brasileiros mergulhados em sólida tradição internacionalista, não podemos nos omitir frente a uma perigosa escalada da violência no conflito palestino-israelense. Esperançosos numa solução que traga paz com justiça para a região, assumimos as seguintes posições:

1. Apoiamos as forças democráticas e progressistas de ambos os lados, as quais não se deixam levar pela retórica do ódio e da violência e trabalham por saídas negociadas para o conflito e pela construção de canais que levem à convivência entre iguais. São elas que podem garantir a sanidade num ambiente contaminado por ressentimento e vingança.

2. Condenamos o terrorismo, quer venha de grupos ou de estados, e nos solidarizamos com as vítimas desta forma de barbárie. Além de moralmente abominável, o terrorismo é politicamente catastrófico, pois, apostando na lógica do “quanto pior melhor”, estimula as forças mais reacionárias no interior das sociedades.

3. Defendemos o mais estrito respeito aos tratados e convenções internacionais que se referem a populações civis em regiões atingidas por conflitos militares. Não há circunstâncias atenuantes para a violação sistemática da Convenção de Genebra, fato corriqueiro nos territórios ocupados por Israel em 1967.

4. Propugnamos a presença imediata de uma força internacional de paz na região até que as partes envolvidas estejam decididamente comprometidas com um processo de negociação. Esta parece ser a única forma eficaz de se estancar o banho de sangue e forçar os protagonistas a voltar ao diálogo.

5. Concordamos com os grupos pacifistas: é preciso acabar imediatamente com a ocupação israelense de territórios historicamente reivindicados pelos palestinos (correspondentes, hoje, a 22% da Palestina à época do Mandato Britânico. A ocupação corrompe o ocupante, humilha as populações das áreas ocupadas e inviabiliza qualquer entendimento.

6. Somos favoráveis à resolução 1397 da ONU, de 13 de março de 2002, que estabelece a existência de “dois estados – Israel e Palestina – vivendo lado a lado, dentro de fronteiras seguras e reconhecidas”. Para que isto conduza a uma paz estável, é indispensável que o futuro Estado palestino seja economicamente viável e politicamente independente, sem a mais remota semelhança com bantustões autoadministrados e cercados por força militar. Lembramos que os momentos de menor violência no Oriente Médio sempre coincidiram com períodos de maior esperança na concretização do direito de autodeterminação nacional dos palestinos.

7. Entendemos e aceitamos a importância de Jerusalém no imaginário nacional de israelenses e palestinos. Assim sendo, achamos justa a proposta de divisão administrativa de Jerusalém, com a parte oeste sob soberania de Israel e a parte leste controlada pelo futuro Estado da Palestina. Aprofundando-se o processo de paz, esta divisão tenderia a ser mera formalidade, caminhando-se para uma administração conjunta que atendesse aos formatos político, econômico, social e cultural das duas comunidades.

8. Endossamos as tentativas realizadas em Taba em janeiro de 2001 para solucionar a questão dos refugiados palestinos. Naquela ocasião, os negociadores estiveram próximos de um acordo aceitável, baseado no reconhecimento, formalizado pela delegação israelense, de que Israel foi parcialmente responsável pelo problema, e na resolução 194 da ONU, de dezembro de 1948. Este é um assunto delicado, mas que não deve ser negligenciado num contexto de solução definitiva do conflito palestino-israelense.

9. Repudiamos com firmeza qualquer tentativa de silenciar os críticos de Israel sob a alegação de que este tipo de crítica é, necessariamente, uma atitude antissemita. As comunidades judaicas e todas as pessoas interessadas têm o mais absoluto direito de olhar criticamente as políticas dos governos israelenses. Impedir uma postura independente é sabotar a democracia e facilitar o fechamento. É em ambientes assim, sufocantes, que se fertilizam as ideias autoritárias e o sectarismo.

10. Repudiamos com igual firmeza as tentativas de se agregar palavras de ordem antissemitas às manifestações políticas envolvendo o Oriente Médio. Tais palavras de ordem traduzem uma visão preconceituosa e superficial sobre as forças que se enfrentam na região, dificultando a aliança com grupos judaicos democráticos e pacifistas. Na mesma linha vão os atentados contra sinagogas e instituições judaicas, principalmente na Europa, que merecem o desprezo de todos.

Rio de Janeiro, 22 de abril de 2002

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