O cancioneiro sefaradi (elucubrações peninsulares)

cantigas de amigo 1Assim como as coplas e os romances, as canções sefaradis têm suas raízes na Espanha medieval. Os judeus expulsos em 1492 levaram consigo, a suas novas diásporas, o repertório musical herdado da sua convivência com cristãos e árabes. Durante mais de 500 anos transcorridos desde então, o repertório musical sefaradi foi sendo influenciado pelos estilos musicais dos povos por cujos países passaram ou nos quais se estabeleceram.

Com a invasão moura em 711, o mundo hispânico medieval adquire características muito particulares. Aos cristãos e judeus unem-se os árabes. Formam-se outros grupos étnicos: os mudéjares – árabes que vivem em território cristão; e os moçárabes – cristãos que vivem em território árabe e que falam um dialeto próprio, o moçárabe, hoje extinto. É nesse contexto que surge a lírica peninsular, com suas três vertentes: a moçárabe, a galego-portuguesa e a castelhana.

A lírica moçárabe compõe-se das jarchas, cançõezinhas que os poetas árabes e judeus utilizavam para finalizar seus poemas cultos. São anônimas e estão escritas em dialeto moçárabe. São canções amorosas, muito sensuais; nelas, uma mulher se lamenta pela ausência do amado. As jarchas tiveram vida ativa a partir do séc. 11 até o séc. 14. Alguns exemplos de jarchas (a tradução é minha e é muito livre):

Tant’amare, tant’amare,

 Habib, tant’amare,

Enfermaron uelios gaios,

E dolen tan male

(Te amo tanto, querido, te amo tanto, que meus olhos alegres adoeceram e doem muito)

 

Responded meu Cidello venid

  • ¿tan bona l’bisara?
  • Como rayo de sol exid

en Wad al-jayara.

(Responda, meu senhorzinho, se você vem. As notícias são boas? Você sai como um raio de sol em Guadalajara)

 

¡Non me mordas, ya habib!

¡La!

No quero daniyoso

Al-gilala rajisa. ¡Basta!

A toto me rifyuso.

(Não me morda, meu amado, não me machuque. Meu corpinho é frágil. Basta! A tudo me recuso)

 

A lírica galego-portuguesa é um pouco mais complexa que a lírica moçárabe. Não são poemas anônimos. Os autores são oriundos de todas as classes sociais, que vão desde reis até clérigo e jograis. A composição poética é a cantiga. São três os tipos desta lírica: as cantigas de amor, nas quais o homem se refere à sua amada como uma figura idealizada; as cantigas de amigo, nas quais é a mulher que sofre pela ausência do amado; e as de escárnio ou maldizer, nas quais sobressaem a sátira e o sarcasmo. As cantigas de amor e as de escárnio ou maldizer tiveram origem na Provença; já as cantigas de amigo são genuinamente peninsulares. O autor assume o “eu” da mulher que canta seu desgosto de amar e desabafa com a mãe, a irmã ou a amiga e, muitas vezes, com a natureza. Estão escritas em galego e se relacionam com o ambiente marítimo da Galícia. As cantigas de amigo datam do séc. 12 ao séc. 14. Autor: Martín Codax (meados séc. 12 – início séc.13):

Mia irmana fremosa

Mia irmana fremosa, treides comigo

a la ygreia de Vigo, u e o mar salido.

E miraremos las ondas.

 

Mia ermana fremosa, treides de grado

a la ygreia de Vigo, u e o mar levado.

E miraremos las ondas.

 

A la ygreia de Vigo, u e o mar salido

e verra i mia madre o meu amigo.

E miraremos las ondas.

 

A la ygreia de Vigo, u e o mar levado

e verra i mia madre o meu amado.

E miraremos las ondas.

(Minha irmã formosa, vem comigo à igreja de Vigo, onde o mar está agitado. E olharemos as ondas./ Minha irmã formosa, vem de boa vontade à igreja de Vigo, onde o mar está enfurecido. / À igreja de Vigo, onde o mar está agitado, ali virá, minha mãe, o meu amigo. / À igreja de Vigo, onde o mar está enfurecido, ali virá, minha mãe, o meu amado) – tradução livre, minha.

A lírica castelhana é composta por canções e villancicos (vilancetes ou vilancicos, em português), que datam do séc. 15 até finais do séc. 17. A palabra villancico deriva de villano, denominação dada aos habitantes das aldeias ou vilas, que cantavam esse tipo de composições. Podem ser anônimos ou de autor. Estão escritos em espanhol medieval e possuem, em geral, a mesma temática amorosa das jarchas e das cantigas galego-portuguesas, mas apresentam maior variedade de temas, como por exemplo, as albas, que contam o encontro ou despedida dos amantes ao amanhecer, e as mayas, que comemoram a chegada do mês de maio. A voz já não é somente feminina; pode ser também masculina, e nem sempre se sofre por amor. Atualmente, o termo villancico denomina somente um gênero de canção referente ao Natal.

