Um sobrevivente judeu búlgaro na Amazônia

Quem o ajudou foi Albert Göring, um alemão completamente oposto ao que seus compatriotas nazistas faziam, principalmente o seu irmão, o todo-poderoso Herman G6oring.

O narrador da história é o nonagenário (em 2010) Licco Hazan, judeu búlgaro que chegou a Belém, no Pará, em 1944, com Berta, sua esposa. No entanto, quem a escreve é seu sobrinho Ilko Minev, também judeu búlgaro, que entrou pela região amazônica anos mais tarde. Na mescla de ficção e aspectos da realidade vivida tanto pelo tio-narrador quanto pelo sobrinho-escritor, neste relato se expõe a vida de Licco, um judeu fugitivo do seu país e determinado a viver o melhor possível, depois de ter escapado da morte durante o Holocausto. Sua experiência antes e durante a Segunda Guerra o habilitou a conviver com grupos étnicos heterogêneos, pois a Bulgária anterior à invasão nazista era um país onde viviam, com relativa harmonia, “turcos, judeus, armênios e ciganos” (p. 19). Contra a irrupção hitleriana, houve uma certa resistência de parte dos búlgaros, mas a pressão dos alemães foi excruciante, a tal ponto que o tsar Boris 3º aprovou a “infeliz Lei em Defesa da Nação” (p.31), em 1940, um ano antes que o país se tornasse parte do Eixo. Como nos outros territórios nazistas, os judeus búlgaros também tiveram que andar com uma estrela de David costurada ou alfinetada no lado de fora da roupa, seus negócios e casas foram desapropriados e eles foram expulsos das áreas urbanas, levando consigo não mais do que dez quilos de roupa. A população judaica então consistia em 50 mil pessoas, que foram arregimentadas, principalmente os homens e mulheres em razoável estado de saúde, para os campos de trabalhos forçados. Só assim suas vidas foram poupadas, e ainda hoje permanece em suspensão o papel do tsar Boris 3º, que, segundo alguns, poderia ter salvado muitas vidas entre os gregos e os macedônios, empurrados pelos nazistas pelo território búlgaro, a caminho da morte nos campos da Polônia, com anuência tsarista.

 

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Onde estão as flores?

Ilko Minev

São Paulo, Livros de Safra, selo Virgiliae, 2014

247 páginas

 

Licco Hazan passou uns tempos num campo de trabalhos forçados situado na cidadezinha de Somovit. Mapas intercalados pelas páginas do livro mostram esta cidade, outros locais e roteiros seguidos por Hazan e mais pessoas. Menos cruel e facínora do que os campos dos alemães, ainda assim Somovit foi bastante severo a ponto de matar de exaustão seu melhor amigo, Salvator, jovem como ele, mas de compleição física menos robusta. O irmão de Licco, David, fora também recolhido para o trabalho forçado, mas conseguiu fugir, entrando num grupo de resistência de socialistas. Só depois de anos sem notícias, Licco conseguiu encontrá-lo na Bulgária, onde fazia parte da liderança no governo comunista.

É pouco ou quase nada conhecida entre nós, brasileiros, a história dos judeus da Bulgária. De origem espanhola dos tempos da Inquisição, os búlgaros judeus são sefaradis e, além do búlgaro e outros idiomas, falam ladino entre eles.

O contador destas e outras histórias narra como foi favorecido por ventos da sorte. Primeiro, sem sequer pedir, foi retirado do campo, por suas qualidades de mecânico de automóveis. Quem o ajudou (e também a muitos outros judeus, fazendo uso de sua fortuna pessoal) foi Albert Göring, um alemão completamente oposto ao que seus compatriotas nazistas faziam, principalmente seu irmão, o todo-poderoso Herman Göring. Licco foi salvo por uma combinação de fatores e de repente se viu viajando para fora da Bulgária, com outros refugiados, igualmente ajudados pelo benemérito Albert Göring. Foi na viagem de fuga que Licco conheceu Berta, também refugiada, que foi o amor da sua vida, com quem teve dois filhos e que veio a falecer no Estado do Amazonas, no início da velhice. Foi um amor instantâneo e eterno, pois ela o acompanhou ao desconhecido, entrando pela misteriosa floresta amazônica, em tempos em que a região era mais conhecida por seus índios, animais selvagens, inundações, febres e outras doenças tropicais.  O casal preferiu não ver nada disto, pois ambos apaixonaram-se desde cedo pelos aromas, pelas cores e pela vibração do povo, assim que pisaram em Belém do Pará, em meados da década de 1940.

