Compromisso comunitário

A presidente Dilma Rousseff e o ministro Jacques Wagner no Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, 27-01-20016. Foto Lula Marques, AGPT

A presidente Dilma Rousseff e o ministro Jacques Wagner. Foto Lula Marques, AGPT

Não tenho conhecimento de nenhum artigo mais atrevido gerado dentro da comunidade judaica para o público externo tentando fazer uma correlação desta com a crise política atual no Brasil.

Não seria surpresa, no meu entender, caso fosse apurado ser em sua maior parte contra o governo atual, não especificamente pelo ângulo étnico, mas pelo fato de a maior parte de seus integrantes se alinharem, do ponto de vista sócio-econômico, na chamada classe média A e B, extratos que supostamente teriam maior porcentagem de simpatizantes oposicionistas.

Mas, por outro lado, temos um segmento considerável de simpatizantes esquerdistas e mesmo ativistas políticos de origem judaica entre os defensores acerbos do governo atual que inclusive já sofreram consequências diretas dos desdobramentos da crise.

Temos também envolvidos, mais diretamente nas operações financeiras investigadas, outros tantos nomes judaicos até agora não expressamente adjetivados nesta sua especificidade.

Portanto, em tese, alguém poderia concluir que não se pode fazer uma análise de comportamento comunitário específico no assunto. Mas não é bem assim.

Perfil baixo

Não podemos esquecer certos passivos pendentes que direta ou indiretamente afetam comportamentos. As instâncias governamentais israelenses poderiam estar se congratulando frente aos infortúnios da atual crise política brasileira, pois inclusive tentaram tirar certas casquinhas do fogo. É suspeita, por exemplo, a ressurreição, depois novamente enterrada, da fracassada candidatura de um nome israelense para a embaixada no Brasil justamente nestes momentos dramáticos, bem como, no mesmo embalo, a reafirmação pelo primeiro-ministro Netanyahu dos laços com os cristãos brasileiros, num claro esforço ‒ similar ao que sucede nos Estados Unidos ‒ para arrebatar a opinião pública neopentecostal fundamentalista em favor de suas posições políticas.

O establishment judaico no Brasil, que se transformou em linha de transmissão da postura política do governo israelense, também tem, em tese, motivos para uma secreta satisfação. O fato de a nossa presidenta usar nazismo e judeus para fazer analogia com a perseguição que julga sofrer escandalizou certos círculos judaicos que justamente tratam de banalizar o Holocausto, utilizando-o como arma ideológica para defender um governo de extrema direita em Israel.

Até onde vai meu conhecimento os meios comunitários formalmente mantiveram frente ao dito público externo um perfil de participação baixo no assunto, evitando declarações escabrosas ou tendenciosas. Caso descarrilhe, deverá ser chamado a mais compostura.

Falso monopólio

No entanto, nas redes sociais o embate rola solto. Amigos, amigos da onça e inimigos, fora os desconhecidos, recheiam o meu e-mail de propaganda sectária, agressiva e passional, transbordando as linhas do bom senso, o qual, aliás, seria recomendável neste momento de radicalização feroz.

Por debaixo dos panos creio também estar acontecendo muita coisa.  Pessoalmente, fiquei com uma pulga atrás da orelha ao saber que uma das contas secretas do Eduardo Cunha, aberta no exterior, encontra-se em um banco israelense. Seu eventual proprietário ou codinome tem o título de Baruch (abençoado). Pode ser um fato aleatório, mas, quem sabe…

Pessoas de origem judaica de ambos os espectros da opinião pública podem eventualmente desvirtuar a ideia de um posicionamento comunitário a respeito. Rigorosamente, ele não existe, pois somos plurais, mas muitos pensam e agem vendo os órgãos comunitários reais e virtuais como meio para a inserção direta na política nacional.

Nada mal ter atitudes cidadãs, mas o perigo está na possibilidade de querer falsamente monopolizar uma voz comunitária que em si é fragmentada e diversificada. No caso, não existe este suposto representante do todo em assunto que não envolva a comunidade como tal. Qualquer passo nesta direção é usurpação indevida, perigo latente nos dias de hoje.

Devemos ter no horizonte o que acontece nos Estados Unidos, onde a AIPAC ficou numa saia justa em relação às candidaturas existentes, pois certos segmentos judaicos consideraram Donald Trump intragável, enquanto o big boss Sheldon Adelson, um dos mentores de Netanyahu, deu-lhe cobertura e viabilidade.

Lá existe um paradoxo evidente: enquanto tradicionalmente a maior parte da comunidade judaica se alinha aos democratas nas eleições, seus supostos representantes cada vez mais se confundem com as alas extremistas do Partido Republicano.

Em suma: não existem unanimidades no meio judaico como supostamente querem fazer crer alguns. Se é que existe um compromisso político e ético comunitário, ele deve provir de sua experiência histórica com ideologias totalitárias à direita e à esquerda, nas mãos das quais sofreu violências inomináveis.

Especial para ASA

Henrique Samet

Doutor em História e professor na Faculdade de Letras da UFRJ. É colunista do Boletim ASA. Visite o blog: http://www.henriquesamet.com/

1 Comentário

  • Responder maio 2, 2016

    SANDRA HELENA BONDAROVKSY

    Prezado Henrique,

    Parabéns pelo seu artigo. É sempre bom esclarecer a pluralidade do pensamento dos judeus ao longo da história e o sofrimento das violências sofridas com ideologias totalitárias.

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