Entre duas mulheres

Mentch é o que todos querem ser um dia ou assim ser considerados: homem gente boa, de caráter, com um bom coração, defensor da justiça social, devotado a uma fé (sendo a judaica, melhor ainda), correto com seus deveres e obrigações, atencioso, amável, otimista, enfim, aquele ideal que poucos conseguem… O mesmo se pode aplicar a uma pessoa comum, em conversa destituída de qualificativos assim elaborados. Qualquer pessoa é gente, mas ser mentch no sentido elevado, é dado a poucos.

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Mentch: a arte de criar um homem

Paulo Blank

Rio de Janeiro, 7 Letras, 2016

211 páginas

O narrador morava com a mãe e a avó, e ambas queriam fazer dele um mentch. Só que cada uma tinha sua receita: a avó era religiosa, mística e supersticiosa, vivia rezando e pedindo proteção divina para todos da casa e para os judeus, e tinha histórias e mais histórias para contar, vindas com ela da Europa para o Brasil. Esperava o dia da chegada do Messias e via em Israel um sinal de que Deus não abandona seus filhos, apesar dos horrores do Holocausto do qual ela e a filha escaparam praticamente na véspera. Ela teve um sonho premonitório, foi se consultar com o rabino da aldeia onde moravam, e ele previu que ela deveria sair o quanto antes – foi assim que zarparam para o Brasil.

A mãe do menino, longe de percorrer as trilhas espirituais da avó, era comunista e, como resultante, também antissionista, revolucionária até a medula óssea, claramente o oposto da velhotinha que passava o dia rezando e se ocupando com afazeres domésticos, enquanto a filha trabalhava fora. Como os seus ganhos não eram suficientes, alugavam um quartinho na casa. Candidatos a inquilino eram severamente examinados pelas duas, e o felizardo a ganhar o teto e uma cama passava a ter lugar privilegiado no seio daquela diminuta família. Foi o caso do senhor Roizen, que comungava dos mesmos anseios políticos e sociais da mulher mais jovem e que terá influência na formação do garoto.

O romance é do tipo que se chama, no jargão da crítica literária, de Bildungsroman, palavra em alemão que designa narrativa sobre a formação moral, o processo psicológico e o crescimento social, acompanhando o personagem da infância à idade adulta. Tal se dá com Mentch: a arte de criar um homem, que segue a evolução do menino Paulo.

Mas a história não é só sobre o menino, que vem a ser o futuro narrador dos acontecimentos que o acompanharam desde criança.  Seus capítulos são várias historietas, abrangendo a vida e a morte de moradores na região da Praça Onze, no Rio de Janeiro, já decantada por outros escritores. Aqui é retratada tanto a população do perímetro judaico quanto a do não judaico, naquele rincão carioca que foi o embrião da comunidade judia carioca. Ele crescia entre as duas fortalezas matriarcais, mantendo seu equilíbrio entre embates e combates na rua, desafiado na escola, encarando e se perturbando com os ataques antissemitas de seus companheiros de brincadeiras e de brigas. Entre o medo de apanhar na rua e o temor de que os cupinchas de Getúlio Vargas descobrissem as reuniões que sua mãe fazia com os amigos comunistas, o menino vivia ora ouvindo a avó e seus relatos bíblicos e pessoais, ora ouvindo a mãe e suas lembranças de lutas por uma sociedade igualitária, que preencheram seu passado juvenil, não muito longínquo. Um resumo desse (nem sempre) harmonioso contraste encontra-se na declaração do narrador (p. 76): “Por trás da discussão sobre os textos, estava a disputa entre a avó que se esforçava para me transformar num mentch seguidor da Toire e a mãe que queria fazer de mim  um mentch disposto a lutar por um mundo onde todos falariam uma mesma língua chamada esperanto.”

A zona

Os episódios narrados são tão diversificados quanto os personagens que os representam. Há o relato com pinceladas cômicas de como o menino foi parar na zona do Mangue, movido pela curiosidade de ver as prostitutas de perto. Fingia ser entregador de frango, pois levava embaixo do braço uma galinha que seria o jantar do sábado na sua casa, quando a dona de um bordel o reconheceu – ela também morava na vila e mantinha seus negócios bem longe dos correligionários, sendo este seu meio de vida. Voltou para casa com a ameaça de que seria preso se retornasse por lá antes de completar 18 anos. Outros incidentes penetram pelo romance com variados graus de veracidade, como o caso do mal afamado Mineirinho, que, escapando da prisão que ficava na vizinhança da Praça Onze, atravessou correndo a vila onde moravam judeus,  italianos e outros imigrantes – durante a perseguição ao fugitivo, o pai de um amigo do narrador teve um ataque cardíaco. A morte chegava assim, ou diante do menino, ou ao longo de notícias tenebrosas da Europa, ou por relatos dos que escaparam com vida dos nazistas, transliterados do ídish como natzes. Aqueles que tinham números em seus braços nem por isto eram recebidos abertamente pela família do narrador – a avó queria estar segura de que não se tratava de  kapos,  traidores dos seus irmãos judeus. E assim a vida ia se desenrolando para aquela gente, a mãe mostrando ao filho que é possível esperar por uma vida melhor para os pobres, os operários, os trabalhadores, enquanto a avó lhe dizia que a vida só melhoraria com a chegada do Messias. E com este pano de fundo e de frente, abre-se um enorme panorama humano de como era o Rio de Janeiro ao tempo em que os judeus (e tantos outros imigrantes) tentavam viver uma vida digna num ambiente carregado de preconceitos, onde apelidos como gringo, carcamano, judeu eram trocados antes de tabefes e pancadarias. Também entrou na história uma façanha da mãe, que mostrou não ser uma lutadora só na teoria – vendo-se ameaçada por um notório valentão da região, que achou que invadir a casa da judia era coisa pequena, levou-o à morte por uma tesourada na cabeça. Não que o corte da tesoura o tenha matado. O que o matou foi a vergonha de ter sido derrotado por uma mulher…  Cenas de violência recordam que o mundo em que eles viviam era complicado, para dizer o mínimo. Havia brigas na rua e também na escola, que tinha como diretor um rabino meio inclinado a defender os ricos contra os pobres. E havia os amigos fiéis ao Paulo, que lhe davam apoio nas horas difíceis pelas quais passava de quando em sempre. Com o mapa fictício que elaborou sobre o seu bairro, em que entravam pontes, estradas e a floresta amazônica, ele armava as mais incríveis estratégias militares, sempre tendo na lembrança o que sabia sobre a resistência dos judeus num gueto da Varsóvia invadida pelos alemães, que se tornou conhecido como o Levante da Rua Mila 18.

Relatos empolgantes alguns, outros tranquilos e suaves, mais uns terceiros carregados de tumultos e violências são trazidos neste livro. O montante dos quadros lembrados ou inventados pelo narrador compõe uma visão realista e deslumbrante do que foi a vida dos judeus e de outros imigrantes no período em que a guerra na Europa ecoava no Brasil, mas onde duas mulheres podiam ainda “construir” um mentch do menino sob seus cuidados. É um livro que faz pensar, e profundamente, na mensagem da qual todo ele está imbuído.

Especial para ASA

Regina Igel

Professora-titular e coordenadora do Programa de Português da University of Maryland, College Park (EUA). É colunista do Boletim ASA.

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