É melhor sofrer

Um dos mais importantes representantes do cancioneiro lírico castelhano dos séc. 15-16 é Juan del Encina (1469-1529). Trata-se de uma figura bastante controversa. Era cristão novo? Não se tem absoluta certeza. Em várias biografias aparecem observações como: “(…) de padre zapatero, probablemente de origen judio”; “(…) se decía que eran cristianos nuevos (…)”; “(…) si tenemos en cuenta que Encina era un cristiano nuevo(…)”, e assim por diante. Mistério… Curiosamente, Encina sempre viveu à sombra do cristianismo. Foi menino de coro, foi protegido dos duques de Alba, e, com cinquenta anos, quando foi a Roma, ordenou-se padre. Fez peregrinação a Jerusalém e voltou à Espanha, onde morreu. A canção Más vale trocar aparece com frequência no repertório sefaradi. Aqui não temos mais a donzela sofredora, mas alguém, homem ou mulher, que prefere sofrer a estar sem amor:

Más vale trocar

plazer por dolores

que estar sin amores.

(Mais vale trocar prazer por dores, do que estar sem amores)

 

Donde es gradecido

es dulce el morir;

bivir en olvido,

aquél no es bivir;

mejor es sufrir

passión y dolores

que estar sin amores.

(Se você é agradecido é doce morrer; viver no esquecimento, isso não é viver; melhor é sofrer paixão e dores, do que estar sem amores)

 

Es vida perdida

bivir sin amar

y más es que vida

saberla emplear;

mejor es penar

sufriendo dolores

que estar sin amores.

(É vida perdida viver sem amar e é mais do que vida sabê-la usar; melhor é penar sofrendo dores, que estar sem amores)

 

La muerte es vitoria

do bive aflición,

que espera aver gloria

quien sufre passión;

más vale presión

de tales dolores

que estar sin amores.

(A morte é vitória onde vive a aflição, esperando haver glória quem sofre por paixão; é melhor a pressão de tais dores do que estar sem amores)

 

El ques más penado

más goza de amor,

quel mucho cuydado

le quita el temor;

assí ques mejor

amar con dolores

que estar sin amores.

(Quem sofre mais, ama muito mais, quem tem muito cuidado não tem medo; mas é melhor amar com dores do que estar sem amores)

 

No teme tormento

quien ama con fe,

si su pensamiento

sin causa no fue;

aviendo por qué

más valen dolores

que estar sin amores.

(Não teme sofrimento quem ama com fé, se seu pensamento não teve uma causa; se houver razão, mais valem as dores, do que estar sem amores)

 

Amor que no pena

no pida plazer,

pues ya le condena

su poco querer;

mejor es perder

plazer por dolores

que estar sin amores

(Amor que não sofre não deve pedir prazer, pois seu pouco querer o condena; é melhor perder prazer por dores, do que estar sem amores) – tradução mais do que livre, minha.

É este o panorama literário e musical da Espanha que os judeus deixaram para trás. Deixaram para trás, mas não lhe deram as costas. Vamos continuar com o assunto, já que existem outras muitas manifestações amorosas. Quando falamos de assuntos amorosos, é preciso olhar em várias direções, pois homens e mulheres passam por situações nas quais o amor tem papel fundamental. A continuar, já em terras alheias.

 

Para ouvir:

Jarcha (com o conjunto de Eduardo Paniagua):

Cantiga de amigo – Mia ermana fremosa (com o Grupo Universitário de Câmera da Universidade de Santiago de Compostela:

https://www.youtube.com/watch?v=Q_1EDSpz-fE&NR=1

Outra cantiga de amigo (autor: Pedro Gonçalez Portocarreiro) – sem indicação dos intérpretes):

https://www.youtube.com/watch?v=1M_VcqHoQ1M

Más vale trocar (Juan del Encina – com Fortuna – álbum Mazal)

https://www.youtube.com/watch?v=xI2AgGeWmJA

Boletim nº 154 – maio/junho de 2015 – Ano 27

Especial para ASA

Cecilia Fonseca da Silva

Licenciada em Letras Neolatinas e especialista em Filologia Hispano-americana, é autora de livros didáticos de Espanhol e membro do Grupo de Cultura Sefaradi Angeles y Malahines. É colunista do Boletim ASA.

1 Comentário

  • Responder maio 3, 2015

    Nelson Menda

    Cecilia continua nos surprendendo com suas pesquisas originais sobre o cancioneiro medieval ibérico

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