Óbvios preocupantes

Menahem Beguin e Anuar Sadat, Assuan, 18-01-1980

Menahem Beguin e Anuar Sadat, Assuan, 18-01-1980

Após a excelente palestra do militante do Meretz em Israel Mark Levin na Associação Scholem Aleichem, em 20 de janeiro de 2015, atrevo-me, baseado nos problemas ali levantados sobre os dilemas israelenses, a fazer algumas considerações.

Eu diria que, antes da palestra, era pessimista e depois fiquei ainda mais, pois o quadro apresentado não foi nada animador. A opinião pública israelense, independentemente da fragmentação partidária, hoje em dia tende cada vez mais para a direita. Nas atuais condições dadas presumo que é quase impossível uma reversão de expectativas.

De onde pode vir uma mudança de rumo? As opções são poucas e desagradáveis. Se tomarmos por base fatos históricos, um povo só percebe os equívocos de um caminho tomado por seus governantes depois das desgraças, tragédias e sofrimentos. Enquanto sua rotina se mantiver, aparentemente nenhuma reação esboçará. Em não havendo mudança na opinião pública, a outra possibilidade seria a coerção externa, no caso, os Estados Unidos, não descartando também outros países ou instituições internacionais.

Fora destas possibilidades, resta o imprevisto. De Gaulle, eleito para não dar à Argélia sua independência, a deu. Nixon e Kissinger, eleitos para vencer no Vietnam, dele se retiraram. Quem ousaria pensar que o Menachem Beguin faria acordo com o Sadat e se retiraria do Sinai? Que o carrasco que encomendou Sabra e Chatila comandaria a retirada de Gaza? Na África do Sul os dirigentes racistas sentaram com Mandela para fazer uma transição pacífica de poder, pois perceberam a inviabilidade do caminho tomado.

Tais decisões surpreendentes resultaram, no entanto, sempre de avaliações racionais, mesmo que de direitistas, nacionalistas confessos. No caso de Israel, se perguntassem à turma de Netaniahu e adjacências qual é o plano, só receberiam como resposta dois ou três nãos. Não dividir Jerusalém; não sair dos territórios ocupados e não aceitar o surgimento de um Estado palestino independente. Duas ou três negativas não formam um plano, uma clara enunciação aonde se quer chegar. Caso o tenham (um plano), não ousam, pelo visto, expor, possivelmente pelo horror e rejeição que despertariam. Nem em termos gerais, nem nos detalhes se vislumbram possibilidades; só becos sem saída.

Neste buraco negro resta o status quo que parece ser o consenso provisório prioritário. Manter o impasse na expectativa equivocada de avançar, não se sabe para onde, fora implantar assentamentos extremistas. Não existem condições locais, apoio internacional ou assentimento do governo americano a uma aventura solitária de impor fronteiras e “paz” unilateral. Se houvesse, já a teriam concretizado.

À mercê do imprevisto

Este plano (ou sua ausência) tem fôlego? Todos os dados da realidade indicam, racionalmente, seu possível naufrágio. No entanto, é difícil prever o imprevisto, fatos novos, que mudem drasticamente o quadro. Será que algum serviço secreto no mundo previu a “Primavera Árabe”? O imprevisto, no caso, seria este governo e seus simpatizantes “caírem na real”, mas, pelo andar da carruagem, o atual governo de Israel abandonou qualquer iniciativa para construir um futuro viável através do que decide e faz, isto é, se adiantando ao fato previsível: o Estado palestino. Sendo assim, ficará à mercê de fatores que não domina.

O sionismo teve historicamente uma característica, a de saber avançar ou recuar nas circunstâncias dadas. Uma consciência de suas limitações. Quando não procedeu desta forma foi obrigado a recuar de posições por coerções irresistíveis. Foi assim desde depois da Declaração Balfour. Aceitou a criação de um reino haschemita na outra margem do Rio Jordão, quando a Inglaterra fragmentou o que era considerado Palestina; adotou a estratégia de autocontenção de 1929 em diante para caracterizar os árabes palestinos como os agressores; pensou duas vezes e colaborou com os ingleses na luta contra o nazismo; aceitou a partilha da Palestina em 1947; Igal Alon, em 1949, recuou de Rafiach para a atual fronteira de Israel com o Egito, quando aviões ingleses ameaçaram bombardear as forças israelenses; Ben Gurion, aliado a França e Inglaterra em 1956, na Guerra de Suez, após declarar a constituição do Terceiro Templo, pressupondo conquistas territoriais definitivas e derrotas do inimigo idem, sem o apoio norte-americano ou soviético, foi obrigado a se retirar do Sinai; o exército israelense saiu uma segunda vez do Sinai; saiu do sul do Líbano; saiu de Gaza. Em todos esses acontecimentos, esteve em jogo a mensuração do possível e não, digamos assim, megalomanias ideológicas.

Há um ligeiro entusiasmo dos moderados nesta futura eleição israelense, mas o essencial não é o partido vencedor, mas a coligação majoritária que gerará uma maioria parlamentar. Vendo os números, existe novamente a possibilidade de o fiel da balança serem novamente os partidos religiosos. Logo, atualmente estamos à mercê de extremistas laicos ou religiosos cuja demagogia envenenou a opinião pública israelense de pressupostos irreais.

Torço para estar equivocado. Dom João 6°, ao partir do Brasil, sussurrou ao filho: é preferível que você faça antes que um aventureiro o faça, isto é, faça o inevitável antes que outros o façam por você. Sábio conselho, se conselho ajudasse…

Boletim nº 153 – março/abril de 2015 – Ano 26

Especial para ASA

Henrique Samet

Doutor em História e professor na Faculdade de Letras da UFRJ. É colunista do Boletim ASA. Visite o blog: http://www.henriquesamet.com/

1 Comentário

  • Responder março 7, 2015

    Renato Mayer

    Acabei de ler “Um Estado, Dois Estados”, do excelente historiador israelense Benny Morris. Vai às raízes do conflito, para concluir,pessimisticamente, que não há saída para o mesmo, exceto uma hipotética fusão da Cisjordânia Palestina com o reino hashemita da Jordânia. Fora isso, prevalecerá o conflito por anos e anos, alimentados por dois nacionalismos que jamais tiveram pontos de contato. Depois da leitura, convenci-me da pouca viabilidade de um estado binacional, no qual ninguém mais acredita. Abraços e parabéns pelo artigo.

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