Um tributo aos bnei anussim

Quatro partes constituem este volume, sendo a primeira Da Coexistência à Intolerância, que apresenta os capítulos “A Espanha das três religiões”, “Os judeus, a ciência e os descobrimentos”, “A grande catástrofe”, “Uma Inquisição para os judeus” e “A dispersão dos cristãos-novos no mundo”. Parte 2- A Era dos Cristãos-Novos, com três capítulos: “Judeus pioneiros na agricultura”, “O marranismo” e “As mulheres e a transmissão do judaísmo”. Parte 3- Brasil – A Nova Canaã, em sete capítulos: “A Inquisição descobre a Bahia”, “Holandeses no Brasil”, “Rio de Janeiro”, “Paulistas e bandeirantes na guerra contra as missões e a Inquisição de Lima”, “Minas Gerais: o ouro e diamantes”, “Criptojudeus na Paraíba e no Maranhão e os hereges do Grão-Pará” e “A perseguição dos portugueses na América espanhola”. A última parte trata o tema A “Intelligentsia” Brasileira, com os capítulos “’Afrancesados’ na Universidade de Coimbra”, “Poetas e eruditos do Brasil” e “Quem defendeu os judeus?”

15317371 (2)

 

 

Os judeus que construíram o Brasil – Fontes inéditas para uma nova visão da história

Anita Novinsky, Daniela Levy, Eneida Ribeiro e Lina Gorenstein

São Paulo, Editora Planeta do Brasil, 2015

286 páginas

 

Com Apresentação e Posfácio da eminente historiadora Anita Novinsky, o livro inclui apresentação gráfica de Documentos (mapas, fotos em cores, reproduções de monumentos, documentos e gravuras), uma Cronologia (com as principais datas das histórias da Europa e do Brasil que afetaram diretamente a vida dos judeus nesses territórios), um Glossário (com cerca de vinte termos específicos ao período da Inquisição e alguns outros) e a Bibliografia (consultada para a manufatura deste volume), além de uma bibliografia recomendada.  

Os capítulos iniciais projetam a posição dos judeus nas esferas ibéricas, com textos baseados em artigos e ensaios de eruditos que já elucidaram muitas partes da história judaica na Península. Naquelas esferas viveram e atuaram pessoas de valores reconhecidos como Judah Halevi (poeta), Salomão Ibn Gabirol (poeta e filósofo) e Moisés Maimônides, o Rambam (médico, filósofo; no texto, seu nome está grafado em inglês, Moses), que foram contemporâneos (viveram na primeira metade do ano 1000).  Nesses artigos, as autoras comentam que parte da população judaico-ibérica progredia a olhos vistos, mas que tudo se interrompeu ou se esfacelou com “A grande catástrofe”,  isto é, a Inquisição. Tal regime religioso-político durou mais de três séculos, espalhando humilhações, mutilações morais e físicas, além de execuções por estrangulamento ou incineração dos judeus subitamente transformados em cristãos-novos, que perderam para sempre sua tranquilidade como seres humanos. A Inquisição se estendeu às colônias ibéricas e, tanto na metrópole quanto nas terras manietadas pelos portugueses e espanhóis, os cristãos-novos continuavam sendo perseguidos.

Aos jovens

Na colônia portuguesa da América do Sul (o nosso Brasil de hoje), os judeus convertidos deram o melhor de si, transformando áreas silvícolas em plantações (principalmente de açúcar), abrindo caminhos pelo interior, povoando ilhas (lembremos Fernando de Noronha), ampliando o espaço territorial além do Tratado de Tordesilhas como fizeram os bandeirantes, muitos desses também descendentes de judeus… Enfim, os cristãos-novos foram aqueles que criaram o estaqueamento econômico brasileiro, com seu trabalho em fazendas, em exportação, em abertura de caminhos pelo interior adentro, pelas migrações (em fuga da Inquisição), pela progênie criada, a princípio, com as nativas e, depois, com sua “gente da nação”. Os cristãos-novos, cognominados “marranos” tanto pelos espanhóis quanto pelos portugueses, eram judeus sem terra, sem abrigo nem proteção e, aparentemente sem religião. Rechaçados pelos cristãos assim nascidos (os cristãos-velhos), foram eles que mantiveram a economia portuguesa recheada de ouro, pedras preciosas e os lucros financeiros provindos do que exportavam para a Coroa. “O marranismo”, título de um dos capítulos mais longos deste livro, expõe, por recortes de textos já consagrados de autoria de diversos historiadores, o que foi esse período na vida dos portugueses judeus e de seus descendentes. Recolhendo textos de autoria de outros estudiosos, e também seus, as autoras expandem a apresentação do período inquisitorial a áreas fora do Brasil, examinando as perseguições efetuadas em diversos locais da América do Sul. As origens de alguns pioneiros, como os bandeirantes, não ficam de todo esclarecidas: seriam eles descendentes de cristãos-novos, seriam judeus conversos tentando vingar-se dos padres que tanto os humilharam e a seus antecessores… Seria este o motivo que levou o afamado bandeirante Raposo Tavares a tentar liquidar as aldeias supervisionadas pelas missões jesuíticas, ou seria outra a motivação para livrar-se dessas missões… Esses fatos se registraram na História Colonial, mas o historiador Jaime Cortesão (citado no capítulo “Paulistas e bandeirantes na guerra contra as missões e a Inquisição de Lima” e em outros) esclarece que podiam muito bem ter sido inventados pelos padres, na intenção de descrever quadros de crueldade de parte dos bandeirantes só para salientar os seus próprios e nobres desejos de proteger os direitos humanos dos indígenas, e por aí afora (embora eles, os padres, também mantivessem os indígenas com pulso de ferro).

