Sem pão e sem afeto

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O padeiro polonês

Halina Grynberg

Rio de Janeiro, 7Letras, 2015

112 páginas

 

 

 

O título do livro soa bem, com a repetição da letra “P” e também pela sua brevidade, são apenas três palavras. Os primeiros dois terços do romance também têm ótimo “som”, isto é, uma expressão literária muito boa. A autora baseia-se na sua biografia, além de incluir retalhos de outras tantas de pessoas que, como ela, sofreram o transplante de outros países para o Brasil em seguida à Segunda Guerra. O padeiro do título é Isaac, seu pai, literariamente composto de muitos outros “pais” e homens que tentaram recomeçar vida nova em território desconhecido, no caso, o Rio de Janeiro. Nesta cidade, no entanto, imprevistos seccionaram seus planos, e o roteiro do padeiro mudou repentinamente. Isto acarretou traumáticas mudanças no espírito da sua esposa e filha, ambas deixadas para trás, quando ele bateu asas e voou de volta para a Europa, a mesma que o ameaçara de morte nos campos nazistas apenas alguns anos antes.

É da filha a voz narrativa desta autoficção mesclada à historicidade de um período conturbado para os judeus e para a Humanidade sensível, como foi o Holocausto. Vítima daquela tragédia devastadora, a família da narradora teve de encarar a fragilidade dos seus laços afetivos, que se desataram pouco depois de instalada no Brasil. O que restou daquele triângulo constituído por pai, mãe e filha foram apenas as duas últimas. O pai, depois de tentar criar um alicerce que os sustentasse, amassando e assando pães, abandonou-as, não sem antes levar dinheiro da sua mulher.

O romance relata o quanto a filha sentia falta do pai, apesar de tudo o que ela sabia sobre seu caráter, e como ele soube explorar o sentimento saudosista dela. A escrita abre espaço para a correspondência entre eles, ela no Rio e ele na Europa. Sem perceber, ele então revela, em cartas autopiedosas e por baixo da máscara feita de sentenças eloquentes e teatrais, o quanto era interesseiro, egoísta e farsante. O aspecto epistolar do romance se revela logo de início, quando a narradora grava, antes do primeiro capítulo, a dedicatória alegórica: “Pai, minha vida é esta carta para você” (p. 9). É o que a narradora mais expõe, em primeira pessoa, da história triste e conturbada da Haia Guitel, nascida depois da Segunda Guerra e registrada “na minúscula Swiebodzice … cidade perdida entre o leste da Alemanha e o noroeste da antiga Tchecoslováquia” (p.33). Nada a preparou para os sobressaltos da vida que levaria no Brasil, com um pai amargurado pelo internamento num campo de concentração, com uma mãe infeliz e congestionada por tantos sofrimentos em sequência, e com uma existência confusa, desorientada, incapaz de absorver o tumulto que sua exígua família lhe proporcionava. A certa altura, sai em busca do pai, para encontrá-lo como dono de um bar em algum lugar da Espanha, convivendo com uma Cristina, com quem passou a viver sua nova vida, agora como “señor Alfonso”. Nada o incomodava do seu passado brasileiro, embora Isaac tivesse deixado boa impressão entre seus correligionários – como padeiro, assistia a quem não lhe pudesse pagar, fazia empréstimos a quem estivesse em pior penúria do que ele e estava sempre bem disposto ao fazer os pães trançados das sextas-feiras judaicas. Este homem, tão agradável e bem-humorado, era o mesmo que comia generosas fatias de pão preto com arenque, sem dividir seu lanche com ninguém em casa. Não lhe pesava, tampouco, o fato de ter abandonado sua mulher e lhe ter dito que, aos cinquenta anos de idade, precisava experimentar uma vida nova. Com isto, surrupiou dela quase 500 dólares, guardados para alguma emergência. E com esta quantia, zarpou para a Europa.

Guinada

O encontro entre pai e filha, assim como descrito pela voz narrativa, não foi explosivo em alegrias, nem totalmente silencioso, pois chegaram até a trocar algumas palavras, ainda que não fosse exatamente num diálogo. Nem o fato de a filha ter tido imenso trabalho em encontrar uma pista sobre seu paradeiro, que só foi indicado depois de ela ter recorrido a rádio-amadores, o perturbou. Ele estava arraigado e progredindo no seu novo ambiente, com nova mulher, dono de um restaurante espanhol. Mais tarde, quando a moça volta para o Rio, ele a persegue com cartas lacrimosas e se apresenta como homem sem recursos e pai mal-compreendido.

Num certo momento, a vida da moça se transforma. Ela encontra o amor dos seus sonhos (depois de algumas tentativas frustrantes), dedica-se ao marido, tem um filho. É então quando a narrativa leva uma guinada, utilizando as páginas finais para discorrer sobre vários assuntos, nem todos coerentes com a marcha da narrativa.  De relato equilibrado entre o passado e o presente, entre seus sentimentos e os de seu pai, entre as cartas dele e seu silêncio, que se revelaram numa escrita diáfana e poética em três quartos (ou nesta medida) do romance, passa-se a um estilo bem diferente. Tem lugar uma espécie de mergulho teológico, que buscaria alcançar uma atmosfera religiosa pragmática, com visitas a uma sinagoga, descrições meticulosas sobre rituais,  revelações emocionais sobre a religiosidade recém-descoberta do filho… Entram também, neste espaço menos lírico e mais pragmático, descrições de passagens do Holocausto, comparações (entre Elie Wiesel, narrador de seus sofrimentos durante aquele período, e seu pai, que quase nunca falou sobre o seu passado como prisioneiro dos nazistas), abrangendo depoimentos de sobreviventes, análise de personagem de Primo Levi… É tal a ruptura com o fluxo do romance a partir do capítulo 54 que este recebe subtítulos, como “O projeto”, que descreve o projeto da “solução final”, “A infraestrutura”, “O método”, etc. É uma inserção didática que intercepta o fluxo da narrativa e dele se distancia, para ingressar em quadro explanatório, isolado do transcurso autoficcional, tenso e bem urdido que privilegiou as páginas anteriores.  A narrativa se dispersa.

É um livro que convida à reflexão e ao devaneio, isto é, que integra “pés no chão” e “cabeça nas nuvens” sem fricções, e isto até a tal parte das dispersões. Estas começam mais claramente no capítulo 54, embora já pelos 40 e poucos tenham entrado “depoimentos” de sobreviventes, tentando uma conexão com o que a narradora estava contando. Não é inteiramente condenável o que a escritora fez desta obra, seu segundo livro (o primeiro, Mameloshn), ao afastar-se de um estilo coerente com a descrição de sonhos que foram eliminados pela realidade. No entanto, no decorrer da narrativa, a autora entregou-se a um estilo pedagógico, quando não fervoroso, em declarações de fé e em múltiplos estágios de catarse religiosa. Não sendo condenável, tampouco é o desejável, pois desequilibrou a atmosfera que se ia instalando na exposição verbal predominante. Em suma, a história narrada está bem escrita, apesar da inconveniência dos últimos capítulos (são 65 no total), que instalam uma estrutura literária diferente daquela percorrida na maior parte do romance.

Especial para ASA

Regina Igel

Professora-titular e coordenadora do Programa de Português da University of Maryland, College Park (EUA). É colunista do Boletim ASA.

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