As brochadas de Jacques Fux

Do mesmo autor, Jacques Fux, já fiz resenha de sua obra Antiterapias (ver ASA 148, maio-junho de 2014 ).  No entanto, talvez mais intrigante do que o Antiterapias, é Brochadas, Confissões sexuais de um jovem escritor, seu livro mais recente à altura desta escrita.  A narrativa tem sido impactante, o que levou Vivian Schlesinger, crítica e empreendedora cultural, a observar: “Jacques Fux fez pela brochada o que Woody Allen fez pela neurose: transformou em assunto que se pode confessar em terceira pessoa, fora do consultório do terapeuta. Literariamente, of course.” (Facebook, 9 de janeiro de 2016).

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Brochadas,

Confissões sexuais de um jovem escritor  

Jacques Fux

Rio de Janeiro, Editora Rocco, 2015

239 páginas

Do começo ao fim, o narrador descreve o enigma que, para ele, é a casual disfunção orgânica do seu membro genital. E algumas de suas questões, talvez atávicas por ele ser judeu, também fazem parte de sua grande e multifacética interrogação.  É um livro que, com fortes doses de bom humor, focaliza dois problemas: o existencial e o orgânico, um acoplado ao outro, além de um terceiro. Este não é tão evidente quanto os anteriores, emergindo mais como uma entidade secreta do que como uma referência concreta. Trata-se da frustração que escritores sofrem no decorrer do processo criativo. A “brochada” no campo da imaginação (seja em literatura ou em outras artes) não é o tópico visível nesta obra, mas nela coexiste pelas entrelinhas.

O narrador se refere às restrições impostas pelo judaísmo ancestral quanto à promiscuidade. Ao confessar que cultivava o sexo ativo com adolescentes como ele, refere-se às suas tentativas de  entender, ou subjugar, ou mesmo se agraciar com seu falo, a que apelidou de “Jacozinho”. Cita escritores e outros tantos, para quem seus jacozinhos eram igualmente importantes, tanto por lhes dar prazer como por lhes dar desgostos.

Obsessão

Nos três capítulos que compõem este livro (À l´ombre das brochadas perdidas, À la recherche do espelho judaico e Pés na bunda: impulsos literários),  o narrador discorre sobre como se sentia antes, durante e após suas relações sexuais. Por intermédio de e-mails trocados com suas ex-namoradas, décadas depois de terminadas as relações, ele busca uma resposta das mulheres em relação às suas próprias frustrações. Na sua enquete, ele lhes pergunta se a elas também ocorreu o fenômeno da brochada, o que seria, no caso feminino, desânimo, falta de apetite sexual, vontade de estar longe dali, pensar em outra coisa, perceber que o teto precisa de uma pintura, etc. …

Sua obsessão com o pênis, o coito e as sensações pessoais e das ex-companheiras se encaixa na sua angustiosa procura de um entendimento do motivo que leva os homens – e algumas mulheres – a sentir desgaste sexual e a fingir que sejam imunes a isto ou, então, escolher calar-se em relação a um ato tão natural quanto a disfunção erétil.

A narrativa autoficcional é acompanhada por dados mais ou menos históricos a respeito de famosos que não tinham suas funções sexuais em estado ideal.  Alguns dos vultos universais que terão passado por problemas semelhantes foram, como ele os enumera, Ernest Hemingway, Balzac, Stendhal e Verlaine.  Suas histórias coincidem, em alguns aspectos, com as confissões do narrador em relação às suas falhas como Don Juan na cama.  Ele trata o assunto com seriedade e até com certa formalidade, com registros históricos e revelando suas fontes de informação. Mas em meio a esta civilidade literária, percorrendo a história da Humanidade em mais de 200 páginas, guarda em todas elas uma ponta de ficção e uma pergunta: será que isto aconteceu mesmo?

Os e-mails trocados com as ex-companheiras de sexo mostram sua preocupação pela mulher e seus prazeres, o que leva a história a um patamar de igualdade sociossexual, pouco seguida por escritores do sexo (ou gênero) masculino, salvo algumas exceções. Mais ainda, as falhas descritas nas histórias não são unicamente no setor orgânico. Elas sugerem uma intermediação metafórica que indicaria as falhas corriqueiras, meramente humanas, em todos os setores da vida. E nisto se cristaliza a informação que se irradia pelo romance em equilíbrio entre mensagens veladas e recados abertos. Aos leitores não é dada a possibilidade de fazer da literatura um escapismo de suas próprias vitórias e derrotas. Ao contrário, sua leitura pode levar a uma autoanálise, a uma introspecção atemporal e ilimitada.

