Juprog: respeitados e xingados, mas reconhecidos

Sergio argumentando

Sergio argumentando

Mais do que um grupo, um movimento. É assim que Sérgio Storch define o Juprog – Judeus Progressistas do Brasil, que começou a se articular em 2011. Sérgio é um dos que participam da iniciativa desde a sua concepção. Nesta entrevista ao Boletim ASA, ele conta um pouco da história, da situação atual e das perspectivas do Juprog, que lida, entre outras, com as questões ligadas aos conflitos no Oriente Médio, aos preconceitos em geral e à defesa dos direitos humanos.

ASA  O que é e quando surgiu o Juprog?   

Sérgio Storch – O Juprog não é um grupo virtual. Não existiria o Juprog sem as possibilidades da comunicação em rede, mas as ações-chave na nossa história são corpo a corpo. E temos pessoas que não usam Facebook. Nem diria que somos grupo, pois um grupo tem contornos claros, o que não é o nosso caso: “são” do Juprog os que acham que são. Não somos organização, pois, com quatro anos de vida, estamos ainda numa fase pré-organizacional.  O que sim procuramos ser é um movimento, em que pessoas entram e saem, se afastam e se reaproximam, se encontram em cafés e eventos, e mostram ter um senso de pertença. Por isso não sei dizer quantos somos, embora no Facebook apareçam 638 pessoas. Nossa evolução foi informal desde o início, e as decisões foram tomadas por quem se apresentava com a energia para dar cada passo seguinte. Só neste quinto ano é que demos um passinho em direção à formalização, com a Declaração de Missão.  Há a pré-história: a participação independente de muitos de nós em outros carnavais, na vida política brasileira. Talvez o “quando surgiu” deva ser remetido a 28 de junho de 2011, quando dez pessoas se reuniram na casa do então cônsul de Israel, que tinha me proposto organizarmos pessoas na comunidade judaica de São Paulo que tivessem opiniões de esquerda. Ele achava anômalo a comunidade ser tão conservadora. Ele, eu e um diretor da Conib fizemos uma lista, e cada um convidou alguns. Deu liga, e continuamos, chamando mais pessoas para as reuniões sucessivas, que se deram algumas vezes de julho a outubro daquele ano. Então o cônsul e o diretor da Conib se afastaram, e passamos a nos reunir nas casas das pessoas. Houve uma tentativa de implosão do grupo, que àquela altura alcançara trinta pessoas. Desde o início tivemos gente de várias gerações, o que fez parte do DNA. A nossa primeira ação foi uma turnê com exibições do documentário Budrus, com presença da cineasta que o dirigiu. Mas o segundo marco, que significou a sobrevivência a um aborto precoce, foi a realização de um seminário, intitulado “Direitos humanos no judaísmo”, em dezembro. Temos fortes raízes na comunidade judaica, e várias pessoas que nos procuraram foram indicadas por dirigentes de instituições judaicas. Assim  conheci a Sheila Mann, cujo projeto Peace on the Table levou um desses dirigentes a recomendar que nos conhecesse. E sem a Sheila e sem o Samuel Neuman, que mais tarde criou nossa página no Facebook, não haveria Juprog, pois aqueles dez ou trinta “fundadores” se dispersaram. Logo atraímos a Patrícia Tolmasquim, que eu conhecia do site Judaísmo Humanista. Sua vinda introduziu mais um ingrediente no DNA: deixamos de ser um grupo paulista. Hoje estamos em treze cidades, além de um núcleo em Israel, coordenado pelo Davi Windholz.  Com a instantaneidade e a facilidade de participar pelo Facebook, as afinidades políticas e a informalidade interpessoal se reforçaram mutuamente, e o grupo foi crescendo. Tivemos uma inflexão quando descobrimos a vinda de uma delegação de dois israelenses e dois palestinos para visitar Cristina Kirchner. Um era o Meir Margalit, subprefeito de Jerusalém, que imediatamente adicionei no Face. Entrou no DNA mais um elemento: as parcerias com lideranças israelenses, e com elas a internacionalização. Com o Meir, tentamos viabilizar uma visita daquele quarteto à presidente Dilma. Fomos em delegação ao Instituto Lula. O que queríamos não aconteceu, mas o Itamaraty nos convidou a participar do seminário “Lado a lado: o papel das Diásporas para a paz Israel-Palestina”. Fomos quatro pessoas, em 10 de julho de 2012. Nossas falas propiciaram a aproximação com os palestinos que lá estavam. E, meses depois, consolidou-se a amizade que lá iniciamos com o atual embaixador brasileiro em Ramalah, Paulo França, a quem a Sheila homenageou com um jantar em sua casa, com convidados pinçados estrategicamente. A Patrícia, que lá estava, o convidou para um almoço semanas depois no Rio, que organizou com a Bnai Brith. Ou seja, desde o início tivemos posições nada ortodoxas, mas nossa relação orgânica com a comunidade judaica continuou forte. No final daquele ano, participamos, em Montevidéu, de um momento precioso, organizado pelo intelectual israelense Edy Kaufman, que tinha passado dez dias conosco e ido ao Itamaraty e ao Senado acompanhado da Patrícia. Criamos, numa reunião na Chancelaria do governo uruguaio, na presença do chanceler, o Consenso Latinoamericano por la Paz Palestina-Israel ‒  grupo formado por judeus e árabes de cinco países sul-americanos (Argentina, Brasil, Peru, Uruguai e, à distância, o Chile) ‒, que pouco a pouco vai se estruturando, e logo será notado por aqui. Aí deixamos de ser um grupelho, e passamos a nos ver como parte de uma coisa que estava valendo a pena.

