Que profissão é fácil?

Orquestra Klezmer da família Szpilman, formada provavelmente em 1870: no centro, de barba branca tocando violino, Israel Szpilman, avô de Samuel (por sua vez, avô de Ricardo) e de Wladislaw, o pianista do filme de Roman Polansky; à direita, o pai de Samuel, Reuwen. Ao fundo, tocando contrabaixo, Zile, irmão gêmeo de Israel - Ostrowitz, Polônia, cerca de 1900

Orquestra Klezmer da família Szpilman, formada provavelmente em 1870: no centro, de barba branca tocando violino, Israel Szpilman, avô de Samuel (por sua vez, avô de Ricardo) e de Wladislaw, o pianista do filme de Roman Polansky; à direita, o pai de Samuel, Reuwen. Ao fundo, tocando contrabaixo, Zile, irmão gêmeo de Israel – Ostrowitz, Polônia, cerca de 1900

Em 28 de novembro de 2015 tive o prazer de lançar na ASA meu livro 7 Canções Judaicas Arranjadas para Coral, volume 2.  Arranjos, melodias cifradas com letras e traduções, textos em português, espanhol e inglês, ilustrações do Botner e prefácio do maestro Henrique Morelenbaum, uma grande honra. A felicidade da revisão geral da maestrina Claudia Alvarenga, do Coral da ASA. O Coral já canta há muitos anos meus arranjos e deu um show no lançamento, quando pude cantar com eles.

A música tradicional judaica do leste europeu, o klezmer, já é uma prática na família Szpilman, provavelmente, desde o final do século 18. Meu avô, Samuel Szpilman, que tocava em casamentos e bar mitsvas, foi músico fundador da Orquestra Sinfônica Brasileira com os irmãos Moysés e Waldemar Szpilman (intérprete favorito de Villa-Lobos no sax). O mais velho dos três, meu avô tinha 24 anos quando, em 1924, veio de Ostrowitz trazendo os irmãos com seus instrumentos (dois violinos e um violoncelo) e apenas 20 dólares. O que tinham de mais precioso era o que haviam aprendido em casa, com o pai (um grande professor de música) e o avô.

Ele me disse que o primeiro Szpilman (na escrita alemã/ídish Spielmann, como a Daniela, amada amiga), que significa “homem que toca, músico”, comercializava vinho. Poderíamos nos chamar Weinman, mas o coração dele estava encharcado era de música, e quando os judeus começaram a ganhar sobrenomes, a música falou mais alto. Daí por diante a música tornou-se a profissão principal de seus filhos, netos, bisnetos… Da Áustria foram para a Polônia, ganhando a escrita Szpilman.

Minha vida se distanciou da música. Estudei Psicologia (meu pai era psicanalista) e acabei não me formando quando me dei conta de que tinha que fazer música. Com 20 anos, fui trabalhar vendendo computadores no centro da cidade, e dediquei todo o meu tempo livre à música. Estudei gaita com Staneck e Einhorn e outros instrumentos, fiz muitos cursos nacionais e internacionais de Regência Coral, mas meu Mestre é o maestro Carlos Alberto Figueiredo. Fui maestro assistente no Coral Israelita Brasileiro por muitos anos, onde aprendi muito sobre nosso repertório e regi corais por 18 anos. Na Unirio, estudei Composição, me graduei em Licenciatura, pós-lato sensu e Mestrado. Estudei com Regina Márcia Santos e fiz cursos com alguns dos educadores mais renomados do mundo: Csekö, Wisnick, Schafer (Canadá), Swanwick (Inglaterra) e Gainza (Argentina). Fiz amigos e parceiros incríveis na Unirio e conheci minha amada esposa Ilana Pogrebinschi Szpilman, contadora de histórias, mãe dos meus dois meninos muito musicais!

Passado, presente e futuro

O livro foi lançado na ASA em novembro de 2015

O livro foi lançado na ASA em novembro de 2015

A música me salvou! Me conectou comigo mesmo numa época em que me sentia perdido. Até hoje ajuda a me centrar, a me entender, a me respeitar pelos acertos e pela noção de meus limites. Permite também me abrir ao mundo com muito amor e esperança! Me conecta com o passado, o  presente e o futuro. Pois a tradição que amo não pertence apenas ao meu avô e ao avô do meu avô, mas a mim e aos meus filhos também… Fundamental ter convivido, no Max Nordau, com as morot Ida, Ester Dorfmann e Sarinha.

Quando os imigrantes judeus chegaram ao Brasil, puderam fazer universidade, o que era quase impossível na Polônia (e em outros países) devido ao numerus clausus, que limitava o acesso dos judeus ao curso superior.  Meu pai se formou em Medicina e meu tio, em Engenharia, motivo de muito orgulho para meu avô. Ser músico não é fácil, pelo contrário, mas que profissão é fácil? Foi o que eu pensei, e minha família me apoiou muito. Quando meu primeiro filho estava para nascer, fiz concurso para professor de Música do município do Rio, fiquei seis anos e depois passei num concurso federal; sou professor do Colégio Pedro II há doze anos, onde coordeno a Equipe de São Cristóvão II. Adoro o meu trabalho! Me estimula enquanto educador (oportunidade de interferir positivamente na vida dos jovens), me sustenta e ainda me permite tocar, compor etc. Sou da Comissão dos Festivais e editor da Revista Interlúdio, do Departamento de Educação Musical. Em breve vai sair um número com uma belíssima entrevista do maestro Henrique Morelenbaum, ex-aluno emérito da casa que muito admiro.

Sou compositor de canções premiado e de música de concerto. Saxofonista do Bloco Céu na Terra e maestro, arranjador e saxofonista do Rancho Carnavalesco Praça XI (Klezmer Carioca), pequena orquestra popular que mistura cultura judaica e brasileira tendo como polo gerador a Praça Onze. A tradição da MPB é também “minha” tradição, que amo e pratico. Além dos músicos e amigos maravilhosos, no núcleo do Rancho estão meus irmãos klezmorim Bitter, Fuks e Grosman (todos do núcleo têm parentes que foram moradores da Praça Onze, eu pelos Goldfeld). Temos recebido convites para tocar: Hebraica, Midrash, CJB, Praia de Ipanema (Bossa a Shaná), Praça XI, Jóquei Clube, Lar da União, Festival Internacional de Música Klezmer de SP (Kleztival), CIB, Museu MAR, IFICS, Golden Room do Copacabana Palace, entre outros. Tocamos clássicos como Hava Naguila, Fiddler on the Roof, A Yiddishe Mame e alguns freilachs, músicas alegres de festas de casamentos e barmitsvas, muitas em ritmos brasileiros. Pessoas me dão dicas, o amigo Sérgio Fizer contou que meu avô abria os bailes com Búblitshke, linda! Pesquiso muito, mas minha maior referência são livros de partituras do meu avô. Há marcas dele: “bom”, sigo sempre suas indicações. Convivi muito com ele, estudei violino (que não segui) e teoria, pena eu não ter perguntado mais. De vez em quando nos encontramos em sonhos e ele me fala algumas coisas. Sinto que sou apenas um elo da corrente, mas não deixo a peteca cair…

Especial para ASA

 

Ricardo Szpilman

Músico, herdeiro de uma antiga tradição de música judaica.

1 Comentário

  • Responder março 12, 2016

    Rubens Szpilman

    Parabéns Rico.
    Orgulho enorme de você.

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