Boicotes

Netaniahu na Knesset

Até onde vai meu conhecimento, boicotes recentes e antigos que foram executados contra a Alemanha depois da Primeira Guerra, Cuba, a Rússia atual, o Irã atual e, anteriormente, a África do Sul afetaram estes países e, no caso limite, como a África do Sul, foram fator de peso para a mudança de regime.

A ideia de boicote como instrumento é amoral, isto é, não tem conotação em si, e as considerações a respeito de sua moralidade dependem da defesa ou ataque a seus propósitos. O que o governo israelense praticou e pratica em Gaza também pode ser considerado boicote, e não duvido de que tem seus defensores como também seus críticos.

Aqueles que se aferram à luta contra o boicote ao Estado de Israel, no meu entender, travam uma batalha que será gradativamente perdida, caso nada mude no panorama político local. Crescentemente eles, os boicotes, se manifestam, juntamente com outras atitudes de governos e países, por exemplo reconhecendo o Estado palestino. Pensar nisto como moda passageira é crime. Estas duas reações entrelaçadas desgastam e desgastarão a posição israelense atual, aumentando cada vez mais o seu isolamento. E quando o lado que as sofre chia, mostra que passou recibo sobre suas consequências, ou melhor, sobre sua efetividade como instrumento. Enfim, enquanto houver imobilismo no lado israelense, a chance de este tipo de movimento crescer é cada vez maior. O lugar comum diz: não há vácuo em política e é isto o que acontece.

A esquerda sionista israelense se manifesta majoritariamente contrária a estas ações sob o pretexto de que o boicote é um instrumento indiscriminado que afeta a todos, inclusive a própria esquerda local. Outro dos argumentos, utilizado, por exemplo, por Caetano Veloso ao não atender ao pedido de Roger Waters para que cancele sua turnê em Israel, é o de que o isolamento político israelense seria contraindicado para aqueles que desejam alguma saída para a região. Celso Lafer expôs, de forma interessante, que se opõe à política do atual governo israelense, mas que o boicote irrestrito não seria válido, denunciando, tal como a esquerda sionista israelense, a falta de distinção entre justos e pecadores e a não diferenciação entre Estado e governo nesta forma de agir.

O boicote irrestrito, na minha concepção, é um dos desdobramentos da corrosão da legitimidade do Estado de Israel, ameaça que sempre abordamos como a maior de todas, e que sabota todo o trabalho das gerações que nos precederam. Judeus e sionistas podem se sentir incomodados com tais ações, inclusive porque algumas delas carregam no refrão antissionista e, em certos casos, chegam a uma postura antissemita, mas esta forma de ação não é dela sinônimo obrigatório.

Vai ser inútil combater no atacado esta posição pró-boicote, e muitos se iludem, ainda, com alguma vitória provisória aqui e ali. Fazem elegias à Micronésia, único país, fora os Estados Unidos, que votou na assembleia da ONU a favor de Israel no caso do reconhecimento palestino. É mais ou menos por aí.

Surdez

Se não houver mudança no status quo da política israelense, a tendência será um aumento crescente destes movimentos, e a questão deixará de ser a sua existência para ser a existência de um Estado judeu. A atual posição governamental israelense, assim como de seus adeptos, vai se tornando a de espectador passivo que esbraveja sentado, imóvel, e que renunciou a ser personagem ativo de seu destino entre as nações. Prefere chamar a todos de antissemitas como se isto fosse uma solução. Assim, o jogo passou a ser jogado somente do outro lado, entre forças que estão além de seu campo e de suas ações. Virou Caetano versus Waters com Klabin de espectador.

Portanto, uma definição a favor ou contra não tem nenhuma validade para resolver o âmago da questão, e é mais coerente pensar adiante sobre o que fazer ante seu crescimento inevitável. O boicote é sempre do outro e sobre este outro não temos controle.

