Lendo Scholem Aleichem no século 21

EDITORIAL

Sholem Aleichem

Apreciado pelos críticos e pelo público, traduzido para dezenas de idiomas,  reconhecido por seu humor e seu misto de compaixão e contundência ao mostrar o cotidiano dos judeus das aldeias russas, o patrono da ASA, Scholem Aleichem – 1859-1916 – é um escritor que se lê com prazer cem anos depois de sua morte. Mesmo quem nunca teve contato com o ídish, a língua na qual escreveu, há de rir e chorar com ele e seus tipos humanos [leia “Scholem Aleichem, a nossa lágrima sorridente”, Pejsach Tabak, ASA 160, maio-junho de 2016], representativos de uma cultura extinta à força durante a Segunda Guerra.

Autor de romances, contos, peças de teatro e artigos, Scholem Aleichem se mantém atual e abre-se a leituras variadas; o linguajar é popular e os temas são perenes, universais, como o conflito entre a tradição e o progresso ou o contraste entre ricos e pobres. Ao adaptar para cinema e teatro Tevie, o leiteiro, os norte-americanos, por exemplo, recriaram musicalmente, em O violinista no telhado, um relato de exílio, penúria e diálogo aflito com Deus. Famílias dilaceradas, perseguições, adaptação a novos costumes – os judeus do Ocidente ainda podemos nos identificar (e ser solidários) com essas circunstâncias, que hoje ameaçam outros grupos. Na antiga União Soviética, editores atribuíram-lhe posição política que nunca tivera. Publicaram milhões de exemplares de seus livros mais conhecidos e censuraram alguns textos. Hoje, os ucranianos reivindicam-no como nativo. Nascido em Pereieslav, arredores da Kiev tristemente famosa por seus pogroms, dedicaram-lhe um Museu Scholem Aleichem e fizeram selo e moeda em sua homenagem!  

Órfão de mãe aos 12 anos, a madrasta que detestava inspirou as primeiras falas dos seus escritos. O pai o enviou, adolescente, a uma escola russa, abrindo-lhe novos horizontes. Aos 15 anos, o então Scholem Rabinovich redigiu sua versão da história de Robinson Crusoe e decidiu tornar-se escritor, com o pseudônimo de Scholem Aleichem (“a paz esteja convosco”, tradicional saudação judaica). Ao emigrar, em outubro de 1905, no rastro de um pogrom, passou pela Suíça, Inglaterra e Alemanha antes de chegar com a família em 1914 aos Estados Unidos, onde virou celebridade – mais de cem mil pessoas acompanharam seus funerais em Nova York. Para nós, um século mais tarde, é um privilégio evocá-lo e lê-lo.

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