Com mais um empurrão da sorte, ele encontrou emprego como mecânico, pois sua especialidade ainda era raridade naqueles rincões. Na estadia em Belém, fizeram amizades, freqüentaram uma das sinagogas e se sentiram muito bem no meio sefardita, então predominante na cidade. Acabaram por encontrar judeus, marroquinos e seus descendentes,  que também falavam ladino.

Sua fama como exímio mecânico lhe valeu convite de uma firma americana para trabalhar no mecanismo de aviões, para o que foi treinado por uns meses, antes de se mudarem para o interior do Amazonas. Depois de um tempo, foram para Manaus – onde Licco e Berta criaram seus filhos e abriram negócios de exportação e, mais tarde, também de importação. Licco percebeu o potencial comercial das essências extraídas das árvores e à medida que obtinha sucesso no mercado internacional, mais árvores plantava. Seu senso de oportunidade, aliado ao espírito prático de Berta só podiam resultar em investimentos e experimentos que lhes trouxeram crescimento financeiro, dando em troca espaço para os naturais da terra terem oportunidades de trabalho, emprego e iniciativas próprias, como aconteceu com um de seus empregados, Gustavo (p. 145). No início da década de 1950, Licco já era conhecido como grande empreendedor e homem de visão prática, assimilando a defesa da natureza e seu potencial, dentro do esquema da sua preservação.  Foi assim que aprendeu os valores comerciais da “castanha descascada, sorva desidratada, madeira aplainada, borracha lavada e beneficiada, copaíba filtrada, óleo essencial de pau-rosa” (p. 129). Ao final da mesma década, ele e a esposa inauguraram a “Amazon Flower Fragrâncias, Ltda.” (p.138), alcançando clientes na França e nos Estados Unidos, com a inclusão de sementes de cumaru, e “produtos relacionados aos aromas em geral, não só à indústria de perfumes” (p. 138). Em Manaus, fizeram novas amizades, algumas ancoradas nos velhos amigos de Belém, muitas outras incentivadas pelo amor à terra, ao trabalho e à abertura de trilhas novas em negócios e empreendimentos.

Nestas alturas, David, seu irmão, já tinha sido localizado – estava de volta à Bulgária, mas sua posição de liderança no governo comunista não continuaria por muito tempo, uma vez que ele foi hostilizado e afastado com a pecha de ‘inimigo do povo’. (Bem mais tarde, ele foi redimido da acusação e homenageado por outra cúpula governamental.) No entanto, urgia que ele saísse de lá, o país pelo qual ele deu o melhor da sua vida. Depois de inúmeras manobras, dignas de um filme policial carregado de mistérios e segredos, Licco conseguiu que ele escapasse da Bulgária e fosse para Israel, com seu filho Oleg. Ambos os irmãos sempre se mostraram extremamente orgulhosos da sua Bulgária, e Licco para lá retornou várias vezes, com sua esposa e filhos. (Tal orgulho se estende ao fato de  a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, ser descendente de búlgaros, como ele declara no livro).  Seu sobrinho Oleg acabou por aportar em Manaus, fazendo do garimpo fluvial de ouro sua meta primordial por alguns anos. Sua vivência amazonense é contada no segundo livro de Ilko Minev, (2015).

Amalgamando parte de sua própria história com os acontecimentos marcantes da vida de Licco Hazan, Ilko Minev compõe um mural amazônico onde se sobressaem fatores tais como o que é viver rodeado por uma selva quase mítica, mas real… e como se pode viver plenamente por planejamento, trabalho, iniciativas, coragem (muita coragem), vontade de vencer (muita vontade), amor e sorte. Serão estes ingredientes passíveis de servir como receita para todos? Não se sabe. Pelo que consta neste livro, estes elementos serviram muito bem à família de Licco Hazan.

                                                                                                                                                                                                                                       Especial para ASA

Regina Igel

Professora-titular e coordenadora do Programa de Português da University of Maryland, College Park (EUA). É colunista do Boletim ASA.

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