Procuram-se maxistas

Max Yasgur

Max Yasgur

Foi por um triz. A pouco mais de um mês de sua realização, em agosto de 1969, o Festival de Woodstock quase naufragou. As negociações em Wallkill, Nova York, para alugar um terreno fracassaram e os organizadores percorriam estradas próximas, aflitos para encontrar uma alternativa. Foi quando botaram os olhos na fazenda de Max Yasgur, em Bethel. Com a mediação de Elliot Tiber, Michael Lang, o hippie irrequieto e principal articulador do festival, encontrou-se com Max num campo de alfafa dentro da propriedade. Michael estava encantado. Era o lugar perfeito para o que viria a ser o maior evento da contracultura, “três dias de paz e música”, quase meio milhão de jovens vivendo numa atmosfera de liberdade total, fraternidade e comunhão com a natureza. Tudo embalado pelo que havia de melhor no rock e na música folk dos anos 1960.  

O acordo foi fechado, apesar da feroz resistência da vizinhança conservadora, que não queria “cabeludos por perto”. Yasgur foi ameaçado. Penduraram nas proximidades de sua propriedade um cartaz onde se lia: “Não compre o leite de Yasgur. Ele gosta de hippies.” Tudo em vão. Max resistiu às pressões e o resto é História.

Um aspecto pouco lembrado sobre os preparativos para Woodstock merece destaque. Max Yasgur era um republicano conservador. Defendia a intervenção americana no Vietnã, era contra o uso de drogas, tinha hábitos severos, herdados de seus pais, imigrantes judeus russos. Apesar disso, não hesitou em abrigar uma multidão maciçamente contrária às suas ideias e ao seu estilo de vida. As interpretações de Jimi Hendrix para o hino nacional americano (quando usou a guitarra para simular metralhadoras e bombas, num manifesto musical antiguerra) e de Joe Cocker para o clássico With a little help from my friends (claramente turbinado por líquidos e ervas de todo tipo) não fariam, jamais, parte de sua discoteca básica. No entanto, defendeu o direito à contradição, à pluralidade. O breve discurso que fez aos jovens durante o festival (disponível em https://www.youtube.com/watch?v=a8eiL25BjkY) é uma comovente, e muito rara, declaração de abertura para o Outro. Ele, que jamais permitiria que os filhos fumassem um baseado, levantou os braços e, mãos com o sinal de V (paz e amor), abençoou a multidão pelo exemplo de solidariedade, organização e espírito pacífico. Com ou sem drogas. Seu “I’m a farmer” do início do discurso entrou para os anais da história da contracultura.

Xingamentos

Poster Woodstock 1969

Sam, filho de Max, definiu o que significava o conservadorismo de seu pai. “Para ele, ser um conservador significava defender o direito de os outros serem ouvidos, mesmo que expusessem ideias com as quais ele não concordava. Acreditava que, se queria ser ouvido, precisava estar disposto a ouvir.” Estranho, não? Não resisto a usar um clichê: já não se fazem conservadores como antigamente. E não apenas conservadores. A política anda sendo usada como campo de treinamento de baixos instintos. Nas manifestações de rua, ideias divergentes são recebidas a insultos, pedradas, chutes, patadas e socos. As redes sociais são usadas como ferramentas de ódio e desqualificação dos adversários. Não poderia ser diferente entre os judeus.

Um exemplo recente é o que envolveu a abortada indicação do novo embaixador de Israel no Brasil. Em atitude abertamente provocativa, o governo Netaniahu sugeriu para o posto um habitante de território palestino ocupado e que, entre 2007 e 2013,  presidiu o Conselho Yesha (responsável pelos assentamentos na Cisjordânia, considerados ilegais pela comunidade internacional). O Brasil tem posições claras: apoia as resoluções da ONU sobre os territórios ocupados em 1967 e defende a solução de dois estados para o conflito Israel-Palestina. Ao embaraço político se somou uma afoiteza diplomática. O governo israelense anunciou publicamente o nome indicado antes de submetê-lo ao governo brasileiro (como manda a norma nesses assuntos). A situação se desenhava como uma queda de braço, com Netaniahu falando grosso e flexionando os músculos para seu público interno. Do lado brasileiro, o governo teve forte apoio da comunidade diplomática (de que foi expressivo exemplo uma carta divulgada por 40 embaixadores aposentados) e do meio político. Como é de amplo conhecimento, o likudista foi forçado a recuar e cancelou a indicação.

O assunto tinha boa carga de polêmica. Ocorre que as chamadas lideranças comunitárias e os veículos de comunicação judaicos se transformaram em dóceis porta-vozes dos governos israelenses. Todos os governos. Claro que há exceções, que apenas confirmam a regra. Quem se atreve a criticar Israel, sendo judeu ou não, vira ovelha negra, não importa a qualidade dos argumentos que utilize. Os atrevidos goim estarão à beira de serem rotulados de antissemitas (aos judeus, o dedo em riste apontará “auto-ódio”). Neste ambiente, as polêmicas ficam prejudicadas.

