Os Varsanos da Sicília

Cartas Lacradas 2

Este livro resulta da iniciativa de uma brasileira, Dora Openheim, moradora em São Paulo e neta de judia polonesa, depois do encontro fortuito de uma caixa de lembranças. A autora transformou sua descoberta nesta narrativa. Por força de um acaso, que também pode ser um destino, ela encontrou na Grécia um diário, escrito por Anna Varsano, judia italiana que viveu no século 19. Além do apoio do diário, com o qual reconstruiu a vida da família Varsano, Dora utilizou aquele achado acidental, reunindo as peças que pareciam pertencer a um quebra-cabeças e preenchendo com sua imaginação o que não encontrou nas memórias de Anna Varsano, mas nelas se sugeria.

Tudo começou quando, recém-casada com um rapaz grego-ortodoxo, Dora e o marido foram à Grécia em viagem de lua-de-mel para ela conhecer a família dele. Já em Salônica (ou Salonica, como está grafado na narrativa), num “belo dia”, o marido resolveu ir até o sótão do casarão que pertencia à família dele por muitas gerações e onde se hospedaram. Ali, atrás de uma parede, ele e Dora  descobriram um quarto há muito abandonado, mas bem-conservado. E, no quarto, uma caixa. Uma simples caixa que continha cartas, cartões postais, recortes de jornais, fotos, fitas, retalhos, alfinetes e, mais importante de tudo, um diário, em quatro cadernos ou “volumes”. Nele, a siciliana judia Anna Varsano, que se mudara junto com o marido da cidade de Taormina, na Sicília, para Salonica, na Grécia, em 1833, contava a história da sua vida e de sua família. Aquele tesouro causou tamanha impressão na então jovem Dora, que a avó do marido lhe deu de presente aqueles pertences, e ela os trouxe consigo quando retornaram ao Brasil.

Foi naquele quarto que, pouco mais de cem anos depois de 1833, os descendentes de Anna Varsano e seu marido ficaram escondidos durante todo o tempo em que a Grécia esteve ocupada pelos nazistas.

Como e por que Anna teve de mudar de país em meados do século 19, como viveu no novo país com o marido, foram as perguntas que Dora Openheim buscou responder pelas informações que os objetos encontrados na caixa poderiam transmitir. Ela também procurou centros de pesquisas, universidades, bibliotecas, além de consultar-se com estudiosos e pesquisadores sobre muitas das passagens descritas no diário, incluindo a neta da sua autora.  Ao longo de três décadas, Openheim foi acumulando informações sobre os deslocamentos daquela família, os ciclos de sorte e de infortúnios que a alvejaram, os destinos da única filha que tiveram e da neta, os distúrbios causados pelo antissemitismo na Itália e, depois, na Europa inteira… um percurso que abarca os anos 1883 a 2005, isto é, além do diário  (que abrange o período 1850-1917).

Drama

Anna, filha de Rafaele Cohen, vivia com o pai, ourives e viúvo, a quem ajudava na joalheria dele, em Taormina, na costa leste da ilha de Sicília, bem em frente à ponta da bota italiana (no mapa). Aos 18 anos, começava a se preocupar com o futuro, pois na sua cidadezinha não havia rapazes por quem tivesse alguma atração, ademais de querer preservar o judaísmo na sua família. E eis que lhe aparece Alberto Varsano, caído dos céus de Veneza para aquele lugar, que já atraía pintores, escritores e outros artistas, pela beleza das paisagens, pelo histórico greco-romano, pelo perfume das flores e sabor das frutas. Alberto era farmacologista, de família judaico-veneziana de prestígio, cujos irmãos se haviam ido de Veneza para Salonica, que seria também o destino final dele e de Anna, sua futura esposa. Apaixonaram-se, casaram-se e tiveram uma filha, Michaela. Alberto encontrou um bom emprego numa farmácia local e, nas horas vagas, em sua casa, manipulava remédios, que distribuía entre pessoas sem recursos, além de fazer experimentos com base em fórmulas químicas. Nessas buscas, encontrou um processo de fazer perfume com um aroma inédito, que representava todas as fragrâncias naturais da ilha. Esta invenção lhe traria fama e melhoraria sua condição financeira, que não ia muito bem apesar da ajuda de Anna, que costurava para fora e, assim, contribuía para a economia da casa.  A filha crescia e se tornou uma exímia ceramista. E foi seu pendor para a arte na cerâmica que chamou a atenção da baronesa Clara de Hirsch, esposa do famoso Barão Maurício (Moritz) de Hirsch (milionário benfeitor de várias causas judaicas e não judaicas, fundador da linha férrea conhecida como Orient Express, ligando a Europa com a Ásia).  Durante uma visita a Taormina, como faziam centenas de nobres e ricaços europeus, a amizade entre a baronesa e a moça, de acordo com a narrativa, foi tão profunda que a nobre senhora convidou Michaela a se mudar de Taormina para a então Bavária. Lá, a moça continuaria seus estudos e seria tratada como filha, já que a da  baronesa e do marido falecera, restando-lhes apenas o único filho, Lucien. Michaela se separa, portanto, dos pais, indo viver não só na Bavária, mas também em Londres e em Paris, lugares onde a fabulosa fortuna dos Hirsch lhes permitia ter mansões, amizades e intensa vida social.

