O nazismo na Argentina pré – 2ª Guerra

Luna Park, Buenos Aires, 1938- Maior ato nazista fora da Alemanha

Luna Park, Buenos Aires, 1938- Maior ato nazista fora da Alemanha

Apesar das negativas e dos provocadores desvios de atenção que se verificam ainda hoje, não há dúvida de que um antissemitismo virulento e galopante foi comum na Argentina dos anos 1930. Muitas publicações nessa década e até a de 1940 apoiaram e gestaram a intolerância, incentivada a partir de diversos estratos oficiais. Destacou-se em particular a revista Clarinada, publicada sem interrupção nem dificuldades entre 1937 e 1945 com a anuência de vários presidentes.

Os presidentes Agustín Justo (1932-38), Roberto Ortiz (1938-42), Ramón Castillo (1942-43), Pedro Ramírez (1943-44) e Edelmiro Farrell (1944-46) criaram na Argentina o ambiente propício, com todas as proteções possíveis e incentivo ao crescente ódio aos judeus, bem como a diferentes setores progressistas, à esquerda (em particular a comunista) e ao movimento operário, com total impunidade e autêntico descaramento. Em 1938, por exemplo, realizou-se no Estádio Luna Park, em Buenos Aires, o maior ato nazista organizado fora da Alemanha, para celebrar a anexação da Áustria ao Terceiro Reich.

A revista Clarinada, cujo aparecimento, em maio de 1937, foi um dos momentos culminantes do caldo de cultura do antissemitismo que vinha sendo gerado desde os anos 1920 ,  incluía uma raivosa declaração de princípios de seu diretor, Carlos Silveyra.  A repulsa anticomunista do pasquim complementava-se com suas ideias sobre uma conspiração mundial judaica para destruir a civilização cristã. Dizia o editorial: “Programa de luta sem quartel contra esse exército de vermes, integrado por forças aparentemente heterogêneas ‒ materialismo, liberalismo, marxismo, comunismo, socialismo, anarquismo, ateísmo, maçonaria etc. ‒, mas unidas com a mesma finalidade, qual seja a destruição da civilização cristã, em obediência ao comando que as dirige a partir das trevas: o judaísmo.”

As mensagens fanáticas e retrógradas de Clarinada, expressas tanto nas capas quanto nas matérias internas, a aproximavam do nazismo e calavam fundo entre os intolerantes que a editavam e os que durante oito anos a compraram, apoiaram e difundiram. Mensalmente liam-se ideias como: “No inverno há que prevenir-se contra a gripe, mas também contra a pior peste: o judaísmo.”

Clarinada recebeu forte apoio econômico de setores da Igreja Católica argentina e dos representantes nazistas locais. Logo na primeira edição, o porta-voz oficial do Arcebispado de Buenos Aires manifestou que a revista merecia “o mais decidido apoio de quantos alimentam a preocupação cristã e patriótica de se defender do inimigo implacável que é o comunismo”. O bispo de Santiago Del Estero também enviou a sua bênção. Mas os aplausos transcenderam a cena local. O órgão oficial do Partido Nazista alemão, Der Stürmer, elogiou a publicação lamentando “que não se estejam enterrando vivos todos os judeus, sem distinção, de modo que finalmente a paz possa reinar na grande família argentina”.

Com artigos antissemitas e racistas, incluindo discursos de Hitler e comunicados oficiais nazistas, Clarinada sempre associava o comunismo aos judeus. Para a revista, os republicanos da Espanha eram marionetes do judaísmo, e os judeus, sendo os responsáveis pela Segunda Guerra Mundial, deveriam ser exterminados. Com esse perfil, gozou de boa saúde durante muitos anos ‒ em parte graças ao constante apoio econômico  de entidades estatais ‒ até a inevitável derrota do Terceiro Reich.

Em agosto de 1945, apenas três meses depois do fechamento de Clarinada, nascia, pelas mãos do reconhecido nazista autóctone Roberto Noble, uma publicação que, com seu título, rendia homenagem a Clarinada ‒ o jornal Clarín.