A intolerância não tardou. O cônsul honorário de Israel no Rio se apressou a fazer uma absurda comparação entre o gesto do Itamaraty e as cruzes amarelas que os nazistas obrigaram os judeus a usar nos campos de concentração. Em resposta elegante e educada, o sociólogo Bernardo Sorj criticou as “comparações indevidas e abusivas” do cônsul, em artigo n’O Globo. Numa clara réplica, embora ardilosamente mascarada por não identificar quem atacava, o cônsul distribuiu nota pela internet, acusando Sorj de kapo e traidor. Preferiu insultar ao invés de argumentar. Serviu-se de referências traumáticas para os judeus, totalmente descontextualizadas, para iludir os desinformados e ganhar apoio, pelo medo, para suas posições. Quem perdeu foi o debate democrático. As chamadas instituições comunitárias guarda-chuvas, em âmbito estadual e nacional, calaram-se frente à agressão sofrida por um membro da comunidade judaica, que apenas usou o direito de livre expressão garantido pela Constituição brasileira.

Nas redes sociais, o que se viu foi um festival de baixarias. Quem criticou a indicação de Netaniahu foi xingado, houve gente que sugeriu que o governo israelense vetasse a entrada desses críticos no país. Comportamento miliciano, bem de acordo com a bolsonarização em marcha em parte da classe média brasileira. São falanges desarmadas (ao menos por enquanto), versão cabocla da crescente onda macarthista que varre Israel. Porta-vozes mimetizando seus gurus.  

Inclinação à direita

Leio com prazer os artigos do Henrique Samet neste Boletim. Ele é um dos que ousam desafiar os chapas-brancas do mainstream judaico. Divirjo, no entanto, quando ele sugere que há uma possível maioria silenciosa na comunidade judaica, com posições diferentes das defendidas pelas lideranças formais. Vejo nisso um wishful thinking. Depois de tantos anos trabalhando na ASA, lamento concluir que há uma forte inclinação à direita na comunidade judaica, de que é exemplo notório a exaltação pública de figuras ligadas ao pensamento ultraconservador brasileiro. Falou ou escreveu a favor de Israel? Estenda-se o tapete vermelho. Com relação ao Oriente Médio, isso repercute de duas formas principais: fortalecendo o apoio institucional às políticas expansionistas do Estado de Israel (criando a falsa impressão de que todos os judeus as apoiam) e rarefazendo o verdadeiro debate, que colocaria frente a frente, nos meios de comunicação e nos espaços institucionais, as visões diferentes sobre a região.

Num cenário tão devastado pela intolerância, fazem falta conservadores da estirpe Max Yasgur. Que falassem à vontade, sem ofender e dispostos a ouvir. Para dialogar sem a intenção de destruir o adversário. Procuram-se maxistas. Com urgência.

Especial para ASA

 

Jacques Gruman

É diretor (licenciado) da ASA.

3 Comentários

  • Responder março 1, 2016

    roberto de souza carvalho

    Importante a análise sobre a indicação do governo israelense para a embaixada no Brasil. Realmente respiramos ódio em todos os lugares (pelo menos em muitos).

  • Responder março 1, 2016

    Clara Goldfarb

    É lamentável que artigos com esse nível de qualidade, seja pelo grau de cultura e de incontestável clareza na análise de fatos políticos, sejam tão raros.
    Corajosa abordagem que repercute como caminhar em terreno minado.
    Parabéns, Jacques.

  • Responder março 2, 2016

    Luiz Felipe Oiticica Machado

    Mais uma vez, um artigo do Jacques Gruman toca em pontos essenciais para quem pretende intervir, minimamente que seja, nas questões da sociedade. Ao relembrar que um conservador não precisa necessariamente ser um troglodita, ele retoma a ideia de que dialogar com o opositor pode ser algo fecundo – com a condição de que as posições divergentes sejam mantidas, mas que se procure pontos de contato que propiciem avanços na direção da resolução de problemas. Infelizmente, parece a este observador – menos informado do que desejaria sobre as questões que separam as correntes políticas do judaísmo brasileiro – que se estabeleceu um clima nem um pouco propício ao diálogo fecundo entre as referidas correntes. O que só trará mais água aos moinhos da intolerância. E, sinceramente, se há algo que não nos faz falta, em relação aos problemas do Oriente Médio, é mais intolerância. Que o sectarismo seja posto de lado e se possa colaborar, na medida do possível, para uma paz justa e duradoura entre Israel e seus vizinhos. O que é tarefa de todos nós, independentemente de origem, crença ou não crença.

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