Mas um grande drama, típico dos tempos (e que não terá mudado muito hoje), abalou a família Varsano, em Taormina. O dono da farmácia onde Alberto se empregava vendeu-a a um conglomerado financista e, no desenrolar do negócio, roubou a fórmula original do perfume de Alberto Varsano. Ele ficou na rua, sem a mínima perspectiva de ser recompensado por sua invenção nem por nenhum dos fármacos que desenvolveu em casa nas horas livres.  Juntando injúria à ingratidão, o dono da farmácia o apresentou aos compradores como “impostor … e, além de tudo, um judeu!” Foi por isto que, depois de muito pensar, resolveram mudar-se para a Grécia, sob o Império Otomano, onde muitos judeus de origem sefaradita já se encontravam. O marido foi primeiro, disposto a abrir caminho antes de levar a esposa. O sogro, o velho Rafaele Cohen, preferiu ficar na Sicília, já esperando por seus últimos anos. A bordo do navio que transportou Alberto estava o marroquino Daud, que iria se tornar fiel amigo e servidor da minúscula família, ajudando Alberto a desenvolver uma nova fórmula de perfume, desta vez retirado da essência de rosas. Em Salonica  Alberto teve dificuldades em encontrar seus irmãos, mas, ao final, tudo foi se ajeitando e, com o tempo, Ana se juntou a ele.

Nova tragédia

Enquanto isto, a filha deles, Michaela, junto à baronesa, aprendia tudo que precisava saber para ingressar na alta sociedade europeia. Continuava em correspondência com os pais, descrevia suas andanças, suas experiências e esperanças. Nas cartas, lhes descrevia as atividades beneméritas dos seus “padrinhos”, o barão e a baronesa, que acolhiam refugiados judeus, escorraçados da Rússia e de outros lugares. (Para lembrar, os Hirsch compraram terras no Novo Mundo e para lá enviaram famílias de refugiados que conseguiam escapar dos pogroms eslavos. As terras passaram a ser conhecidas como Colônias da ICA (Jewish Colonization Association) na Argentina, no Brasil e nos Estados Unidos, fundadas e subsidiadas pelos Hirsch, sem retorno lucrativo para eles.) A moça já falava alemão com fluência, dançava como se tivesse nascido numa corte real, entrava nas conversas cultas com grande facilidade, tinha uma desenvoltura natural que encantava a quem dela se aproximava. E foi neste ambiente de requintes e finuras que conheceu o filho erudito dos Hirsch, Lucien, um filatelista introvertido. Uma amizade forte floresceu entre ele e Michaela, ambos ligados pela curiosidade intelectual e pela força da juventude.

Anna Varsano tornou-se  modista de grande fama em Salonica, graças a um impulso monetário enviado pela baronesa. Ela e o marido se firmaram na sociedade local. Viviam numa casa grande, cercada de flores e rosas cultivadas para a pequena fábrica de perfumes que Alberto criara, com a ajuda de Daud, o marroquino.

A história envolve muitos lugares, pessoas e situações, algumas altamente intrigantes. Também abrange costumes populares sefaraditas em relação ao judaísmo, incluindo nomes de pratos culinários, festas e celebrações. Estes elementos fazem da narrativa uma fonte rica e profunda para o conhecimento de algumas diferenças entre judeus, suas diversas ocupações, os métodos encontrados para superar dificuldades em várias áreas, além da descrição de reações ao antissemitismo tão flagrante na Europa dos séculos 19 e 20.  E neste novelo de incidentes e acidentes, o amor atinge um casal jovem. No entanto, a união oficial é impedida pela sociedade nobre ‒ apesar de os dois serem da mesma religião, não pertenciam à mesma classe social… Teriam de encarar o obstáculo e estavam dispostos a vencê-lo. Mas uma tragédia vem selar o impedimento… Neste ponto, a narrativa ganha uma dimensão romântica ao revelar identidades desconhecidas nas personagens, como dignidade e orgulho. Proibições como esta evitavam partilhas indesejáveis entre os poderosos. E Michaela, filha de um inventor de perfumes e farmacologista e de uma modista, nenhum deles com título de nobreza, foi vítima dessa estrutura social.

A obra, dividida em três partes, acompanha os Varsanos até sua última descendente, Adele, filha de Michaela. Assim que terminou a Segunda Guerra, traumatizada e sozinha, Adele entrou num hospital e nunca de lá saiu, por vontade própria, fazendo serviços voluntários. Daí que a história dos Varsanos seja acompanhada por um itinerário geográfico que inclui, além da Itália e Grécia, também Inglaterra, Paris, São Paulo e Buenos Aires. Os ziguezagues de membros da família de Anna Varsano, acompanhados por um método cronológico-genealógico, abrangem mais de um século, mais do que uma família e mais do que uma paisagem. Envolvem perfumes, flores, os prazeres vindos da luz solar na Itália e na Grécia,  das brisas do Mediterrâneo, do gosto das frutas e de alegrias provindas das coisas mais simples da vida. A autora, que se fez escritora de mão firme, de imaginação controlada e respeitosa do diário, é também uma artista na arte de inventar, costurar e embelezar a vida, como estilista consagrada que é, no Brasil.

Especial para ASA

Regina Igel

Professora-titular e coordenadora do Programa de Português da University of Maryland, College Park (EUA). É colunista do Boletim ASA.

1 Comentário

  • Responder dezembro 29, 2015

    Liane Varsano

    Fiquei emocionada. Finalmente vou poder conhecer uma parte da história da minha família!

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