ASA –  – O grupo tem uma carta de princípios e/ou um conjunto de propostas às quais todos os membros são solidários? Em caso positivo, quais são seus principais pontos?

​Sérgio Storch –  Só  três anos após o início, e já tendo atingido quase trezentas pessoas, sentimos a responsabilidade de dar os primeiros passos em direção a uma formalização. O primeiro foi a Declaração de Missão. Embora sejamos conhecidos mais pelos posicionamentos em relação à questão Israel-Palestina, esse processo nos fez identificar os seis eixos que estão no documento e que dizem respeito aos nossos parâmetros éticos; à questão Israel-Palestina; à luta contra qualquer forma de racismo, especialmente o antissemitismo e a islamofobia (com um molho que sempre gosto de creditar ao Flávio Wittlin, que é a causa mais geral da luta contra o fascismo); ao estímulo a que membros da comunidade judaica  se envolvam nas causas sociais que temos no Brasil; ao resgate da memória progressista judaica em todos os lugares; e à nossa própria praxis, em que valorizamos o acolhimento, a alegria e a apreciação que desejamos ter entre nós. Destaco que é importante a ordem desses seis eixos, que compõem uma estrela. O documento pode ser lido aqui: http://bit.ly/juprogmissao.

ASAQuantos internautas participam do grupo? Qual é a distribuição geográfica dos participantes? E do total, quantos se manifestam com frequência?

Sérgio Storch – No Facebook estão contabilizadas 638 pessoas, em treze cidades, de Porto Alegre a Recife, e um núcleo em Israel, que criamos com o Davi e o Josef Manastersky na viagem em fevereiro.​ Mas é um número frouxo, pois há gente adicionada por amigos e que nunca acessou. Desse total, umas 150 a duzentas pessoas aparecem e vêm curtir, comentar, ou compartilhar, quando são marcadas. Umas 50 a cem publicam posts e fazem comentários. A participação como internautas dá vida todos os dias, mas não é o que mais  importa. Diversos intelectuais e pessoas de gerações mais velhas, sem Facebook, adoram quando telefonamos ou convidamos para algum evento. Acho razoável estimar em quinhentos o número de pessoas com quem podemos contar, internautas ou não.

ASA – Como o Juprog se relaciona com as comunidades judaicas no Brasil e no exterior?

Sérgio Storch – ​As relações não são institucionais, até por não termos ainda institucionalidade. Entretanto, somos reconhecidos e respeitados por uns e xingados por outros. Nossas relações comunitárias se dão através das pessoas, cada uma nos ambientes que frequenta, onde comentam sobre o movimento de forma que suponho ser no geral positiva. Não precisamos ter representantes nas instituições, mas queremos que cada uma das quinhentas pessoas goste de falar do Juprog nas suas famílias e ambientes. Acreditamos na sociedade em rede, no sentido das conexões humanas, que vão muito além do virtual. No exterior, temos construído gradativamente relações com lideranças da Jewish Voice for Peace, da Tikkun Magazine e da JStreet, e  com quem mais nos responda quando escrevemos ou telefonamos. Algumas, em Israel, esperam que possamos ajudá-las na formação de uma rede de judeus progressistas na América do Sul, que consideram importante pelos assentos que alguns de nossos países têm no Conselho de Segurança da ONU.  Ou seja, já há gente que conta conosco.

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ASA – Quando há divergências, é comum o uso de linguagem ofensiva nas redes sociais. Isso tem acontecido com o Juprog?

Sérgio Storch – ​Não. Temos algumas pessoas muito tarimbadas na gestão de ambientes virtuais, e aprendemos a ser duros em relação ao uso de linguagem ofensiva. Demoramos para aprender que certos tipos de posts têm que ser excluídos emergencialmente, para só depois comunicar ao autor, e que às vezes é preciso excluir pessoas. Há momentos em que a linguagem começa a se tornar ácida, mas na maior parte dos casos as pessoas têm aceito nossos toques para que a agressividade não ultrapasse limites que tornariam difícil a convivência. Houve casos em que pessoas ficaram chateadas e deixaram de participar. É o preço a se pagar para ter um ambiente em que a maioria se sinta respeitada. ​

ASA – Como vocês fazem para obter consenso quanto a uma declaração política?

