Neonazistas e turismo

Crédito - Inadí Rio Negro

Apelo ao boicote – Foto Inadí Rio Negro

Lá pelos fins dos anos 1960 e início dos 70, o obscuro docente de Economia ultradireitista da Universidad de Buenos Aires Walter Beveraggi Allende elaborou e difundiu  o libelo intitulado Plano Andínia. Era uma  nova versão (atualizada para aquele momento) de outro pasquim que tanta difusão teve (e tem), Os protocolos dos Sábios de Sion, forjado pela Okhrana, a temível polícia secreta tsarista, no comecinho do século 20.

O conteúdo antissemita dos Protocolos é conhecido: difamatório, insultuoso e agressivo. Baseando-se nas mais velhas e vulgares tradições judeufóbicas, sistematizava-as e atribuía aos judeus como um todo a responsabilidade pela crise de um tsarismo decadente, ao  mesmo tempo inventando um plano de domínio mundial. Publicado pela primeira vez em 1902, o folheto servia para, entre outras coisas, justificar os terríveis pogroms, já que o texto seria uma espécie de transcrição de supostas reuniões dos “sábios de Sion” em que estes planejavam uma conspiração judaica para tomar o poder mundial. Evidentemente o texto tratava os judeus como se fossem um todo homogêneo, sem considerar que no interior das comunidades ocorria uma intensa  luta de classes, dos mais diversos matizes. Por acaso seriam iguais banqueiros como Rothschild ou industriais açucareiros como Brodsky e os pobres alfaiates, músicos, operários, vendedores ambulantes, carpinteiros, professores de guetos e shtetls? O que tinham em comum revolucionários marxistas como Sverdlof, Trotsky ou Zinoviev com o sionismo de Herzl? Por acaso as posturas reivindicatórias e secularistas do ídish, levantadas por Peretz, Scholem Aleichem, Zhitlovsky, não iam contra a religiosidade estreita da sinagoga?

Dessa forma, de uma canetada só, desqualificava-se  o capitalismo, o socialismo, o liberalismo, os judeus, e se cantavam loas ao conservadorismo reacionário de uma monarquia absoluta corrupta e em vias de degeneração, que descarregava toda a impotência de sua fúria nos setores mais desprotegidos da sociedade: as minorias (os judeus) e os trabalhadores.

O nazismo reciclou esse material, somando à vulgaridade e ao primitivismo do primeiro texto supostas bases científicas de racismo. Essas teorias vinham sendo elaboradas por escritores e publicistas franceses, alemães e britânicos (católicos ou protestantes, como Gobineau, Chamberlain, Maurras), e davam forma ao que já fazia parte do patrimônio cultural de amplas maiorias: a judeufobia.

Assim nasce o antissemitismo do século 20: produto de quase dois mil anos de prédicas das igrejas cristãs em torno da alegada responsabilidade dos judeus na morte de Jesus, é dotado de uma base supostamente sustentada na ciência para evidenciar a pretensa inferioridade de algumas raças, sua condição sub-humana e a necessidade de que as raças superiores exterminem as inferiores em nome da pureza.

Esse foi o arsenal ideológico com que personagens como Alfred Rosenberg, alto funcionário e ministro do regime nazista entre 1933 e 1945, construíram os  pilares do acervo ideológico-político hitlerista, tais como a perseguição aos judeus, identificação e ataque à influência judaica na cultura alemã, registro da história do judaísmo de uma perspectiva antissemita, e a “pureza da raça”, temperados com uma forte dose de anticomunismo e antiliberalismo. O final dessa pregação, todos conhecemos: Auschwitz, cujo 70° aniversário de libertação pelas tropas soviéticas do Exército vermelho é comemorado este ano.

A forma como foi se elaborando o antissemitismo constituiu um dos pilares da teorização de Beveraggi Allende. Segundo ele, os judeus ‒ assim  mesmo, “os judeus” em sua totalidade ‒ teriam elaborado o chamado Plano Andínia, que consistia num suposto complô para desmembrar a Patagônia da Argentina e do Chile e lá criar outro Estado judeu. Essa hilariante teoria, relativamente recente, baseia-se na menção de Theodor Herzl, em seu livro O Estado Judeu, à possibilidade da compra de terras na Palestina ou na Argentina. De acordo com a teoria da conspiração, o plano teria sido imaginado no Congresso Sionista de Basileia, Suíça, em 1897.

