Transitando por novos caminhos

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O Chamamento de Argentinos de Origem Judaica é um fenômeno realmente muito interessante que está ocorrendo dentro da comunidade judaica argentina [ler “A Daia não fala por todos”, MILONGA, ASA 154].  Muitos pensam que este movimento é decorrente do chamado caso Nisman (o promotor do caso AMIA encontrado morto ‒ em circunstâncias que estão sendo esclarecidas pela Justiça ‒ na véspera de apresentar uma denúncia ante o Congresso sobre um suposto encobrimento, por parte da presidente e de outros altos funcionários, dos supostos responsáveis iranianos pelo atentado). Na realidade, o seu processo é muito anterior.

Em todo caso, a vulgaridade com que a situação foi apresentada fez com que se catalizasse uma série de opiniões que existiam dentro da comunidade, que começaram a se cristalizar quando o par DAIA-AMIA adotou uma postura francamente aliada a setores políticos que perceberam nessa conjuntura mais uma oportunidade para desgastar o governo.

Mais de três mil pessoas de todo o país assinaram o manifesto original, entre elas dirigentes comunitários de diversas instituições ‒ sionistas e não sionistas ‒, políticos, personalidades dos meios acadêmico, científico, cultural, social, jurídico, dos movimentos de direitos humanos e outros.

Esse agrupamento surgiu há apenas cinco meses, e uma de suas características mais destacadas é a autogestão. Ao grupo iniciador somaram-se dezenas de voluntários  cuja responsabilidade é organizar esta experiência verdadeiramente inédita.

Um ponto de chegada e ao mesmo tempo de partida foi o ato com mais de mil pessoas realizado em Buenos Aires, no auditório da Federação dos Operários e Empregados de Telefonia da República  Argentina (FOETRA), e que teve repercussão em todos os meios de imprensa nacionais.

Na abertura do ato, o presidente da Associação Americana de Juristas, Beinusz Szmukler, e o artista e publicitário Jorge Schusseim destacaram que diferentemente dos judeus conservadores, religiosos, reacionários e de direita que cercaram a DAIA e a AMIA e que visam a excluir, os que se autoconvocaram no Chamamento ‒ pessoas de esquerda e de outras correntes de pensamento, ateus, sionistas ou não ‒ aspiram a uma verdadeira inclusão contra a exclusão.

Posteriormente, realizaram-se encontros parciais dirigidos a diversos setores, como, por exemplo, um com a participação de trinta jovens, sendo Maira Visacovsky uma das organizadoras. Em cidades como Córdoba e La Plata já houve eventos similares, e outros estão sendo preparados em Santa Fe para reunir pessoas da cidade, do interior dessa província e da província vizinha de Entre Ríos.

Andar ereto

Em La Plata, capital da província de Buenos Aires, o encontro se deu na Faculdade de Jornalismo e Comunicação Social da UNLP. Vários participantes expressaram a satisfação de encontrar um lugar que contenha, no âmbito acadêmico, preocupações que grande parte da comunidade judaica não vinculada a instituições oficiais tem sido impedida de expressar e que permita uma tomada de posição pública a respeito de temas centrais da vida nacional e local.

O ponto comum das apresentações girou em torno de uma participação na construção de uma sociedade mais justa e democrática, em que não se vincule uma identidade argentina judaica aos valores de um setor alinhado com o atual governo israelense e os interesses de uma direita local antipopular.

Em Buenos Aires, entre os que compareceram aos encontros há quem  tenha participado e quem, pelo contrário, nunca tenha participado em instituições,  quem tenha vindo de diferentes vertentes da esquerda e do sionismo, há quem tenha vivido em Israel.

Numa primeira síntese, um debate a ser realizado na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires abordará os seguintes pontos:

– o conflito israelense-palestino

-o esclarecimento dos atentados à Embaixada de Israel em Buenos Aires e à AMIA

– os vínculos da comunidade com os processos nacionais e internacionais

– a organicidade do Chamamento

– os presos desaparecidos e os veteranos de guerra judeus

– a relação entre identidade, memória, cultura, tradição, transmissão, educação

– os conceitos de judeu, argentino, progressista, sionista.

Os próximos passos serão dados neste mês de julho e em agosto. Em julho, uma atividade lembrará o 21° aniversário do atentado contra a sede da AMIA. Em agosto, provavelmente, em uma grande assembleia constituinte, serão apresentadas as conclusões das jornadas ocorridas em todo o território. Já se estabeleceram inclusive contatos com personalidades da vida política e institucional do país para lhes informar que há outras vozes, outras opiniões que superam amplamente o que a DAIA possa dizer.

Os “aparatos” e olhar o próprio umbigo são péssimas muletas para quem pretende andar ereto; a soberba e a autossuficiência também. Por isso é bom perguntar: “Não será este o momento para começar algo novo?”

Especial para ASA

Daniel Silber

Professor na província de Santa Fé (Argentina). É colunista do Boletim ASA.

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