Outro olhar

Slide1Quando se pensa num conflito, as imagens que surgem estão, geralmente, associadas às violências, às rupturas, à ausência de diálogo. Veja-se, por exemplo, o conflito palestino-israelense. Cada lado defende sua narrativa integral, negando ao Outro qualquer legitimidade. O resultado aparece nas estatísticas de mortos e feridos, na destruição maciça de propriedades, na escalada de ódio, medo e preconceito. No entanto, essa lógica não é a única. Existem grupos que não se conformam com ela, lutando para construir alternativas.

A ONG Parents Circle Families Forum (PCFF – http://www.theparentscircle.org/) é um caso exemplar. Criada em 1995, reúne cerca de 600 famílias de israelenses e palestinos. Cada uma delas teve ao menos uma vítima da violência do Outro. No entanto, ao invés de se fecharem na amargura e reivindicarem vingança, preferiram se abrir, olhar para quem vive do outro lado dos muros, reais e invisíveis, que o conflito criou. Quem participa dos encontros enfrenta a dificuldade de superar a dor em nome da construção de um diálogo. A experiência tem tido importante efeito pedagógico.

A violência no futebol também tem causado muitas vítimas. Somente em fevereiro, cinco graves incidentes aconteceram na Europa, envolvendo racismo, xenofobia e antissemitismo. Culminando a escalada, o campeonato grego foi suspenso, depois de sérios conflitos durante um clássico local. No Brasil, a ação de facínoras dentro das torcidas organizadas está levando um clima de guerra aos estádios e suas imediações. É no meio desse ensaio de barbárie que surgem as primeiras reações. Talvez a mais criativa, até agora, venha do Rio Grande do Sul. Para o clássico Grêmio x Internacional, mil colorados convidaram mil tricolores para torcerem juntos ‒ sem grades e policiais a separá-los. Uma reversão na lógica conflitiva que vem vigorando nos grandes estádios brasileiros.

Ninguém é ingênuo a ponto de supor que, multiplicando-se pequenas iniciativas, os conflitos se solucionarão. No entanto, elas representam importantes focos de resistência, que ajudam a construir uma cultura de respeito e entendimento. Representam um sinal de esperança em meio ao que, muitas vezes, é apenas a promessa de mais conflito.

Boletim nº 153 – março/abril de 2015 – Ano 26

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