Em destaque – Vozes dissonantes

O jornal O Globo publicou hoje, 2.7.2014, matéria assinada pela jornalista Daniela Kresch. Com o título ‘Não é competição de sofrimento’, o texto dá voz a israelenses e palestinos que se recusam a ouvir os tambores da guerra que começam a rufar, propondo o difícil, mas indispensável, caminho rumo a uma convivência civilizada.

Pela importância do tema e pela convergência com as posições defendidas pela ASA, reproduzimos na íntegra a matéria.

Rio de Janeiro, 2 de julho de 2014

Diretoria da ASA – Associação Scholem Aleichem de Cultura e Recreação

      Se a comoção pelo assassinato dos três jovens israelenses, supostamente por militantes do Hamas, trouxe à tona anseios de vingança e apelos por retaliação por parte de muitos cidadãos israelenses – sem contar os políticos de extrema-direita – vozes dissonantes acreditam que é justamente neste momento que israelenses e palestinos devem respirar fundo e pensar duas vezes antes de agir. Incrivelmente, as vozes partem de gente que perdeu entes queridos neste conflito sem horizonte de final feliz. É o caso dos israelenses Rami Elhanan e Tzvika Pozis-Shahak, cujas filhas foram mortas em atos terroristas palestinos, e do palestino Mazen Faraj, cujo pai foi morto por soldados de Israel.

– Violência só leva a violência. É um ciclo sangrento que não terá fim até cada lado reconhecer e respeitar o sofrimento do outro – afirma Elhanan, de 65 anos, cuja filha Smadar, então com 14 anos, morreu em 1997, vítima de um homem-bomba em Jerusalém. Para evitar o próximo sequestro, é preciso entender o cenário mais amplo. Nesta terra vivem dois povos. Se ambos não tiverem liberdade e segurança, não terão nada.

        Elhanan é um ativista pela paz, apesar do trauma pessoal. Fundou a ONG Círculo de Pais, dedicada a famílias israelenses e palestinas que tiveram parentes mortos no conflito, mas que apoiam a paz, a tolerância e a reconciliação.

– Claro que os assassinos dos três jovens israelenses precisam ser punidos. Mas é preciso entender também que eles são vítimas da realidade – explica Elhanan. Só entendi isso quando encontrei uma família palestina que perdeu um ente querido. Percebi que não era o único a ter o direito de ser vítima. Lágrimas dos palestinos são iguais às minhas.

        Presidente da Associação Israelense de Vítimas do Terorismo, Tzvika Pozis-Shahak, cuja filha Bat Chen morreu, aos 15 anos, num ataque terrorista a um shopping em Tel Aviv, em 1996, também pensa assim. Após a morte da filha, Shahak encontrou poemas dela pela paz. Decidiu publicar os diários dela e, de quebra, se dedicar à reconciliação com famílias palestinas com histórias de perdas.

– O sequestro dos três jovens nos ensina que, agora, mais do que nunca, temos que chegar à paz ao invés de clamar por vingança. Quando mataram minha filha, ficou claro que minha “vingança” seria lutar pela paz, porque era isso que o terrorista queria ferir – diz Tzvika.

        Do lado palestino, Mazen Faraj, de 40 anos, morador do campo de refugiados de Deheishe, próximo a Belém, perdeu o pai em 2002, aos 62 anos, quando um soldado israelense o alvejou acreditando ser um terrorista. Faraj também pede mudança de rumo e não novas retaliações:

– Todos falam em vingança, numa reação impulsiva. Mas e o futuro ? E as novas gerações ? Minha mensagem a israelenses e palestinos é: por favor, respirem fundo e pensem duas vezes antes de agir. Do outro lado há um ser humano. Não é uma competição para saber quem sofre mais.

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