História centenária

EDITORIAL

No início, era uma biblioteca. Os imigrantes judeus a usavam para matar a sede literária, imensa desde que haviam saído de seus shteitlach, origem territorial da maioria. O ídish unificava sentimentos e projetos, facilitava o trânsito para a memória, repercutia humores. Na Praça Onze, onde ficava a BIBSA – Biblioteca Israelita Brasileira Scholem Aleichem, formou-se o embrião da comunidade judaica no Rio de Janeiro. Somos o que somos por conta das relações que nasceram na ídishe avenide e coagularam nas vizinhanças.

Com o passar do tempo, a BIBSA se transformou num centro de convivência social, cultural e política. Os imigrantes e seus filhos criaram vínculos com a sociedade circundante. Muitos militavam na esquerda, fortalecendo as ideias progressistas e garantindo lugar de destaque na história do socialismo no Brasil. Intelectuais importantes, como Jorge Amado e Apparício Torelly, o Barão de Itararé, participaram de debates na Biblioteca. O Teatro da BIBSA foi referência para grupos amadores do Rio e dele saíram figuras como Paulo Afonso Grisolli, Yan Michalski, José de Freitas, Luiz Alberto Sanz e Luiz Paulo Vasconcellos.

Nos anos 1940, a abertura da Avenida Presidente Vargas liquidou a antiga Praça Onze, o que determinou a mudança da Biblioteca para outro endereço no centro da cidade. No início dos anos 1960, percebendo as mudanças que ocorriam tanto na distribuição geográfica dos judeus como na estrutura das entidades culturais comunitárias (que se expandiam para atender as necessidades sociais e esportivas das novas gerações), um grupo de ativistas organiza a mudança para um casarão em Botafogo. Em agosto de 1964, era inaugurada a ASA, herdeira patrimonial e ideológica da BIBSA.

Um século se passou desde a criação da BIBSA. O mundo sofreu mudanças radicais. O ídish deixou de ser uma espécie de língua universal dos judeus. As bibliotecas passam por um processo de claro esvaziamento. Livros impressos ganham a concorrência dos eletrônicos. A comunicação virtual ganha cada vez mais espaço na relação entre as pessoas. É neste contexto mutante que a ASA precisa montar sua estratégia de ação. Mesmo celebrando cem anos da entidade matriz, não pode ignorar os múltiplos impactos das novas tecnologias e das novas formas de relacionamento, se quiser influir dentro e fora da comunidade judaica. O espírito combativo e o entusiasmo dos criadores e ativistas da BIBSA nos inspiram a enfrentar os desafios destes novos tempos.

A diretoria da ASA deseja a toda a comunidade judaica um 5776 fértil de ideias, atitudes solidárias, generosidade, respeito à diversidade e luta por um mundo mais justo e fraterno. Que nos aproximemos dos que sofrem e sintamos como nosso o seu sofrimento. Que espantemos a resignação e o cinismo, raízes de injustiças e perpetuação dos poderosos.

A gut ior ! Shaná tová ! Anyada buena !

1 Comentário

  • Responder setembro 5, 2015

    Evelyn Eisenstein

    O que somos? somos a transição entre os que foram e os que aqui ainda estão e os que virão, vamos então aproveitar e confraternizar na ASA e quem sabe pegar uma asa neste com-vivência e voar mais longe?
    Parabéns a ASA por tantas histórias e a sua história do centenário!
    Neshikót,
    Evelyn

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