Uma resenha não é um resumo de uma obra, mas sim uma apresentação de seus pontos principais. O livro é dedicado aos jovens, e é bom que se interessem por esta matéria, ainda não incluída nos currículos escolares.  O volume é essencialmente uma compilação dos melhores historiadores que versaram o assunto marranismo e suas dobras e desdobras pelo Brasil e pela América do Sul.

Falhas

Meu empolgamento com o tema do livro, no entanto, arrefeceu um pouco ao longo da leitura atenta e minuciosa que fiz desta obra, ao notar, infelizmente, vários problemas que poderiam ter sido solucionados antes de o livro vir a público. Por exemplo, já no início, nos agradecimentos, uma violação gramatical (os grifos são meus): “Agradecemos à professora Anita Novinsky, cuja generosidade, pioneirismo e conhecimento permitiu ….” quando deveria ser “permitiram”. Tais distrações, digamos assim, continuaram em cochilos de digitação, como à página 40 (“cidades alemães”), à página 76 (“sultão do Marracos”), ou como erro de aplicação adverbial, como se lê à página 119, nota 128 (“ … pois os conversos estavam já cristianizados e não eram judaizantes, sendo assim condenados inocentemente”) – sim, dá para entender que os conversos foram condenados, ainda que inocentes das acusações impostas a eles, mas o que está escrito é que aqueles que os condenaram o fizeram de maneira inocente… Outros descuidos da revisão podem ser verificados na dupla grafia do título da obra de Ambrósio Fernandes Brandão, que ora é Diálogos da grandeza do Brasil, ora é Diálogos das grandezas…” (a última forma é a correta). Mais problemático do que um deslize de digitação, no entanto, é o engano com a data em que ocorreu o terremoto que destruiu grande parte de Lisboa: foi em 1755, e não em 1750 (p. 46). O que também pode chamar a atenção de pessoas mais informadas é a ausência, nos comentários das historiadoras, da notória Branca Dias, viúva de Diogo Fernandes, do Engenho São Tiago ou Camaragibe, cristã-nova que se salientou por sua força moral, sua resistência física e seus momentos espirituais [ler a resenha de Memórias de Branca Dias, de Miguel Real, coluna IMPRESSÕES E ÂNGULOS, ASA 147]. Há curta menção a essa mulher na página 91, mas o capítulo “As mulheres e a transmissão do judaísmo não faz a mínima referência a ela, que terá sido a primeira mulher de origem judaica a abrir uma escolinha para meninas (em Olinda), onde ensinou corte, costura e bordado, além de fiação, isto depois de ter sido, por anos, dona do pequeno engenho que o marido lhe deixou, e onde ambos mantiveram uma “esnoga”, ou casa de orações para os criptojudeus.  (Depois do seu falecimento, a Santa Igreja se apossou de todos os  ‒ parcos – bens deixados a seus filhos e netos, alguns dos quais levados para Lisboa para confessarem suas relações com o judaísmo às escondidas, como ensinado pela mãe e avó.)

O Posfácio de Novinsky é um tributo aos descendentes dos cristãos-novos, os chamados bnei anussim (filhos dos forçados) que, nos dias atuais e já com uma história anterior, buscam retornar ao judaísmo. Seu retorno pode se dar de forma espontânea, isto é, não procuram rabinos nem talmudistas, eles mesmos se dispondo a seguir as leis mosaicas, como o fizeram os judeus de Belmonte, em Portugal, descendentes de cristãos-novos (agora com uma estrutura religiosa apoiada por Israel, que os reconhece como judeus). Ou então, buscam estudiosos e rabinos que facilitem seu retorno por meio de estudos e outras especificações típicas da religião judaica. Tanto no Brasil quanto em muitos outros países da América do Sul e na região sudoeste dos Estados Unidos (estados de Novo México e Arizona), grupos de bnei anussim se têm formado há séculos. A Inquisição não eliminou o judaísmo, que continua forte e atraindo pessoas que se descobrem descendentes dos “marranos”, dos “cristãos-novos”, dos “conversos”.  Quaisquer que tenham sido seus nomes, seus antepassados eram judeus. Seus descendentes projetam dar continuidade a eles.

A importância dos cristãos-novos ou dos judeus portugueses (e alguns espanhóis) na cultura brasileira é vasta e profunda. Mais dia, menos dia, é possível que escolas primárias e secundárias coloquem em seus programas de ensino quem foram eles e o que fizeram para o bem do país em seus primeiros tempos.

Especial para ASA

Regina Igel

Professora-titular e coordenadora do Programa de Português da University of Maryland, College Park (EUA). É colunista do Boletim ASA.

Seja o primeiro a comentar