Um porto seguro no Brasil

Site Annablume 002

Carta de Chamada – Relatos da Imigração Judaica em São Paulo de 1930 até 1942

Organização: Marília Levi Freidenson

São Paulo, Annablume Editora e Arquivo Histórico Judaico Brasileiro

(Núcleo de História Oral Gabi Becker), 2014

407 páginas

Todos nós, descendentes ou não de imigrantes, sabemos o que é uma Carta de Chamada. Só para lembrar, é aquele documento que alguém mandava do Brasil para uma pessoa no exterior, chamando-a para imigrar, com garantias para que o governo não fosse responsabilizado pela permanência do estrangeiro.  “Lá fora”, a tal Carta era aguardada com sentimentos de esperança e angústia, otimismo e pessimismo seja pela demora, por temores de que nunca viesse, ou imaginando-se que a pessoa que a prometera não teria recursos para isto, que o documento se  extraviasse, mas que tudo daria certo… ou não,  e assim por diante. Mas, para alguns judeus a Carta chegou e, entre eles, 56 foram localizados para ser entrevistados para este livro.  Com a chamada,  renovaram-se suas esperanças de salvação de uma Europa encardida de antissemitismo, que se manifestava em perseguições aos judeus em locais de trabalho e escolas, nas ruas e  praças de centros urbanos, ou por pogroms,  ataques súbitos em aldeias e outros lugares onde os judeus se concentrassem.

O livro constitui uma espécie de museu verbal, feito por entrevistas gravadas, efetuadas no decorrer da década de 1990 por Marília Freidenson, Gabi Becker e Myriam Chansky, entre outros membros do Núcleo. A transcrição destas foi feita por outro grupo de pessoas devotadas, enquanto a textualização das entrevistas ficou a cargo da organizadora, Marília Freidenson.

O livro-documento conta das vidas que se transportaram da Europa para o Brasil, com efetivação de moradia na cidade de São Paulo. Os relatos se limitam a um período de 12 anos, aqueles que mudaram para sempre os destinos de milhares de judeus europeus. Embora forçados a esse deslocamento, esses judeus foram mais felizes, sem comparação, do que os que foram arremessados para o além-túmulo, aos quais nem o  direito à dignidade de túmulos foi permitido…  A obra contém 15 capítulos, cada um reunindo de 11 a 15 entrevistados, de acordo com o tema comum a eles. Por exemplo, o capítulo 1, “Histórias de lá e de cá (antes de 1930)”, inclui narrativas de pessoas que contam como era a Europa que eles conheceram antes de 1930 e como chegaram ao Brasil logo em seguida àquela data.  O que torna estas entrevistas peculiares é o fato de que uma pessoa esteja incluída em outros capítulos também, como, por exemplo, o senhor Salomão Trezmielina (que ressalto por acaso, como um dos que foram colocados em mais de um capítulo). Por ser um narrador do que lhe aconteceu antes e depois de 1930, a entrevista que ele deu está no primeiro capítulo e também no segundo, “A crise e as revoluções”, onde  narra sua chegada a São Paulo,  as surpresas que teve com a amabilidade dos brasileiros, as descobertas,  os desencontros… Assim, as vozes dos entrevistados atravessam graficamente os períodos demarcados nos capítulos, levando leitores a continuarem a leitura passando de um capítulo para outro, acompanhando a mesma pessoa. Desta maneira, ganha-se a sensação de que também cruzamos pelos períodos vividos por aqueles que fazem seus depoimentos. Estes são revividos com pormenores e esclarecimentos que só a idade e o passar do tempo lhes trouxeram. A maior parte dos narradores nasceu nos primeiros 20 anos do século 20, e muitos já não se encontram entre nós.

Outros capítulos atravessados pelos entrevistados são: 3- “Os nazistas tomaram conta (Alemanha, 1933)”; 4- “Peguei as malas e fui embora (Europa – 1933/1936)”; 5- “Primeiros tempos no Brasil”; 6- “A substituição do lar perdido (São Paulo 1933/1937)”; 7- “Do integralismo ao Estado Novo”; 8- “Áustria”; 9- “Itália”; 10- “Alemanha, 1938 – O cheiro da fumaça”; 11- “1939 – Saindo da Itália”; 12- “1939 – Chegadas e partidas”; 13- “1940 – O mar é perigoso”; 14- “1941 – Nós não sabíamos o que acontecia por lá”; 15- “1942 – O Brasil entra na guerra”.

Paz de espírito

Fartamente ilustrado com fotos obtidas pelos entrevistados, esta obra também conta com explicações sobre fatos da História, ou “panoramas da época”, que provocaram os deslocamentos daqueles que puderam se salvar do nazismo e ainda antes, das perseguições antissemíticas europeias e eslavas. Alguns entre os entrevistados se tornaram personalidades reconhecidas por suas contribuições à história cultural do Brasil, como Jacó Guinsburg e Henrique Rattner, entre muitos outros, ou figuras de destaque nas esferas comerciais, industriais, artísticas, religiosas e empresariais do país. Outros tantos, permanecendo anônimos nas suas lides, assim mesmo contribuíram para outras dimensões da vida brasileira-judaica.

Obra de alcance múltiplo, põe em relevo partes da História que incendiaram o mundo no século 20 para sempre. É por intermédio de informações que se salientam no decorrer das transcrições das entrevistas que ficamos sabendo da insensatez, dos preconceitos, das proibições esdrúxulas que tiveram função predominante no afastamento dos nossos correligionários de seus países de origem. Indiretamente e, algumas vezes, de forma direta, os entrevistados, além de descreverem suas experiências, tribulações e sucessos, alertam para o que pode e deve ser evitado a fim de que não se repita para ninguém o que aconteceu com eles. Nenhum deles encontrou, ao chegar ao Brasil, um prato feito, ninguém encontrou cama e mesa garantidas. Todos tiveram de trabalhar em várias situações em que jamais imaginariam ver-se trabalhando – professores e tradutores começaram seu ganha-pão vendendo roupas pelo interior, moças que se prepararam para casar e ter filhos tornaram-se balconistas, costureiras ou operárias, enquanto homens com formação artística se viram representando firmas comerciais, quando muito, enquanto outros, com pouco conhecimento no ramo de negócios, se instalaram com sócios em lojinhas, sonhando, por trás de balcões, com uma vida irrealizável ou que seria concretizada muito mais tarde.   

Encontraram no Brasil inúmeras possibilidades para viver dignamente e para alcançar, para os seus filhos, o que não teriam conseguido nos seus respectivos países. Filhos e netos de muitos dentre os entrevistados podem hoje ser reconhecidos como administradores públicos, professores e cientistas eminentes, artistas consagrados e gente trabalhadora em geral, que estão no Brasil porque seus pais ou avós vieram para este país e, assim, recuperaram sua dignidade como seres humanos, legando-a para seus descendentes.

Carta de Chamada é uma obra direta, aberta, sincera. Não há como não refletir sobre as vidas ali descritas, em tons sombrios e em nuances de alegria, todos em harmonioso, mas difícil, quebra-cabeças, cujas peças os depoentes conseguiram administrar a duras penas, é certo. Mas com grandes recompensas espirituais e mentais, principalmente pela paz de espírito que conseguiram em suas novas vidas.

Especial para ASA

Regina Igel

Professora-titular e coordenadora do Programa de Português da University of Maryland, College Park (EUA). É colunista do Boletim ASA.

Seja o primeiro a comentar