Descomemorando o golpe

Há cinquenta anos, o Brasil iniciava uma jornada de trevas. O golpe que depôs o presidente João Goulart em 31 de março de 1964 instalou uma ditadura civil-militar, que durou longos vinte e um anos. Deixou pelo caminho um rastro de tortura, morte, censura, perseguições, atraso político.

A ASA, junto com a Casa da América Latina e o Instituto Casa Grande, organizou recentemente um seminário sobre o golpe. Ao final do evento, lemos um comunicado que sintetiza a posição das três entidades sobre o assunto. É o texto que agora divulgamos, como forma de registrar nossa participação nos inúmeros programas que, país afora, estão lembrando o golpe de 1964.

 

O golpe civil-militar de 31 de março de 1964, que completa cinquenta anos, se insere numa longa tradição autoritária da política brasileira. Se fizermos um corte histórico nos anos trinta do século passado, acompanharemos a instalação do Estado Novo, a cassação do PCB, a tentativa de golpe de Estado em 1954 (abortada pelo suicídio de Getúlio Vargas), as tentativas de impedir a posse de Juscelino Kubitschek e João Goulart e, finalmente, o golpe de 64.

Desde a posse de João Goulart, em 1961, houve uma intensa articulação de forças civis reacionárias e setores das Forças Armadas para derrubá-lo da presidência. Com apoio financeiro, político e militar do imperialismo norte-americano, estas forças viam com receio as reformas prometidas por Jango e o entusiasmo despertado em toda a América Latina com a Revolução Cubana de 1959. Sob o pretexto de que estava em curso a implantação de uma “república sindicalista” no Brasil, os golpistas depuseram Jango e iniciaram um longo período ditatorial de vinte e um anos, durante os quais os generais ditadores se uniram à Operação Condor e massacraram a oposição interna.

A ditadura censurou, cassou direitos políticos, prendeu, torturou e exilou adversários, silenciou sindicatos, partidos políticos e organizações estudantis. Os militares tiveram a cumplicidade de empresários, que financiaram órgãos de repressão e se beneficiaram do modelo econômico, e quadros técnicos civis, muitos dos quais ainda transitam em espaços públicos, posando de democratas e sem jamais terem feito autocrítica de sua participação na ditadura.

O refluxo do regime foi resultado de contradições internas e de pressões populares, das quais são exemplos decisivos as campanhas pela anistia e pela volta das eleições diretas para presidente da República. A transição foi completada, ironicamente, com a posse de um político, José Sarney, apoiador entusiasmado do golpe de 64.

Como também é, infelizmente, da tradição brasileira, há um rescaldo de acomodação com a herança ditatorial. Os responsáveis pela prisão, tortura e morte de muitos brasileiros continuam impunes. Ao contrário dos nossos irmãos argentinos, uruguaios e chilenos, ainda estamos muito longe de fazer justiça. É um mau exemplo para esta geração e as vindouras. O trabalho das Comissões da Verdade é bem-vindo, mas incompleto.

Cinquenta anos depois da deposição de Jango, temos a liberdade de promover seminários como este. Foi uma liberdade conquistada a um custo muito elevado. O compromisso de todos os democratas é criar as condições para isolar qualquer tentação golpista. Isso passa por ampliar o conceito de democracia, estendendo-o para os direitos sociais, culturais e econômicos das grandes massas.

Por fim, prestamos nossa homenagem aos que caíram na luta pelo nosso direito de estar aqui, falando, debatendo, divergindo.

Ditadura nunca mais !

Rio de Janeiro, 15 de março de 2014

ASA – Associação Scholem Aleichem de Cultura e Recreação

Casa da América Latina

Instituto Casa Grande

Seja o primeiro a comentar