Beveraggi Allende, inspirado no êxito da fundação de Israel, dedicou-se a acumular dados e documentos que falavam do misterioso “plano sionista” e, em 1971, tentava também explicar que todos os desequilíbrios da economia argentina eram manipulados por membros do judaísmo  internacional visando à desestabilização social.

“Turismo militar”

Sem dúvida, o suposto plano para anexar a Patagônia a algum outro território sob o controle de um poder relacionado com Israel ou com a comunidade judaica internacional é produto de mentes antissemitas  e neonazistas febris. Ainda hoje, estas não titubeiam em buscar os mais esotéricos e exóticos argumentos e provas imaginárias para justificar as suas posturas ideológicas, adicionando ao  Plano Andínia outras teorias conspirativas, como o negacionismo do genocídio do povo judeu durante a Segunda Guerra Mundial.

Não é brincadeira. Durante a ditadura civil-militar que assolou a Argentina entre 1976 e 1983, muitos prisioneiros políticos de origem judaica eram investigados com relação a esse Plano Andínia ‒ dos 30 mil detidos/desaparecidos naquele escuro período, uns dois mil eram de origem judaica ‒, entre eles o jornalista Jacobo Timerman. Diretor do então prestigiado jornal La Opinión e pai do atual chanceler, Timerman afirmava que o Plano Andínia era um dos eixos do brutal interrogatório a que foi submetido pelos parapoliciais que o sequestraram e torturaram.

Recentemente, algumas dessas ideias funestas voltaram à tona ‒ em Bariloche, contra o povo israelense, e  com o slogan “Judeus, fora da Patagônia” carimbado em notas de dois pesos argentinos. Há poucos meses, um hostel  onde costumam se hospedar turistas israelenses, foi alvo de um atentado com uma bomba molotov que provocou um  início de incêndio num dos chalés. Completando a cena, apareceram panfletos com a frase “Israelenses, fora da região”. Houve quebra de mobiliário, agressão física aos proprietários, a uma turista e a três policiais, e ataques com termos discriminatórios contra a comunidade judaica. Está tudo gravado  pelas câmaras de segurança do estabelecimento e servirá para ajudar nas investigação policial.

Dada a continuação das provocações, violência e ofensas, o hostel está com as portas fechadas, deixando sem trabalho não só os proprietários, mas também os onze empregados.  Também apareceram cartazes em algumas casas comerciais, hostels e quiosques da feira de artesanato de El Bolsón, assinados por um Comitê de Solidariedade com a Palestina, dizendo “Aqui não os queremos. Boicote ao turismo militar israelense”.

Houve reação do INADI (Instituto Nacional contra a Discriminação, a Xenofobia e o Racismo), e o delegado provincial pediu à Prefeitura e à Província a “retirada dos cartazes e análise da aplicação de sanções aos estabelecimentos envolvidos”,  pois tais atos configurariam “a promoção de práticas xenofóbicas e discriminatórias em relação aos cidadãos israelenses”.

Aparentemente, os agressores são da localidade de Lago Puelo, foram identificados e se encontram à disposição da Justiça da Província de Chubut.

Após fazerem o boletim de ocorrência e decidirem fechar as portas, os donos do hostel pediram “condições de segurança para reiniciar a atividade e agradeceram as manifestações de solidariedade de vizinhos e amigos”.

A delegação Rio Negro do Inadi expressou a sua preocupação ante o surgimento “desse tipo de fatos anônimos que tentam gerar um clima de perseguição a pessoas que professam a religião judaica ou são de nacionalidade israelense; por isso exortamos toda a sociedade e se manter alerta e condenar as ações dos que pretendem semear o ódio”.

Simultaneamente, numerosas entidades da comunidade judaica se pronunciaram repudiando o ataque e se solidarizando com os agredidos. O sucedido foi uma verdadeira infâmia.

Boletim nº 153 – março/abril de 2015 – Ano 26

Especial para ASA

Daniel Silber

Professor na província de Santa Fé (Argentina). É colunista do Boletim ASA.

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