O Holocausto *

Cartaz comemorativo do 5º aniversário do Levante do Gueto de Varsóvia

Cartaz comemorativo do 5º aniversário do Levante do Gueto de Varsóvia

O Holocausto provavelmente já é o mais importante acontecimento no panteão da memória judaica. Junto com o horror no vislumbre de até onde pode chegar a barbárie humana, gerou uma reação jurídica/moral conceituando e criminalizando o genocídio e suas causas, permitindo analogias com outras realidades similares.

Mas, por outro lado o Holocausto pode ser vivido e sentido entre judeus  somente em uma dimensão afetiva/subjetiva e particularista como um evento único, inigualável, incomparável, inalcançável, intransmissível e não compartilhável. Algo telúrico o qual, para certos segmentos judaicos, o gentio seria incapaz de entender e alcançar no mesmo grau e intensidade.

Ninguém pode sentir a dor que sinto, sofrer como sofri, saber o que sei. Em um seminário do Yad Vashem, uma professora famosa defendeu a tese da incomensurabilidade do Holocausto, algo maior que o genocídio, sem possibilidade de avaliações e comparações, um espaço privativo, não sujeito a uma regulação comum de sentido no qual o outro fica desautorizado de intervir. O Holocausto é meu e somente é permitido e acessado mediante uma submissão incondicional. Ficamos impedidos de fazer analogias como um dos meios mais comezinhos que o homem tem de fazer o cálculo sobre o certo e o errado, sobre juízos de valor.

Este privatismo se manifesta por diferentes formas. Até hoje, em determinadas gerações, muitos judeus, por causa do Holocausto, sentem sempre um constrangimento interior ao se defrontar com um alemão ou viajar à Alemanha. Embora compreensível e espontânea, tal emoção não deve interferir no trato com este outro, que, objetivamente, não é nazista, não pensa como um nazista, não viveu as atrocidades, não teve participação nem foi ou é cúmplice delas.

A dor passada  ou uma dor presente, vista como análoga, pode gerar, por exemplo, desejos de vingança privada compreensíveis, mas que a atual convenção civilizada condena.

Esta autoclausura  tende a exacerbar a percepção de que os judeus só podem confiar em si mesmos. Hoje em dia é comum em certas faixas da opinião pública israelense e judaica a certeza de que  importa não o que os goím dizem, mas o que os judeus fazem, sob o argumento de que “(…) eles, [poloneses, russos, americanos, etc.] não nos ajudaram [na 2ª Guerra Mundial]; “(…) Nunca estaremos seguros entre os gentios”; “ (…) perseguidos, expulsos de um país para outro, “ (…) amontoados em guetos” (…) nos negaram os direitos de cidadãos”; fomos “(…) forçados a lutar por nossa própria existência …”; mesmo com a morte de milhões dentro dos muros do gueto “ (…) eles caíram, e em vez disso o Estado de Israel hoje existe. Este estado de espírito não é, em si, obrigatoriamente carregado somente de negatividade. Foi utilizado para justificar politicamente a criação do Estado de Israel, mas segue além, e hoje é utilizado para desdenhar das posições políticas estrangeiras e também de israelenses e judeus que não partilham das posições governamentais, postura que tanto expõe intolerância quanto uma arrogância isolacionista e um irrealismo perigoso.

Politicamente correto

No terreno do subjetivo e do particularizável tudo é possível e são cabíveis todas as pulsões. Pode-se fantasiar, imaginar, transitar e ultrapassar todos os interditos e convenções, pois o que pensamos ou sentimos é a maior expressão da liberdade anárquica e controversa que também nos compõe. Mas esta legitimidade inata se relativiza à medida que nos aproximamos da realidade. A dor privada não gera de per si privilégios. Ter sofrido não implica o direito de tudo poder ou supor que ninguém tem moral para exercer uma função crítica a respeito. Esta “superioridade inata” é uma teoria da sobrevivência polêmica e enviesada. Nada indica que o sofrimento seja o caminho para um mecânico aperfeiçoamento moral. Provavelmente para muitos dos sobreviventes do Holocausto, depois de assistirem e sentirem na carne até onde se pode chegar, acreditar de novo na possibilidade de haver bondade humana foi um difícil caminho de volta.

Zomba-se do politicamente correto, mas ele é uma exigência de uma convivência não barbarizada. Alguns manipulam estes sentimentos  para liberar todo tipo de transgressão contra o outro, inclusive a de cunho racista, dividindo o mundo entre os que  valem mais (os meus) e os que valem menos (os outros).

O que se convencionou chamar de Humanismo gerou um filão do qual surgiram ou se inventaram lentamente, em certas partes do mundo, ideias de dignidade humana, utopias de liberdade, igualdade e fraternidade, cidadania, equalização de oportunidades, direitos, proteções, projetos de paz, formas de dirimir conflitos etc., às quais, creio, pretensamente aderimos com ênfases maiores ou menores. Para sermos minimamente coerentes, ninguém pode exigir o direito à vida gritando, de diferentes modos, viva a morte alheia.

