Miopia analítica

EDITORIAL

Historicamente associado a partidos xenófobos, ultranacionalistas e de direita, o antissemitismo reaparece no Brasil em um site de um partido de esquerda. Três nomes de origem estrangeira, do primeiro escalão do governo federal interino, são citados para afirmar que a mão do imperialismo judaico chegava para implantar o seu domínio. Também o novo presidente peruano, de origem judaica, é mencionado na qualidade de um servidor daquele interesse.  

A esquerda tem por tradição analisar a conjuntura utilizando-se de ferramentas da História e da Filosofia. Dizer que ministros do atual governo são títeres do imperialismo judaico se contrapõe inteiramente àquela tradição de bem pensar. Falar da ascendência judaica do atual presidente do Banco Central e daí criar interpretações enviesadas é altamente condenável.

Tais afirmações chocam a esquerda identificada com um pensamento mais elaborado. O antissemitismo, assim como todos os outros preconceitos, despontam quando há a busca de culpados em virtude de um insucesso histórico. Na análise desse partido, o impedimento da presidente da República, uma derrota para as forças populares, teve a mão do imperialismo judaico, e nomes oriundos da nossa cultura devem ser impedidos de servir ao país.  Confundem-se, propositalmente, todos os judeus com políticas do atual governo do Estado de Israel. Nenhuma nuance é estabelecida.

Deploramos tal conduta e convidamos esse e outros grupos de esquerda a discutir conosco estas questões, na linha de livre debate, como o promovido pela ASA há três anos.  Sabemos que há interesses externos na derrubada do governo eleito em 2014, mas que se pautam por uma agenda econômica e financeira e não étnica ou religiosa. Sofremos, enquanto judeus e associação progressista, uma afronta à nossa contribuição à luta pela democracia, pela tolerância e contra a desigualdade social.  Assim, lamentamos que os autores do texto, assim como o partido, se escondam do debate franco, conforme nota emitida há alguns dias. Nós, da ASA, estaremos sempre dispostos a debater e a conversar para que a análise deixe de ser míope, ofensiva e preconceituosa.  Tolerância e racionalidade permanecem nossas consignas.

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