Purim, Purim lanu, Pesah a la mano

Cena da Meguilá de Ester (Purim)

Cena da Meguilá de Ester (Purim)

Em março e abril temos Purim e Pessach … com muitas canções e comidas …

Desde o século 18 se encontram documentadas na literatura sefaradi uma série de coplas chamadas “de Purim”. As coplas são compostas de estrofes de quatro versos, com linguagem coloquial e direta, muito apropriadas para serem cantadas.  Na sua origem, ainda na Espanha medieval, era um gênero de poesia culta e de transmissão escrita. Os sefaradis “recriaram” a copla, ao utilizá-la com a intenção educativa de difundir uma série de conhecimentos relacionados com a religião. Como eram poesias para serem cantadas, passaram à tradição oral, dando origem, assim, a várias versões da mesma história. No boletim ASA de novembro/dezembro de 2010 (nº 127) há um artigo meu, no qual comento a copla Buena Semana, cantada na Havdalá.

Há inúmeras coplas de Purim (Os manjares de Purim, A história de Haman e Mardoqueu, O enxoval de Haman, A bebida de Purim, As noivas de Purim, e vai por aí). A copla chamada O testamento de Haman tem umas 23 versões, distribuídas pelos diversos países que compõem a diáspora sefaradi. Estruturalmente, é composta de três estrofes (omitidas na maioria das vezes) introdutórias, nas quais se define a essência da festa, e mais 22 estrofes, que constituem o testamento propriamente dito. Nessas estrofes, Haman se dirige aos seus dez filhos, à sua filha Remor, à sua mulher Zeresh, a um escrivão, Shimshi, e a seus amigos. A última estrofe relata o destino fatal de Haman. Como se trata de um canto muito longo, sempre se canta uma versão bem reduzida. Reproduzo aqui uma versão recolhida no Marrocos, cuja estrofe inicial emprega termos da haquetia, a língua formada pelos judeus que para lá se dirigiram após a expulsão de 1492 – uma mistura de castelhano, hebraico, aramaico, árabe dialetal marroquino, com alguns empréstimos do berbere, português, francês e inglês:

Esta noche de Purim / no duermen los haluidim (*)

Aziendo alhaduinadas (*) / para las despozadas.

(Esta noite de Purim/ os doceiros não dormem, fazendo doces para as recém-casadas)

(*) árabe dialetal marroquino: halwyyin; haquetia:–alhalwinadas.

(Refran) Bivas tu y biva yo, y bivan todos los djudios

Biva la reina Ester ke tanto plazer mos dio.

(Vivas tu, viva eu, vivam todos os judeus/ Viva a rainha Ester, que tanto prazer nos deu)

Aman antes ke muriera / yamo a su parentera

Los puso a su kavesera /, un dia antes de Purim

(Haman, antes de morrer, chamou sua parentela, colocou-os em sua cabeceira um dia antes de Purim)

Y tu m’ijo Porata / vende la ropa barata

Y no avles kon ken tratas / en el dia de Purim

(E tu, meu filho Porata, vende a roupa barata, e não fales com quem tratas no dia de Purim)

Tal komo m’ ijo segundo/ asi tengas preto mundo

Tuerto te vayas del mundo/ en el dia de Purim

(Tal como o segundo filho, assim tenhas negro mundo, caolho te vás do mundo no dia de Purim)

Kaya tu Zeresh la loka / ke a ti avlar no te toka

Ke ansi izo la orka /, i la estreno en Purim

(Cala-te, Zeresh, a louca, que não deves falar, porque assim se fez a forca e a estreou em Purim)

Y Shimshi el eskrivano/ se matava kon su mano

No deshava gueso sano/ en el dia de Purim.

(E Shimshi, o escrivão, se matava com sua mão, não deixava osso são no dia de Purim)

Purim, Purim lanu, Pesach a la mano

Purim passou, Pessach está quase chegando. Pessach conta com um extenso repertório em judeu-espanhol. Um dos mais conhecidos é Moshe salio de Mitzraim, trecho do romance La konsagrasion de Moshe, anônimo, de tradição marroquina, que se popularizou nas diversas comunidades sefaradis. Existem canções cumulativas, tais como Ken supiese i entendiese, anônima. A canção cumulativa tem uma estrutura simples e seus versos vão sendo modificados pela adição progressiva de elementos, de modo que cada estrofe é mais longa que a anterior:

Ken supiese i entendiese
Alabar al Dio keriese
Kualo es el uno?
Uno es el Kriador
Baruch hu, Baruch shemo