Sei que a questão afeta amigos meus em Israel e fora de Israel que sempre foram contra assentamentos e Cia. e que se sentem inequivocamente ofendidos com esta atitude que tende a ver Israel como um todo indivisível, desconhecendo seus meandros políticos. Mas os aconselharia a pensar comigo sobre as pesadas derrotas do bloco de centro-esquerda em sucessivas eleições e a ascensão, na opinião pública, de um majoritário bloco direita/extrema-direita, completamente surdo aos clamores de mudança.

Temos que pensar juntos de onde virá a “salvação”. Brotará novamente no seio dos eleitores israelenses? Se alguém hoje respondesse que sim, eu o chamaria de otimista fanático ou sonhador. Vejam a resposta de Waters ao Caetano.

Infelizmente, talvez só fatos externos e no limite catastróficos, como o boicote, levem o eleitorado israelense a uma nova reflexão. Não vejo razão para inflexões dramáticas no eleitorado israelense quando tudo está aparentemente bem e o medo é a maior arma da propaganda governamental. Para que mudar o que estaria supostamente dando certo?

Portanto, as pauladas podem intimamente nos desgostar, contudo a verdadeira pergunta não é sobre sua existência, mas sobre sua óbvia eficiência em causar estragos, em uma conjuntura na qual o governo israelense se recusa obstinadamente a mudar de atitude.

Pensar alto sobre o assunto é necessário, e alguém mais irônico poderia perguntar: como reagiria um estrangeiro interessado no assunto ao ler a declaração de Moshé Yaalon de que o conflito israelo-palestino só será resolvido em outra geração? Com este tipo de arrogância, dona do tempo, o dito poderia fazer um paralelo com outro personagem que dizia que seu império iria durar mil anos!

Pelo andar da carruagem, a medida para se avaliar boicotes a Israel e reconhecimentos do Estado palestino não é contestá-los, pois é de nenhuma valia, e sim tomar pé no grau de ameaça de deslegitimação que a imobilidade política israelense desperta.

Todo judeu e sionista sincero deveria pensar em uma inflexão de atitude. Em vez de condenar as reações plausíveis, como o boicote e o reconhecimento do Estado palestino, deveria utilizar seu poder de pressão efetivo sobre o governo israelense, fonte de todos estes desdobramentos.

Especial para ASA

Henrique Samet

Doutor em História e professor na Faculdade de Letras da UFRJ. É colunista do Boletim ASA. Visite o blog: http://www.henriquesamet.com/

2 Comentários

  • Responder julho 10, 2015

    Moshe Waldmann

    Samet, o sentimento de medo é sem dúvida usado na propaganda eleitoral governamental, mas deriva de fatos totalmente fora do controle do governo de Israel, que você não mencionou em seu texto e que estão inculcados no consciente e no inconsciente dos israelenses – atentados suicidas, mísseis lançados sobre a população de forma indiscriminada, combates e bombardeios entre facções que se multiplicam a cada dia em países vizinhos. Prisioneiros degolados nos noticiários da televisão. Na hora de votar, isto tudo aflora e o resultado das eleições é o que temos visto.
    Estive no Golan há pouco tempo, vendo cogumelos de explosões e ouvindo rajadas de metralhadoras do outro lado da fronteira. Algo extremamente desagradável. Conversei com drusos sírios, habitantes do Golan, que passam as 24 horas do dia vivendo nesta atmosfera surreal e que me disseram que não mais fariam demonstrações contra a ocupação israelense e que respiravam aliviados por estarem sob proteção israelense. Surreal ao quadrado…
    Finalmente, sua comparação do Moshé Yaalon com outro personagem que dizia que seu império iria durar mil anos é extremamente infeliz. Dizer que o conflito não será resolvido na sua geração é lugar comum aqui, seja entre israelenses seja entre palestinos. Yaalon tem 65 anos de idade, já foi de esquerda (Noar haoved vehalomed e kibutz Grofit) e hoje é de direita. Já passou por períodos de esperança e de decepção, como todos nós aqui. Infeliz comparação.

  • Responder julho 20, 2015

    Jacques Gruman

    Excelente artigo, Samet. Foge, com elegância, das frivolidades repetidas pelos analistas chapa branca da comunidade judaica.

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