Uma avis rara: Mauricio Franck

Escudo de Franck

Escudo de Franck

Franck é um pequeno povoado no departamento Las Colonias da província de Santa Fé, a 30 Km da cidade de Santa Fé, capital da província homônima. De acordo com o último censo, realizado em 2010, a sua população é de uns 6 mil habitantes e as suas atividades são rurais: cultivo de cereais e soja e criação de gado.

Por que falar desta localidade tão pequena, perdida no meio do pampa úmido? Por uma razão muito simples. Ela foi fundada em 3 de outubro de 1870 por Mauricio Franck, um judeu alemão, que se converte em avis rara, um caso estranho, para não dizer único, entre os empresários de colonização agrária.

Os judeus alemães

Segundo os registros e pesquisas publicadas, Mauricio Franck  nasceu em Nordstetten, então Reino de Württemberg (atualmente Estado de Baden-Württemberg, no sudoeste da Alemanha, a leste do Rio Reno). É o que consta em dois testamentos nos quais ele indica o que fazer com a sua herança. Presume-se que tenha nascido em 1823. A data não é exata devido à sua origem judaica (as paróquias cristãs, ao contrário, eram encarregadas de registrar os nascimentos, falecimentos e casamentos cristãos).

A região de origem de Franck começou a ser povoada por judeus por volta do início do século 17, como resultado da Guerra dos Trinta Anos. Embora crescesse muito lentamente ‒ na realidade era só um casario ‒, em torno do ano de 1840 a comunidade judaica atingia uns quatrocentos integrantes e mantinha uma sinagoga e uma escola até 1901, sendo a mais antiga da região, de acordo com um folheto turístico de 1985.

A situação dos judeus da região não era diferente da do resto do Reich naqueles dias. Segundo uma descrição editada em 1875 pelo rabino Michael Silberstein, ao lado de alguns (poucos) judeus ricos havia uma boa quantidade de “pobres diabos”, o que é confirmado pela criação de uma associação para socorrer os judeus pobres. Diz o doutor Silberstein que “no campo, os israelitas se ocupam principalmente do comércio ambulante de gado, couro e tecidos. Há estalajadeiros e artesãos estabelecidos, mas em número reduzido”. A existência de um cemitério judaico certifica uma importante presença comunitária não só nessa aldeia, mas também nas vizinhanças.

Em 1822 cria-se a primeira escola judaica, por iniciativa do presidente da comunidade local, Barnass Rothschild, que pretendia educar as crianças no espírito alemão sem abandonar a fé judaica. Segundo as crônicas, “não descansou até que as crianças tivessem o mesmo ensino que as das escolas cristãs…”, mas introduziu também as aulas sabáticas com o intuito de ensinar os fundamentos da religião e os costumes judaicos. Esse fato é uma mostra fiel do “clima da época”, do espírito reinante em uma parte importante da sociedade como reflexo do romantismo crescente: ser alemães de fé mosaica.

Em 3 de dezembro de 1861, os judeus do ducado de Württemberg, assim como outros da Confederação Germânica, receberam os direitos de cidadania como parte de um processo gradual de emancipação judaica ‒ um caminho iniciado no século 18, que se desenvolveu durante todo o século 19 até chegar à Constituição de Weimar, em 1918.

A família Franck

Os integrantes da família Franck que habitavam a pequena aldeia de Nordstetten eram originários da Boêmia (região que hoje faz parte da República Tcheca). Expulsos pela imperatriz Maria Teresa da Áustria em 1744, rumaram para a Alemanha, radicando-se em Karlsruhe, no Estado de Württemberg. Um tal de Samuel Franck, talvez avô de Mauricio, violinista itinerante, acabou dando com os costados em Nordstetten, onde se instalou.

Em meados do século 19, muitos cristãos e judeus de Nordstetten emigraram tangidos pela pobreza e pelas crises, especialmente nas regiões rurais onde a subdivisão da terra por herdeiros criava uma infinidade de minifúndios absolutamente improdutivos. A grande maioria se dirigiu às Américas, do Norte e do Sul.

