Raquel Liberman e as polacas

Faz 80 anos que morreu Raquel Liberman, uma heroína que merece o nosso reconhecimento, embora não existam rua, nem escola, nem praça com o seu nome. Ela desarticulou uma rede de tráfico de escravas brancas nos anos 1930; merece ser resgatada do injusto esquecimento. Sua história inspirou livros, filmes, peças teatrais, poesias.

Raquel Liberman

Raquel Liberman

Em Buenos Aires, como em qualquer comunidade de certa importância, a prostituição sempre esteve presente e era exercida por nativas e por espanholas, mas nunca despertou grande preocupação nas autoridades; era uma atividade marginal.

Poucos anos depois da grande epidemia de febre amarela (1871), que tirou a vida de 14 mil portenhos, chegaram à Argentina uma meia dúzia de traficantes de escravas brancas que haviam sido perseguidos pelas autoridades de vários países europeus.

Coincidentemente, um decreto de 1875 visando a regulamentar a atividade e buscar o controle sanitário de doenças infectocontagiosas denotava o temor latente de novas epidemais e o desconhecimento sobre o modo de transmissão das doenças sexuais. O decreto não fazia mais do que reduzir as liberdades e os direitos das trabalhadoras nas casas de tolerância. Os donos dos locais passavam, por assim dizer, a ser os donos também daquelas mulheres. Enquanto isso, a capital, que havia sofrido grandes transformações sociais, políticas e econômicas, abria-se para o mundo à espera das correntes imigratórias para dar início ao sonho de crescimento, alimentado em fins do século 19, de uma Argentina colocada entre as primeiras potências mundiais.

Centenas de milhares de imigrantes chegavam de todas as partes do mundo ‒ italianos, espanhóis, poloneses, russos, turcos ‒, em sua grande maioria homens jovens e solteiros que vinham “fazer a América”.

Nesse contexto surge a Sociedad de Socorros Mutuos, Sinagoga y Cementerio Zwi Migdal, durante décadas denominada Sociedad Israelita de Socorros Mutuos Varsovia de Barracas al Sud y Buenos Aires, ou, simplesmente, Varsovia.

Nos anos 1890, muito antes de seu reconhecimento jurídico como sociedade, as atividades mutualistas de seus integrantes incluíam a administração de um cemitério em Avellaneda e a manutenção de uma sede suntuosa na capital federal, onde celebravam reuniões luxuosas e ofícios religiosos. A busca de um local para a morte e o ritual judaico com que o grupo tentava reproduzir certos aspectos da comunidade que o repudiava deram origem a uma máfia com características únicas no mundo, onde uma religiosidade mal compreendida foi a gênese e o elemento aglutinador daqueles indivíduos.

Durante um quarto de século essa organização mafiosa dominou grande parte da prostituição na Argentina, comandando uma rede de prostíbulos, enganando mocinhas judias de aldeias perdidas na Europa Oriental com promessas de trabalho e casamento. Seus principais cabeças eram judeus. Um deles, Noé Traumen, apresentava-se como anarquista, havendo quem diga que inspirou o grande escritor Roberto Arlt ao retratar Haffner, “o rufião melancólico” de Los siete locos e Los lanzallamas.

A condição judaica dos exploradores não foi eventual. Já se sabia, em fins do século 19, que no Café Parisien (Rua Alvear 3184) e no Hotel Palestino de Buenos Aires leiloavam-se publicamente mocinhas trazidas da Europa Oriental, assediadas pela miséria, pelas perseguições religiosas e pela cobiça ou indiferença de seus pais.

A sociedade conhecida popularmente como La Varsovia foi constituída por um punhado de rufiões em 1906. Anos depois, a embaixada da Polônia apresentou uma queixa para que o nome de sua capital não fosse associado àquele negócio infame.

No fim dos anos 1920, setores da classe dirigente fizeram intensa mobilização para pôr um fim ao proxenetismo. A gota d’água foi a fuga de Raquel Liberman, que, após conseguir escapar do prostíbulo, apresentou uma denúncia perante um tribunal. O juiz encarregado do processo, Manuel Rodríguez Ocampo, ordenou ao delegado Julio Alsogaray efetuar batidas nos principais endereços da Plaza Once.

Em 27 de setembro de 1930, 108 sócios da Migdal foram processados, mas a maioria acabou libertada em princípios de 1931 porque a defesa logrou derrubar as provas que havia contra eles. De qualquer forma, o golpe mortal estava dado. Quase todos os proxenetas optaram por sair do país. Sem apoio político e com a aberta mobilização da comunidade judaica, a mais formidável empresa de exploração de mulheres caiu sem deixar saudade.

