Convivência entre diferentes

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Moishele e a Roseira sem Flor

 

Maurício Wrots

 

Rio de Janeiro, Riva Editora, 2014

188 págs.

O Moishele do título é um menino negro, nascido numa favela carioca, de nome Jorge, em homenagem ao santo homônimo e a uma divindade de origem africana. Ainda bebê, foi levado ao colo por sua mãe, Vicentina, que procurava emprego como doméstica, guiada por um “pai de santo” que lhe dissera que aceitasse oferta de trabalho numa casa onde houvesse um jardim com uma roseira sem flor (o que ocupa a segunda parte do título do livro). Ela acaba por ser empregada na residência de um casal de judeus ortodoxos, Mendel e Faiga. Imigrantes da Polônia, instalaram-se no Rio de Janeiro, onde ele conseguiu um bom pecúlio como joalheiro. Não tiveram filhos, e o garoto da nova empregada passou a ser o Moishele, filho afetivo de Mendel, que lhe ensinou ídish, hebraico e noções básicas da religião judaica.  A mãe o iniciou nos segredos da umbanda e, mais tarde, numa escola particular, ele tomou conhecimento do catolicismo. Foi na tal escola que sentiu as primeiras bordoadas do antissemitismo e do preconceito contra negros. Estudioso dos livros sagrados judaicos, o cabalista se interessou também pela umbanda e nunca tentou influenciar seu filho afetivo por sua religião.

Não vou contar todo o enredo, menos ainda como termina este romance, com início no Rio de Janeiro, quando “corria o ano de 1938, quinto da era Hitler, meados de maio”. Dotada de habilidades mediúnicas, a empregada ganha o respeito imorredouro do judeu ortodoxo e cabalista por ter tido, em transe, uma visão radical numa foto do irmão e da cunhada do patrão. Comunicou a Mendel que, se eles não saíssem de onde estavam (Berlim) a tempo, seriam mortos. Mendel conseguiu, com muito custo, convencer o irmão e a cunhada a saírem da Alemanha. Eles, como milhares de alemães judeus, se recusavam a perceber que sua pátria, padrão da civilização ocidental, pudesse lhes fazer mal maior do que queimar seus livros, quebrar vitrines das lojas, expulsar de seus empregos profissionais liberais e impedir aos judeus acesso a todos os lugares públicos, de jardins e parques a bibliotecas, escolas e clubes. O casal que foi relutante em sair da Alemanha representa, no romance, os judeus que, ainda em tempo de saírem vivos da catástrofe engendrada pelos nazistas, acreditavam que sua convivência de séculos com a cultura alemã e consequente aculturação aos padrões germânicos fossem suficientes para superarem o que eles acreditavam ser “apenas uma fase antissemítica”.

Dibuk

O romance se desenvolve informando sobre traços essenciais de duas religiões, sutilmente distribuindo termos relacionados tanto à prática do judaísmo quanto à da umbanda. Moishele crescia e se “educava” nas duas religiões, por curiosidade e vontade de saber mais. A amizade entre Mendel e Moishele estimulou o “pai” a levar o “filho” a conhecer a Europa, principalmente Ostow, o lugarejo na Polônia onde Mendel nasceu e cresceu. Lá já não havia sinal algum da vivência judaica. Todos tinham sido assassinados. A lembrança da infância de Mendel fez com que ele ficasse muito perturbado. Foi quando outro incidente esotérico teve lugar, com o surgimento da figura do pai de Mendel, morto no Holocausto. O espectro do pai apareceu para Moishele, que o descreveu para Mendel. Assombrado com isto e com tudo o que vira na cidade, o homem voltou para o Rio transtornado. Elementos do folclore e do lendário judaico se revelam em mais episódios insólitos, como quando Mendel foi tomado por um dibuk. Este era o espírito de uma ex-noiva sua, que se havia suicidado ainda antes da Segunda Guerra, que o “descobriu’” e “baixou” pelo corpo do homem, reclamando sua companhia no outro mundo. O acontecido movimentou céus e terra, com padre, rabino e macumbeira intervindo para expulsar o espírito que se apossou dele.

Moishele continuou com sua educação em escola particular, onde teve o desprazer de ver e ouvir uma piada antissemita. Revoltou-se, desafiou o professor que a havia contado e foi expulso da escola. Sua mãe, a “macumbeira” Vicentina, fez um “trabalho” do ritual umbandista e os devidos castigos foram aplicados a todos os que haviam injustamente expulsado o rapaz.

Em determinado momento da sua vida, Mendel enviuvou. Sozinho e infeliz, acabou apaixonando-se por uma moça fervorosamente católica. A exigência da moça para que ele se convertesse ao catolicismo levou-o à conversão, mas sua lealdade aos rituais judaicos continuou inabalável e às escondidas da nova esposa. Ao ser descoberto, Mendel experimentou as consequências da intransigência católica. O mesmo aconteceu com Moishele, que em coincidência com seu pai afetivo, apaixonou-se por uma moça católica e também…

Enfim, o romance é um apanhado literário de elementos religiosos, de culturas distintas e de personalidades diferentes. Trabalha com estes componentes de forma isenta de partidarismos e comunica com desenvoltura extratos de duas religiões milenares, a judaica e uma das africanas. O catolicismo entra na história como representado pelo obscurantismo das duas moças por quem respectivamente Mendel e Moishele se apaixonaram, para o grande espanto de ambos diante das obsessões delas.  O foco do romance parece ser que uma convivência entre diferenças é possível, desde que não haja obstáculos que se façam intransponíveis por manipulações indevidas ou extremistas.

O autor – Maurício Worts ‒ tem seu passado jornalístico vinculado ao Pasquim, além de ser conhecido por seus programas na televisão brasileira. Este é o seu primeiro romance, recheado de situações perenemente encontradas num Brasil multicultural e ambientado na diversidade religiosa e étnica. Moishele e a Roseira sem Flor encontra-se traduzido ao inglês, em edição Kindle.

Boletim nº 154 – maio/junho de 2015 – Ano 27

Especial para ASA

Regina Igel

Professora-titular e coordenadora do Programa de Português da University of Maryland, College Park (EUA). É colunista do Boletim ASA.

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