Tres ermanikas

tres ermanikasSão três os gêneros poético-musicais do repertório sefaradi: as canções (kantikas), as coplas e os romances. As canções têm temática variada – amorosa, humorística, descritiva – e unem as tradições espanholas às dos novos países de passagem ou assentamento. É nas coplas que se manifesta a maior criatividade poética dos sefaradis; sua característica é a intenção didática, que expressa os valores e crenças do patrimônio sefaradi. Quanto aos romances, suas raízes são profundamente hispânicas. Cantaram-se romances nas festas, na intimidade do lar, nos momentos de ócio. As mulheres os cantavam nas atividades caseiras ou para adormecer seus filhos. No entanto, é preciso deixar claro que nem todos os romances sefaradis possuem congêneres na Espanha, sendo que vários temas já foram esquecidos na península, mas se conservam graças à tradição oral nas comunidades da Diáspora.

Como se trata de uma composição de cunho popular e – repito sempre – transmitida oralmente, o romance pode possuir várias versões, dependendo do lugar onde foi recolhido. É o caso do romance Tres ermanikas, que possui versões recolhidas na Turquia, em Rodes, em Salônica. Muitos pesquisadores preferem generalizar e registram como recolhidos no Oriente. Há versões de todos os tipos: enormes, curtas, com final feliz, sem final nenhum, algumas bem surreais.

Rapunzel sefaradi

A história é a seguinte:

  1. Um pai tem três filhas:

Tres ermanikas eran, blankas de roz, ay ramas de flor

Tres ermanikas eran, tres ermanikas son.

(Três irmãzinhas eram, de faces rosadas, ai, ramalhetes de flor// Três irmãzinhas eram, três irmãzinhas são) – “Blankas de roz, ay ramas de flor” é o estribilho; vai aparecer em todas as estrofes.

  1. Duas filhas são casadas (presume-se que sejam as mais velhas); a mais nova:

a) se perde, no sentido moral, ou

b) corre perigo de perder-se:

Las dos eran kazadas, blankas de roz, ay ramas de flor

Las dos eran kazadas, la chika en perdision

(As duas eram casadas, a menor se perdeu, ou estava a ponto de perder-se.)

Em outras versões, em lugar de en perdision, aparece en pedrision, se deperdio, e também kon amor, quer dizer, sem estar casada.

  1.      a) O pai, envergonhado ou para castigá-la, ergue uma torre no meio do mar, onde a encarcera; ou,

b) para evitar a perdição da filha solteira, ergue a torre para isolá-la do pecado.

El padre, kon verguenza, a Rodes la envio

En medio del kamino kastiyo le fraguo

de piedra menudika, eshikos al derredor,

ventanas por los mares ke no suva varon

(O pai, com vergonha, a mandou para Rodes. No meio do caminho, construiu um castelo, de pedra miudinha, seixinhos ao redor, janelas para o lado do mar, para que nenhum homem pudesse subir.)

Em algumas versões, em lugar de kon verguenza, cantam en su rikeza; há uma versão na qual o pai a manda para Roma. Em outras, mais curtas, a jovem dorme no meio do caminho, não se fala do castelo construído pelo pai. Um cavalheiro a encontra, dá-lhe três beijinhos e são felizes para sempre. Nesta versão que estamos examinando, ainda acontece muita coisa, com direito até a Rapunzel).

  1. Um cavalheiro, possivelmente o namorado da jovem, ao saber da prisão da jovem, atira-se ao mar e vai nadando até a torre:

El varon, ke ya lo supo, a nadar ya se echo.

Sus brasos izo remos, su puerpo navego

Nadando i navegando, al lugar ya arrivo.

(O cavalheiro, quando soube do que havia acontecido, pôs-se a nadar. Fez de seus braços remos, seu corpo navegou. Nadando e navegando, ao lugar chegou.)

  1. A jovem lança suas tranças do alto da torre e o jovem enamorado sobe por elas.

Echame tus trensados, ke arriba suvo yo.