A mulher judia

À la recherche do espelho judaico” é o capítulo do meio, entre os três citados. Neste, entre outras lembranças adversas, o narrador invoca a histórica maledicência antissemítica a respeito do mau cheiro que se dizia que os judeus exalavam, de alho e de cebola pútridos, ou de suor. O “mito do mau cheiro”, como o denomina Fux, perseguiu os judeus por séculos. O narrador  viu-se vítima desta perseguição incessante ao ter suas intenções sexuais reprimidas junto a Débora.  Como sua mãe era judia, ela também era. E, embora estivesse apaixonado e até tivesse pensado em formar um lar judaico com ela, seu “Jacozinho” não gostou dos odores que o corpo dela emanava e aí acabou-se a história. O narrador refere-se ao incidente como “a primeira brochada judaica” (p. 153). Como fez com as moças não judias, décadas depois do desastre, ele lhe passa um e-mail, dizendo que as lembranças que tinha com ela fariam parte de um livro sobre suas brochadas e lhe pergunta se ela também teve alguma enquanto estiveram juntos. Recebeu uma resposta das mais agressivas, com a tal Débora chamando-o de “um filho da puta brocha, um judeu neurótico e perturbado e um grande babaca … um sórdido escritor que rouba as histórias pessoais de outras pessoas” (p. 157). Para amenizar o panorama, no capítulo seguinte, o escritor expõe uma pergunta que ele faz a um Rabi Yochanan, a respeito de obesidade e capacidade criativa, citando o Talmud e contando uma historieta, bem ao gosto do rabinato.

Continua com suas buscas da mulher judia e agora se torna membro de um “site” judaico de relacionamentos. Ele confessa, brincando, que “Se você não é nenhum Rodrigo Santoro Cohen, ou um George Levy Clooney, as chances funcionam na casa do 1%” (p. 166). No capítulo dedicado a Sara, que ele conheceu nesse clube, entram considerações sobre o Holocausto, a genética da esquizofrenia, a desconfiança de que a moça fosse neurótica pelos traumas sofridos por seu avô, aparentemente passados para a sua mãe e assim por diante. O capítulo talvez seja um dos mais longos no livro, pois inclui comentários sobre obras relacionadas a fatos acontecidos nos campos de concentração e pouco divulgados. Entre estes, o livro do escritor israelense Ka-Tzetnik (House of Dolls ou Casa de bonecas), sobre a prostituição forçada de mulheres judias para os guardas nazistas e seus amigos, como também livrinhos contendo relatos pornográficos acontecidos ou não dentro dos campos. Estas e outras obras semelhantes estavam nas estantes da casa de Sara, o que provocou no narrador um represamento dos seus instintos sexuais. Tal incidente veio a marcar a segunda vez que sofreu uma brochada diante de uma mulher judia. A seu devido tempo, outras correligionárias também foram testadas e seu “Jacozinho” outra vez sofreu desencanto, pois Lea, a dona do capítulo seguinte, queria um amigo, e o narrador queria uma amante.

Vencedor e derrotado, herói e acovardado, o narrador traz ele próprio à superfície literária com seus fracassos, impetuosidade e narcisismo, bem como suas ideologias, vitórias e impotências, sejam estes elementos de origem orgânica, existencial ou literária. Seu tom de confissão não dá espaço a dúvidas ou confusão, pois deixa bem claro no início do romance que: “Tudo aqui é verdade, exceto o que não invento.”

Especial para ASA

Regina Igel

Professora-titular e coordenadora do Programa de Português da University of Maryland, College Park (EUA). É colunista do Boletim ASA.

2 Comentários

  • Responder julho 1, 2016

    SANDRA HELENA BONDAROVKSY

    Regina,

    Gostei muito de sua atual resenha sobre o “Brochadas” do Jacques Fux.
    Li o Antiterapias e até dei de presente para um jovem da idade dele.
    Fiquei com vontade de ler esse outro que nem sabia da existência.
    Parabéns!

  • Responder julho 4, 2016

    Regina Igel

    Sandra Helena, obrigada por suas palavras. Parabéns a você, que presenteou um jovem com o Antiterapias. Se você gostou deste livro, vai gostar tanto ou mais ainda do Brochadas! Um abraço amigo.

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