Raquel Liberman

Raquel foi uma das tantas mocinhas atraídas pela promessa de um bom casamento. Mas, ao chegar a Buenos Aires, em 1918, viu-se explorada pela Zwi Migdal em diversos prostíbulos da rua Junín, sofrendo todo tipo de violência por parte dos cafetões. Durante dez anos permaneceu prisioneira da rede de prostituição. Com um pouco de dinheiro economizado às escondidas comprou a sua liberdade, contando com a cumplicidade de um cliente. Com o restante, adquiriu uma loja na rua Callao. Localizada pela Zwi Migdal, começou a ser perseguida, ameaçada e achacada para não dar “mau exemplo”.

Sequestrada novamente, Raquel logrou escapar e entrar em contato com o delegado Alsogaray. Em 31 de dezembro de 1929 a sua denúncia levaria ao desbaratamento da tenebrosa organização. Ao juiz Ocampo, Liberman ofereceu os detalhes sinistros daquele negócio criminoso: as vítimas eram deslocadas à força de um lugar para outro, eram-lhes aplicados castigos físicos e psíquicos a fim de submetê-las, as mulheres que chegavam voluntariamente maltratavam as que tinham sido enganadas, e ameaças serviam para desanimá-las de denunciar a organização. As batidas policiais escancararam outras atividades ilícitas, como o jogo clandestino e o tráfico de drogas.

No decorrer da investigação também se descobriu a cumplicidade da Polícia Federal e da Guarda Penitenciária, que facilitava a fuga dos detidos. Apesar das valentes declarações de Raquel, o Tribunal de Apelações só confirmou a prisão preventiva de três dos processados, deixando os demais livres e gerando indignação em amplos setores. A justificativa do tribunal, que não levou em conta as ameaças dos traficantes contra aquelas mulheres, foi que, excetuada Raquel Liberman, nenhuma outra se atrevera a fazer uma denúncia.

A Zwi Migdal vinha sendo combatida desde a sua fundação não só por movimentos feministas, anarquistas, comunistas e socialistas, como também por grupos da comunidade judaica que desde 1908 faziam discursos inflamados em ídish e em espanhol e criaram uma organização contra o tráfico de escravas brancas, como era denominado na época. Foi dessa forma que a sociedade como um todo tomou conhecimento desse negócio.

Hoje como ontem

Em 3 de abril de 2002, Marita Verón foi sequestrada quando saía de casa para uma consulta ginecológica, na província de Tucumán. Uma investigação iniciada por sua mãe, Susana Trimarco, deu visibilidade ao tráfico para exploração sexual. Em 2007, Susana criou a Fundación María de los Ángeles Verón, que conseguiu libertar até agora mais de 600 mulheres. As investigações apontaram para o então governador e várias pessoas do seu círculo, ligadas ao futebol, à política local e a empresas de serviço de táxi.

Com quase um século de diferença, os casos de Raquel Liberman ‒ em dezembro de 2015 completaram-se 80 anos de sua morte ‒ e Marita Verón mostram a semelhança de procedimento das redes de prostituição de mulheres e de crianças, redes que, movidas pela ganância por quantias milionárias, recorrem ao sequestro e a promessas falsas, submetendo suas vítimas à violência sexual, física, psíquica e econômica. De tão complexo, esse comércio humano, que constitui a Escravidão do Século 21, torna-se impossível sem a cumplicidade de agentes políticos, do poder judiciário e das forças armadas ou de segurança dos países onde opera. Além disso, é resultante da sociedade machista e patriarcal e de um sistema capitalista que fragiliza as mulheres e as crianças em seus direitos, ao ponto de normalizar a sua exploração e comercialização.

Por isso a luta pelo desmantelamento das redes de tráfico e prostituição, a libertação de suas vítimas e o castigo exemplar dos criminosos não podem ser separados de uma luta mais ampla contra o sistema capitalista que facilita a impunidade e dá sustento econômico a essas redes ‒ uma das formas mais perversas de exploração do ser humano.

Existe uma abundante e excelente literatura ‒ pesquisas históricas, romances, peças teatrais ‒ a respeito da Zwi Migdal e dos negócios multimilionários dos rufiões. Um dos escritores mais destacados foi o jornalista francês Albert Londres, que se instalou em Buenos Aires para investigar o comércio de escravas brancas e escreveu o livro El camino de Buenos Aires. O delegado Julio Alsogaray é autor da Trilogía de la trata de blancas. Elsa Drucaroff, neta de um dos principais dirigentes do ICUF da década de 1950 à de 1970, escreveu El infierno prometido, Edgardo Cozarinsky escreveu El rufián moldavo, e a peça de teatro Las polacas é de autoria de Patrícia Suarez.

Especial para ASA

Daniel Silber

Professor na província de Santa Fé (Argentina). É colunista do Boletim ASA.

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