Descobertas

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O romance inacabado de Sofia Stern

Ronaldo Wrobel

Rio de Janeiro, Editora Record, 2016

255 páginas

 

 

 

capitular Olivro mais recente de Ronaldo Wrobel, há pouco lançado, já tem contratos de tradução e divulgação em quatro países. O renome do autor é universal desde seu romance anterior, Traduzindo Hannah, também com múltiplas traduções. Quem leu os dois (como eu) já pode delinear a inclinação do escritor pela alternância de lugares e relatos e pelas metamorfoses e camuflagens dos personagens, que não são poucos e têm diversas ocupações.

Em O romance inacabado de Sofia Stern, a mulher do título é alemã, filha de um judeu afinador de pianos, que ficou cego durante a Primeira Guerra. Sofia Stern vem a ser a avó do narrador. No começo da Segunda Guerra, ela conseguiu escapar e veio parar no Rio.  Casou-se, e sua filha lhe deu, em tempo apropriado, o neto Ronaldo, o narrador. Ele é criado pela avó no Rio de Janeiro. Um dia, ela já com bastante idade, e ele, jovem e resoluto, viajam para a Europa, para ela rever os lugares em que viveu o período que antecedeu e durante o Holocausto, em Hamburgo. Também, segundo o neto, tinha de resolver certas pendências que haviam ficado sem resolução desde a Guerra. Como “mestiça”, pois sua mãe não era judia (era  enfermeira do pai e a abandonou ainda bebê aos cuidados do cego), foi vítima do mesmo tratamento horrífico dado pelos nazistas aos judeus, como humilhação, perseguição, agressão física, prisão. A primeira humilhação aconteceu na escola: na sala de aula, o professor exigiu que ela saísse da sua carteira e fosse se sentar na última fileira da classe. Seu lugar foi ocupado por outra menina, a ariana Klara Hansen. Depois deste episódio, as duas se tornaram grandes amigas, apesar da censura aberta das colegas e de outros. A amizade continuou por toda a vida, ajudaram-se mutuamente nos piores momentos por que cada uma delas teve de passar, e estes não foram poucos.

O principal motivo da viagem à Alemanha era tentar saber se a grande amiga de Sofia, Klara Hansen, sua mãe, Martha, e seu irmão, Hugo, estavam vivos. Uma vez na Alemanha, Ronaldo faz suas pesquisas e descobre mais do que esperava. A narrativa se torna um pêndulo, entre a Alemanha em 2013 (ano da viagem) e a Alemanha de 1933 a 1938.  A vida de Klara Hansen se desenvolve na narrativa, onde ela é apresentada como grande costureira, em sociedade com sua mãe, ambas donas da Maison Hansen.  Seu elegante atelier de alta costura era frequentado pelos graúdos da corja nazista, como a esposa do Goebbels e outras do mesmo naipe. O ponto tão esmerado foi-lhe dado por seu ex-noivo, que pertencia à elite da sociedade alemã e da hieraquia militar, um dos favoritos de Hitler. Enquanto isto, Hugo, grande apaixonado por Sofia, trabalhava contra o regime, colocando em perigo toda a família e sua amada. Em consequência, ele foi detido no campo de Dachau, de onde escapou por uma série de fatores, entre eles, a sorte.

Passam pelo romance o período que antecedeu e deu início ao regime nazista na Alemanha, as chacinas coletivas, os crimes, as perseguições, os esconderijos, os planos frustrados de muitos que queriam se livrar dos alemães, e tudo o mais que perfez o cataclismo que inundou a Europa.

Cabaré

Na Alemanha, o narrador tem encontros com pessoas importantes e que podem lhe dar pistas sobre os paradeiros de Klara, do irmão dela e da mãe, além de informações sobre joias que ela teria deixado como legado para Sofia. O montante destas, convertido em dinheiro, soma  milhões de euros. Ele então viaja entre a Alemanha e a Suíça e consegue esclarecer alguns dos momentos nebulosos do passado de Sofia Stern. Esta continuava no seu hotel em Hamburgo, fumando como sempre, à espera das descobertas do neto. Uma e outra vez, telefonava para ele para lhe dar notícias bombásticas, até então guardadas por ela como seu segredo existencial. Nos achados de Ronaldo entram o próprio Hugo Hansen, dado como morto, objetos enterrados e exumados, joias guardadas e legadas, hábitos antigos relembrados…  Um deles é o período em que Sofia Stern cantava e dançava num cabaré de Hamburgo, no bairro de St. Pauli, o reduto das prostitutas. Conhecida como “Estrela Polar”, ela encantou centenas de nazistas e deles conseguiu viver, camuflada em ariana. Hugo Hansen é encontrado e confessa que ficou vivo para poder rever sua amada, Sofia Stern, agora tão perto dele, em Hamburgo. O neto dela o leva da Suíça, onde foi encontrado, para o encontro. E pergunta para a avó se ela quer rever o grande amor de sua vida. Ela lhe mostra vestidos e pede sua opinião sobre como deverá vestir-se para o encontro, que será no dia seguinte.

Dissimulações são parte integrante dos jogos e embates entre os personagens. A retirada das máscaras de todos eles, pouco a pouco no decorrer da história, vai surpreender leitores. Talvez a única pessoa com identidade isenta de máscara tenha sido Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, secretária no Consulado do Brasil em Hamburgo, a quem as amigas Sofia e Klara procuraram para obter um visto para o Brasil.

O autor é bastante eficaz em montar uma estrutura narrativa em que tudo se enquadra perfeitamente, para depois desmontá-la aos poucos, deixando-nos atônitos com nossa própria inocência em acompanhar os movimentos e os episódios narrados como se fossem legítimos. Sim, são verdadeiros dentro da arquitetura ficcional, mas deixam de ser quando por ela entra a realidade de um tempo formado por peripécias e armadilhas, salvadoras algumas, fatais outras. Obra das mais interessantes tanto por seu tema inédito quanto pela habilidade do autor em transformar dados históricos em elementos fictícios e vice-versa. As surpresas nos esquemas de esconde-esconde que seus personagens jogam, muito longe de ser brincadeira, são elementos dos mais importantes na configuração do romance.

O romance, como o diário, fica inacabado, pois de repente entra a possibilidade de estar vivo um filho que Klara Hansen teve com o oficial nazista e que lhe foi retirado ao nascer. A história deve continuar, pois a avó do narrador …  de repente…

Especial para ASA

Regina Igel

Professora-titular e coordenadora do Programa de Português da University of Maryland, College Park (EUA). É colunista do Boletim ASA.

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