Kualos son los dos?
Dos Moshe i Aron
Uno…

Kualos son los tres?
Tres muestros padres son
Dos…

Kualos son los kuatro?
Kuatro madres de Israel
Tres…

Kualos son los sinko?
Sinko livros de la Ley
Kuatro…

Kualos son los sesh?
Sesh dias de la semana
Sinko…

Kualos son los siete?
Siete dias kon Shabat
Sesh…

Kualos son los ocho?
Ocho dias de la Mila
Siete…

Kualos son los mueve?
Mueve meses de la prenyada
Ocho…

Kualos son los dies?
Dies mandamientos de la Ley
Mueve…

Uma das kantikas mais conhecidas, de autor, é a Purim, Purim lanu, Pesah a la mano, composta por Flory Jagoda (Bósnia, 1923). Purim, Purim lanu é o título de um Piyut antigo, em hebraico, composto pelo Rabi Yosef Shalom Gallego, no século 16 (Purim, Purim lanu, Baruch Asher Bahar Banu). Esta canção, muito popular entre os sefaradis do Oriente, descreve a preparação das famílias e das casas para a chegada da grande festa: preparar as matsás, cozinhar yaprakes, limpar as casas, não comer pão com fermento…

Purim purim purim lano
Pesah pesah a la mano

Las masas s’estan aziendo
Los yaprakes s’estan koziendo.

Aman aman aman aman aman
El Dio bendicho mos da mazal.

La nona ‘sta diziendo a los nietos
Alimpia el polvo, kantones i los techos

El sinior Rabbi disho a las tias
No komer pan ocho días.

Aman é uma interjeição em turco e pode significar muita coisa: Oh!, Socorro!, Tem dó! ‒  serve, enfim, para manifestar uma série de estados de espírito.

Os yaprakes são os conhecidos charutos de folha de uva, sempre relacionados à comida árabe (em árabe: yabrak). Yaprak/yabrak significa “folha”. No entanto, esse prato é consumido em toda a área do Mediterrâneo, da Grécia ao Egito, passando pela Turquia e Síria. Dependendo da região, recebe um nome diferente: dolmá (do turco dolmak – rechear ‒ e sarmá – enrolar).

Quero mostrar outra canção para Pessach, composta bem recentemente pela poetisa e jornalista israelense Medi Cohen-Malki:

Esta noche ke mos akodramos

De las maraviyas todos kantamos

Ke izo ke izo el gran poderoso

Mos salvo mos salvo del mal i del pozo

 

Refran: I dirash i dirash siempre a vuestro ijos

Este nes(*) es de kontar a muestros keridos

(*) milagre

 

Muestro puevlo en Afyito estaba

Noche i dia el siempre orava

Esklavo Esklavo fue del Rey kruelo

Demando demando salvasion del sielo

 

Muestro padre Moshe mos tomo la mano

Chiko grande ija i ermano

Mos paso en la mar entera

Mos yevo mos yevo a la Santa Tierra

Mas esklavos ya no estamos

Luz i paz solo demandamos

I siempre i siempre djuntos mos topemos

Milagros milagros ke todos veremos

Ainda há muito o que falar sobre as duas festas – músicas e comidas. Não faltarão oportunidades (si el Dio kere).

Para ler o artigo sobre Buena Semana:

http://asa.org.br/sistema/imagens-sistema/7315ASA%20ed%20127.pdf

Para ouvir o Testamento de Haman – canta Ester Roffé:

https://www.youtube.com/watch?v=B0NLT9_9YRA

Ken supiese i entendiese (com o Coral da ASA ):

https://www.youtube.com/watch?v=GfTVmdMmKc8

Purim, Purim lanu (Flory Jagoda):

https://www.youtube.com/watch?v=Vh3JU9NpI_0

Esta noche (Medi Cohen-Malki) – canta Betty Klein:

https://www.youtube.com/watch?v=vx9daIgmJ6Q

Para receitas de Yaprakes:

http://savoresdesiempre.blogspot.com.br/2006/06/yaprakes-falsos.html (em ladino)

http://esefarad.com/?p=29968 (em inglês e espanhol)

http://esefarad.com/?p=28893

Boletim nº 153 – março/abril de 2015 – Ano 26

Especial para ASA

Cecilia Fonseca da Silva

Licenciada em Letras Neolatinas e especialista em Filologia Hispano-americana, é autora de livros didáticos de Espanhol e membro do Grupo de Cultura Sefaradi Angeles y Malahines. É colunista do Boletim ASA.

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