Se transformarmos o Holocausto em um universo emparedado, terminará desumanizado. A natureza humana do Holocausto implica sua contínua reelaboração em meio à vida, e também sua contínua instrumentalização com os cuidados devidos. Nele convivem a memória histórica e coletiva judaica, mas também a história crítica, vetores que nem sempre convergem, mas servem de contrapeso um ao outro.

Quando escrevi meu primeiro artigo sobre o Levante do Gueto de Varsóvia, afirmava a revolta como uma unidade alcançada e desejada entre judeus frente a situações-limite e extremas e a comparava com a incapacidade posterior de manter a rememoração daqueles fatos com a mesma unidade na comunidade judaica do Rio de Janeiro.

Quimera

Supunha a unidade frente à ameaça antissemita uma verdadeira expressão da necessidade, mas hoje constato que o pressuposto é uma construção ideológica fora da realidade  judaica. O que é singular na Bíblia senão a briga entre a vontade de Deus e a vontade dos homens?! Dos profetas contra a monarquia?! Falar de Massada e da revolta contra os romanos sem falar da guerra civil que grassou ao mesmo tempo e do rabino Iochanan Ben Zacai é, por exemplo, uma redução forçada. Idealizar a Guerra de Independência esquecendo o episódio do Altalena segue pelo mesmo caminho.

A desunião, a divergência, não devem aqui ser interpretadas como uma megera. No Paraíso não havia História. Logo, a diversidade terrena entre facções é o estado de normalidade humana e judaica. Supor a quimera de uma desejável unidade como necessidade realizável imediata está mais próximo do pensamento teológico e do teleológico.

A história da história e da memória destes dois eventos, Holocausto e Levante do Gueto de Varsóvia, também se constituiu e se constitui em uma guerra de versões entre diferentes tentativas de explicações unitárias. Umas condensam, aplainam e eliminam arestas para poder apresentar uma espécie de bloco narrativo homogêneo e hegemônico, natural e lógico, enquanto outras  intervenções críticas desestabilizadoras questionam estas harmonizações.

Os sobreviventes do Holocausto nem sempre tiveram tratamento condigno ou adequado. Em um depoimento logo após o fim da guerra, notou um deles, quando interrogado, que o interrogador se interessava mais pelos mortos e menos por ele. Em muitas circunstâncias os sobreviventes foram motivo de suspeitas. Minha sogra, no Brasil, se deparou, por exemplo, com uma espécie de curiosidade mórbida por sua inscrição no braço. Vigorou uma espécie de interdito em que não era de boa praxe estimular a abordagem deste passado, calando os sobreviventes quando mais necessitavam de expor seus traumas e terrores. Filhos e familiares desconheceram completamente  o passado terrível de um de seus entes,  por causa do silêncio imposto na família.

Do sionismo emanaram aproximações com a tragédia, mas também distâncias. Sem dúvida o Holocausto tornou o projeto sionista candente, urgente, justificável e viável, mas não devemos esquecer que o novo homem sionista ou o seu conceito foi em parte administrado como a necessária negação do judeu galútico. Golda Meir falava com desprezo do shteitl. Sionismo e Holocausto não se encaixam de per si como necessárias convergências históricas. Não são “o aconteceu que deveria ter acontecido”.

A expressão “não iremos como gado ao matadouro” teve uma leitura dúbia. Certos segmentos dentro e fora de Israel fizeram dela uma acusação subjacente a uma suposta passividade das massas judaicas que foram levadas aos campos de extermínio “como ovelhas para o matadouro”. Na então Palestina se consolidava, segundo Uri Avneri, a autodenominação de tudo criado localmente como hebreu para se diferenciar de judeu, tomado como expressão de algo menor.

Foi Ben Gurion, depois do episódio das indenizações, quem, com o caso Eichmann, trouxe de fato para a cena israelense definitivamente a memória do Holocausto. Governos posteriores a transformaram à larga em precioso recurso ideológico e propagandístico, despertando internamente o espectro do medo e da ameaça existencial indistintamente. O assassinato de Rabin foi antecedido, por exemplo, de feroz propaganda que o representava como nazista. A oposição aos atos dos governos, principalmente os do Likud, foi bombardeada por uma propaganda feroz que a apresentava (e apresenta) como antissemita, favorável a um novo Holocausto, como aconteceu durante os sucessivos conflitos em Gaza!

Os judeus não foram e não são na História sinônimo de uma unidade indivisível. Na própria trajetória do Levante do Gueto de Varsóvia houve cisões, oscilações, reviravoltas, e, se não as houvesse naquele turbilhão sujeito a sucessivas escolhas de Sofia, seria de estranhar. Nossos verdadeiros heróis foram de carne e osso.

* Tema da palestra do autor na mesa sobre Holocausto e resistência judaica, que fez parte do Seminário 70º Aniversário do Fim da Segunda Guerra Mundial, realizado na ASA em agosto.

Especial para ASA

Henrique Samet

Doutor em História e professor na Faculdade de Letras da UFRJ. É colunista do Boletim ASA. Visite o blog: http://www.henriquesamet.com/

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