Echo sus trensados, arriba lo suvio.

(Joga-me tuas tranças, que subo aí em cima; ela jogou suas tranças, em cima ele subiu.)

Em algumas versões, há uma descrição dos komeres i beberes que a jovem serve ao namorado: peshkado kon limon, vino de treinta anyos, mezes, almendrikas de Estambol (peixe com limão, vinho de trinta anos, entradas – azeitonas, salame, fatias de presunto … ‒, amendoazinhas de Istambul).

  1. E é aqui que a narrativa fica surreal!:

En medio de los comeres, agua le demando.

Agua no avia en kaza, a la fuente a embiyo.

(Enquanto comia, pediu-lhe água; não havia água em casa, à fonte a enviou.)

Como assim? Não vou perder-me em elucubrações – estamos no meio do mar, a torre é alta, ele subiu pelas tranças, “rapunzelamente” (desculpem-me o neologismo).

  1. A jovem vai à fonte:

Al son de tres chorrikos la ninya se durmio

Por ayi paso un kavayero, tres bezikos le dio.

Uno en kada kara i otro en el korason.

Al beziko de al kabo, la ninya se esperto.

(Ao som de três jorrinhos [esguichos], a menina dormiu. Por ali passou um cavalheiro e lhe deu três beijinhos. Um em cada face e outro no coração. Com o último beijinho, a menina se despertou.)

Ke izites, kavayero, matada merezko yo.

Matada kon un punyo, ke dos no kero yo.

(Que fizeste, cavalheiro, mereço morrer. Morta com um só golpe, porque com dois, não quero não.)

  1. … E foram felizes para sempre …:

No te espantes, mi kerida, ke el tu amor soy yo.

La tomo del brasiko, a kaza se la yevo.

(Não te espantes, minha querida, que eu sou o teu amor. Tomou-a pelo braço e a levou para casa.)

Seria o mesmo cavalheiro da torre? Outro cavalheiro? Deixemos correr a imaginação. O que importa é o final feliz.

No Boletim ASA de janeiro/fevereiro de 2015, comentei o romance Una tarde de verano. Naquela ocasião escrevi e repito aqui:

“Qual a origem dos romances? Os romances se originam das canções de gesta. Quando os jograis e jogralesas cantavam as façanhas de um personagem histórico, os ouvintes pediam que repetissem os fragmentos mais interessantes, que aprendiam e repetiam. Os primeiros romances são, pois, trechos de poesias épicas, transmitidos por tradição oral. Daí as diferentes versões recolhidas de um mesmo romance: cada cantor ou recitador vai modificando, seja alguma palavra, seja alguma situação, de acordo com sua lembrança ou imaginação. Além das variações nas letras, as melodias também podem ter diferentes versões.”

Confirmando o ditado: Quem conta um conto, aumenta um ponto.

Não encontrei nenhuma versão completa. Para ouvir, selecionei as de que mais gosto:

  1. Versão com Ana Alcaide: https://www.youtube.com/watch?v=QtwHyjM9Bto
  2. Versão com Fortuna:https://www.youtube.com/watch?v=vKoIm0JT6G4
  3. Versão com Joaquín Díaz (com legendas em espanhol): https://www.youtube.com/watch?v=qvHbzrxS6lo
  4. Versão com Janet & Jak Esim (de Istambul): https://www.youtube.com/watch?v=hjbmHhYHnxs
  5. Artigo de janeiro/fevereiro de 2015 – O romanceiro sefaradi:: http://asa.org.br/boletim/ed152/o-romanceiro-sefaradi/

Especial para ASA

Cecilia Fonseca da Silva

Licenciada em Letras Neolatinas e especialista em Filologia Hispano-americana, é autora de livros didáticos de Espanhol e membro do Grupo de Cultura Sefaradi Angeles y Malahines. É colunista do Boletim ASA.

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