Critérios

Sob o governo de Ramón Castillo deveriam realizar-se eleições, com a certeza de que uma fraude favoreceria um empresário açucareiro, homem forte de Salta, garantia de continuidade do regime corrupto. Mas, em 4 de junho de 1943,  o Grupo de Oficiais Unidos (GOU) deu um golpe de Estado e destituiu Castillo. Os principais mentores do GOU eram o coronel Juan Domingo Perón e o tenente-coronel Enrique González, oficiais do Estado Maior graduados na Escola Superior de Guerra.

O GOU não era homogêneo. Uma corrente simpatizava com os Aliados na Segunda Guerra Mundial, a outra, com o Eixo, mas ambas se uniam no marcado anticomunismo. Depois de golpes e três ditaduras, as eleições de fevereiro de 1946 conduziram Perón à presidência.

Antes, porém, durante a presidência de Ramírez, foi ministro da Educação, entre outubro de 1943 e fevereiro de 1944, o escritor Gustavo Martínez Zuviría, conhecido como Hugo Wast, simpatizante do franquismo e fervoroso militante antissemita. No prólogo de seu livro El Kahal, escreveu que a expressão “morra o judeu” era sinônima de “viva a pátria”. Nesse período, muitos docentes judeus de diferentes graus foram despedidos ou de tal forma hostilizados que renunciaram a seus cargos; foi obrigatório o ensino de religião nas escolas, e os alunos não católicos tinham que substituí-lo por aula de Moral; publicações como Clarinada e El Pampero faziam provocações, injúrias e caricaturas grotescas à vontade. Grupos da Alianza Libertadora Nacionalista agiam sob o amparo policial e judicial.

As ideias de Zuviría estavam explícitas na tetralogia antissemita El Kahal, Oro, Juana Tabor e 666. Como uma saga familiar, os dois primeiros são uma transposição para novela dos Protocolos dos Sábios de Sion, livro de cabeceira do nazismo. Inclusive na introdução da edição italiana dos Protocolos de 1937 Zuviría é citado, com uma frase do El Kahal que ironicamente diz: “Os Protocolos … são falsos, mas… têm um  desempenho maravilhoso.”  Wast sustenta, entre outras coisas, que “a crise de 1930 é  uma vasta manobra judaica para afogar a civilização cristã” e que “os escritores judeus estragaram o sangue do mundo cristão injetando-lhe o veneno do liberalismo. O liberalismo nas finanças, o liberalismo na política, que é o sufrágio  universal; o liberalismo na religião, isto é, o ensino obrigatório e ateu”.

Os chanceleres de todos os governos entre 1932 e 1946 foram neutralistas, com simpatias  pró-Eixo ou pró-Aliados. No entanto, todos, no tocante à entrada de refugiados políticos e raciais, tiveram uma atitude negativa, agravada a cada governo. Os critérios utilizados para aceitar os perseguidos ou restringir a imigração ‒ estavam expressos em decretos, regulamentos e circulares às representações no exterior ‒ foram, em geral, prejudiciais à proteção daqueles que fugiam da perseguição e do extermínio. Destacam-se o decreto  número 8972 (agosto de 1938) e a Circular Reservada 11 (12 de julho de 1938), em que a Chancelaria dava instruções fortemente contrárias à autorização de entrada para perseguidos políticos e raciais. Havia, contudo, sérias diferenças entre o Ministério da Agricultura (Migrações), mais permissivo, e a Chancelaria, fortemente restritiva.

Além dos inúmeros entraves ‒ a cota, tal qual estabelecida na Conferência de Evian, em 1938, era um deles ‒ à entrada de judeus que tentavam escapar da guerra e do nazismo, ainda se acrescentavam exigências até aos que reuniam os pré-requisitos. Muitos desses imigrantes acabavam entrando ilegalmente via Paraguai, Brasil ou Uruguai. Os portos no Rio Uruguai (Colón, Concepción del Uruguay, Concórdia, Gualeguaychú) registraram um importante tráfico clandestino de pessoas (com a cumplicidade de canoeiros, barqueiros, contrabandistas e prefeituras), dada a proximidade das colônias judaicas  na província de Entre Ríos, onde os recém-chegados eram acolhidos.

A classe dirigente argentina na época ‒ militar, eclesiástica, empresarial, civil ‒ simpatizava com o nazismo e tinha uma postura claramente antissemita.

Especial para ASA

 

Daniel Silber

Professor na província de Santa Fé (Argentina). É colunista do Boletim ASA.

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