Mauricio Franck rumou para a Califórnia, atraído pela febre do ouro em 1848, que provocou um êxodo em massa de todas as partes do mundo. Ele residiu na Califórnia entre fins dos anos 1840 e princípios dos anos 1860 e lá se casou com a chilena Maria del Carmen Arias.  A sua chegada a Santa Fé, em 1864, está documentada de forma inequívoca.

Em Santa Fé

Não são claras as causas que levaram Franck a se instalar em Santa Fé. Talvez tenha sabido das campanhas pela colonização agrícola e, dado o seu caráter empreendedor, decidiu tentar a sorte com esse tipo de atividade. Também não se sabe se fez fortuna ou se melhorou e consolidou a sua situação econômica alcançada na Califórnia, mas é evidente que não chegou com as mãos vazias, já que logo iniciou negócios imobiliários e a colonização agrícola.

Entre 1853 e 1900, havia na província de Santa Fé quatro sistemas de colonização. Mauricio fez várias tentativas pelo sistema de colônias oficiais (empresários particulares sob o controle do Estado), que não deram certo. Finalmente alcançou o seu objetivo ao optar pelo sistema privado (empresários que compravam terras e as vendiam a colonos), fundando a colônia a que deu o nome de Franck. Este foi o resultado de um convênio entre ele e a empresa de terras herdeira de Ricardo Foster. O terreno, medindo três léguas quadradas, foi subdividido em lotes de 33 hectares, superfície que na época, ao contrário de hoje, era rentável.

Estima-se que o parcelamento e venda das terras adquiridas por Franck aos imigrantes franceses, suíço-alemães e italianos deram início à Colônia em outubro de 1870,  quando chegaram os primeiros colonos.

A população primitiva compunha-se de 162 habitantes: 105 italianos, 35 suíços e 22 franceses. Quanto à religião, 127 eram católicos e 35, protestantes. A Colônia carecia de autoridades políticas, escola e templo, e dependia do juiz de paz residente na localidade de San Carlos (fundada em 1857).

Como costumava acontecer, os primeiros anos foram muito difíceis e de grandes sacrifícios. Os colonos, com ferramentas precárias, semeavam trigo e milho, criavam gado e plantavam árvores frutíferas e para a produção de lenha.

Outras iniciativas

Fundada essa colônia, Franck realizou outros empreendimentos colonizadores: Gessler, Colônia Nueva (ou Bismarck) e Colônia Rivadávia, que também cresceram, embora não tanto quanto a primeira.

Ele faleceu aos 56 anos, em 29 de abril de 1879, de acordo com o atestado expedido pelo sacerdote da paróquia de Pilar. Ali consta que morreu de um aneurisma, que não recebeu os sacramentos do rito católico e que foi sepultado no cemitério de La  Recoleta, em Buenos Aires, onde residia desde 1874. Embora não tivesse grande fortuna, lê-se no livro de atas de Nordstetten que “… o israelita Moritz Franck, falecido em Buenos Aires, América do Sul, natural de Nordstetten, legou em seu testamento 2 mil francos aos pobres de sua cidade natal, soma que deve ser distribuída sem distinção de credo religioso…”. O trâmite foi muito rápido e, em setembro de 1879, 56 pessoas foram beneficiárias.

Atualidade

Hoje, Franck é uma comunidade pequena, porém pujante. Possui a Associação União de Criadores de Gado Leiteiro, fundada em 1925 por 29 produtores leiteiros guiados pelo espírito cooperativo. Em 1926, fundou o primeiro estabelecimento destinado à fabricação de derivados de leite. Em 1936 nasceu a marca comercial Milkaut, que hoje pertence a um grupo francês do setor de agroalimento presente em mais de 124 países.

Consideramos este um caso único. Embora houvesse empresários de colonização judeus na Argentina (o barão Hirsch, com asua célebre JCA – Jewish Colonization Association), Franck foi um caso excepcional, que atuou de maneira similar aos demais empresários de terras que viram nessa modalidade de colonização ‒ tipicamente capitalista ‒ a possibilidade de enriquecer com risco relativo. Diferentemente de Hirsch, Franck não foi movido por sentimentos filantrópicos, mas unicamente pelo afã de obter um certo lucro mais ou menos rápido e garantido.

Especial para ASA

Daniel Silber

Professor na província de Santa Fé (Argentina). É colunista do Boletim ASA.

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