Sérgio Storch – ​Ah, este ponto eu considero fundamental, por ser um grande dilema. Não é ainda uma coisa bem resolvida. Em alguns casos, fizemos o que é mais comum nas ONGs: documentos por consenso, assinados institucionalmente pela ONG. Mas não temos ainda institucionalidade para decidir em nome do coletivo, e a busca de consenso acaba se tornando torturante. Em outros casos, o Juprog acaba tendo o papel de incubadora de iniciativas que não são assinadas pelo coletivo, e sim pelos indivíduos que as apoiem. É bem mais simples, porque a responsabilidade é individual e a decisão não requer consenso. Cada uma dessas formas tem prós e contras. Vamos ter que experimentar mais um pouquinho para saber quando usar uma ou a outra.

ASA – Há planos de sair do mundo virtual e criar espaços no mundo real?

Sérgio Storch – ​Sair do mundo virtual, não, porque nunca estivemos dentro dele. Nós o usamos para quase tudo, mas os casos que citei acima evidenciam o quanto há de corpo a corpo, de territorial, de encontro físico. Um guru na década de 1980 prenunciou a era do high tech, high touch (John Naisbitt, Megatendências, 1983). Nossa convivência pode começar no virtual e continuar no presencial, ou vice-versa. O importante é a centralidade das pessoas e afetos, e o virtual sozinho não dá conta disso. Quanto a ter espaços físicos no que você chama de mundo real, acho que já ultrapassamos a necessidade disso. Espaços físicos para fazermos encontros são abundantes, e não precisamos ter um que seja só nosso. Fazemos na Casa da Cidade, em São Paulo, na ASA, no Rio (e gostaremos de fazer no Midrash)​. E no dia em que fizermos alguma atividade conjunta com palestinos, vamos preferir um espaço que não seja judaico. Muitas ONGs nos oferecem os seus espaços. É o que não faz falta nenhuma.

ASAQue temas mais têm mobilizado os integrantes do Juprog?

Sérgio Storch – ​De longe, o que mais mobiliza é a questão palestina. Em segundo lugar, a questão do antissemitismo, que eu gostaria que aparecesse sempre numa perspectiva mais universalista, ​​como escrevemos no eixo 3 da Declaração de Missão. Mas o interesse é das pessoas, e não imposto. Antissemitismo é uma das grandes preocupações. ​Tenho gostado de ver aparecer o tema dos direitos humanos no contexto brasileiro, embora frequentemente saia do Facebook e seja discutido em grupos paralelos. Temos um bocado a fazer para equilibrar no Juprog os demais eixos da estrela da Missão. Isso vai mudar na medida em que lideranças nesses temas experimentem e sintam ressonância nos comentários e curtidas. Temos entre nós lideranças fortes na vida pública brasileira, que me fazem acreditar que isso não demorará a acontecer e, quando acontecer, talvez seja a contribuição mais valiosa que poderemos dar à comunidade judaica, e das mais gratificantes para cada um de nós. Acredito que muitos partilhem da ideia de que somos acima de tudo cidadãos brasileiros, que queremos que nossos filhos vivam num país mais justo e mais igualitário.

Especial para  ASA

Jacques Gruman

É diretor (licenciado) da ASA.

2 Comentários

  • Responder setembro 13, 2015

    Sergio Niskier

    O Sergio Storch é uma pessoa do bem;. Totalmente do bem. É um prazer poder compartilhar ideias com ele, mesmo quando as discordâncias são grandes. Estamos vivendo tempos difíceis, onde as polemicas e as distâncias ocorrem mais que as concordâncias. O espaço virtual, não sendo olho no olho diretamente, permite que haja mesmo momentos de linguajar exagerado e as vezes agressivo, mas a maior parte das pessoas está ansiosa por mudar mesmo o status quo da violência e da desesperança. Tenho ficado quieto na rede, as vezes me manifesto, porque é preciso que as ideias se explicitem em especial com as gerações mais novas. Acho que nossa geração, com tantos cabelos brancos esta muito contaminada com a falta de confiança que ideias tão dispares causam. Ninguém deve ser considerado um inimigo por pensar distintamente, por isto o espaço da controvérsia deve ser garantido. Para tal, o respeito, a consideração e a gentileza, devem ser buscados a qualquer preço. A paz no Oriente Médio vai chegar, não ha duvida disto. A convivência vai existir. Também não ha duvida disto. Porque as alternativas a isto, levarão a tragedias não desejadas nem entre inimigos. Boa a entrevista. Esclarecedora. E que não hajam preconceitos às ideias, nem de fora nem de dentro do Juprog. Que tenhamos sabedoria para poder manter todos os canais abertos, para o dialogo e o entendimento, mesmo nos conflitos e na discordância. Shana tova a todos.

  • Responder setembro 13, 2015

    Clélia Argolo Estill

    Um judaísmo humanista, que entenda direitos iguais para se estabelecer uma paz honesta, sem utopia, entre judeus e palestinos é o que entendo como justiça.
    O ufanismo de ser judeu, povo escolhido – por quem mesmo? – certamente só faz aumentar o antisemitismo. Sou leitora de Amóz Oz, que muito me ajudou a entender que vizinhos não precisam ser amigos, mas tem o compromisso mútuo de serem respeitosos.

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