Novo desafio e provocação

Yossi Sheli

Yossi Sheli

Temos pela frente nova tensão diplomática entre Brasil e Israel com a publicação da indicação extraoficial e não diplomática de um embaixador (Yossi Sheli) com ficha suja, (falsidade ideológica, conforme definição de uma fonte do governo brasileiro) noticiada hoje (27/09/2016) no jornal O Globo.

Parece provocação, e deve sê-lo, pelo que indicam os movimentos iniciais. O Temer, para fazer média, se encontrou com Abbas na ONU, e o novo governo, apesar de menos hostil a esse governo israelense, recebendo aqui a desequilibrada ministra da Cultura israelense com direito a foto do Serra e com o nosso sempre risonho establishment comunitário, não fará formalmente, ao que tudo indica, nenhuma mudança radical de posição com relação ao conflito israelense-palestino. Por debaixo dos panos, eu não sei.

Ora, nada impediria a indicação de um diplomata de carreira para o cargo, depois de tantos entreveros anteriores.

Para variar, nossos supostos representantes comunitários provavelmente vão fazer lóbi, silencioso ou escandaloso, endossando esta indicação. Alguém certamente indagaria: poderia ser diferente?

Em minha opinião, sim, pois não se trata de mera rotina burocrática, mas de uma clara indicação política para lá de tendenciosa, e o mínimo que nossos ditos e supostos representantes poderiam fazer seria ficarem calados ou se omitirem na questão, respeitando a provável falta de consenso interno na comunidade a respeito.

Novamente estará exposta a crucial questão sobre a relação de órgãos comunitários com governos (e não Estado) de Israel. Espero, embora com ceticismo, que ninguém ouse falar a respeito do assunto em nome de um todo unificado como se ele existisse. Aliás, formalmente, as duas chapas que disputaram as eleições na FIERJ nem de longe chegaram a abordar o assunto, dando prioridade a trivialidades óbvias.

Já me explicitando como sionista roxo, devo dizer que esse governo é uma ameaça tanto a esta ideologia quanto à própria existência do Estado de Israel, e o que resta fazer é abrir fogo contra este segmento ultranacionalista, fundamentalista, antidemocrático, racista, beirando outros istas lamentáveis.

Por outro lado, quero ver como os grupos antiestablishment vão se relacionar com o assunto além do tradicional ti-ti-ti pelas redes sociais sem nenhuma repercussão real na arena política comunitária.

Especial para ASA

Henrique Samet

Doutor em História e professor na Faculdade de Letras da UFRJ. É colunista do Boletim ASA. Visite o blog: http://www.henriquesamet.com/

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